
O deslocamento forçado caiu pela primeira vez em uma década, mas quase 118 milhões ainda é um número alarmante. O alerta é feito pelas Nações Unidas no relatório anual “Tendências Globais”, publicado nesta quinta-feira em Genebra.
O estudo revela que 2025 fechou com 117,8 milhões de pessoas vivendo nessa situação, ou 3% abaixo do total global de pessoas forçadas a deixar suas casas no ano anterior devido a conflitos e perseguições.
A Agência da ONU para Refugiados, Acnur, diz que apesar de ser um sinal de esperança, a crise humanitária global segue em níveis inaceitáveis. A queda foi estimulada pelo retorno às terras de origem e a obtenção de cidadanias.
Os novos dados abarcam o número cumulativo de refugiados, candidatos a asilo e deslocados internos em nível global no final de 2025. Destes, cerca de 41,6 milhões são refugiados, sendo que 40% deles são crianças.
No ano passado, estima-se que 5,4 milhões de pessoas cruzaram fronteiras internacionais em busca de refúgio. Destas, 70% vivem no exílio há cinco ou mais anos, a maioria retida em campos improvisados em nações de baixa e média renda.
O levantamento cita ainda o Brasil como uma liderança humanitária fundamental na América Latina. É o único país de língua portuguesa que vem mencionado pelo Acnur como “integrante da linha da frente do acolhimento regional de refugiados”.
No território brasileiro estão abrigados atualmente cerca de 699 mil pessoas deslocadas, consolidando a posição do país como o terceiro maior anfitrião do continente.
Além disso, o Brasil registou um crescimento expressivo de 11% no número de novos pedidos de asilo individuais, totalizando 75,6 mil solicitações, o que reflete “a confiança internacional nas políticas de acolhimento”.
Alinhado com os esforços regionais de inclusão, o país foi ativo nas campanhas de registro civil e concessão de identidade legal. Essas ações garantiram a documentação de mais de 32,2 mil nascidos, assegurando direitos básicos e dignidade aos novos cidadãos.
Mesmo com o declínio global, novas e velhas guerras continuam a arrasar populações civis de forma desigual, segundo a publicação do Acnur.
No caso do Sudão, a atual guerra civil causou o maior deslocamento interno global ao forçar 9,1 milhões de pessoas a fugir de suas casas. Países como Colômbia, Síria, Iêmen e Afeganistão integram as nações com as maiores populações deslocadas.
Em relação ao acolhimento, a Colômbia, a Alemanha e a Turquia lideram a lista, abrigando mais de 2 milhões de refugiados cada um. Nas projeções para 2026, a instabilidade contínua faz prever sinais de piora.
Com a eclosão da guerra no Irã em fevereiro, um total de 3,2 milhões de pessoas se deslocaram até março no país do Oriente Médio. Além disso, até meados de maio, 1 milhão de pessoas foram deslocadas dentro do Líbano.
O Acnur realça ainda o dilema dos retornos em níveis históricos e o peso da população que continua sem nacionalidade, conhecida como apátrida.
Em 2025, 4,4 milhões de refugiados voltaram para seus países, sendo que 90% deles regressaram para Síria, Afeganistão e Sudão. Foi o segundo maior movimento de retorno em seis décadas.
No entanto, a ONU alerta que muitos deles retornaram sob extrema pressão, sem infraestrutura básica ou dignidade.
Já em relação aos apátridas, milhões de pessoas continuam sem nacionalidade reconhecida. Os rohingya de Myanmar formam o maior grupo. Em 2025, apenas 46 mil cidadãos desta minoria conseguiram adquirir uma cidadania.
O relatório aponta uma queda drástica no número de refugiados reassentados de forma permanente em países terceiros. São menos de 188 mil. O apelo da ONU é para que os governos criem rotas legais e seguras de migração em nível global.
A meta do Acnur é, até 2035, baixar pela metade o número de refugiados dependentes de ajuda humanitária de longo prazo, “transformando a sobrevivência em autossuficiência e dignidade real”.
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