Para os sommeliers de encontros de cúpula, os encontros sucessivos de Xi Jinping com Donald Trump e Vladimir Putin ofereceram um pequeno banquete.
O líder chinês proverbialmente jantou o presidente americano e seu gestual abusivo na reunião de ambos no fim de semana. Com o russo, com quem esteve mais de 40 vezes na sua carreira, o jogo foi mais sutil.
Xi sempre deu a Putin o palco desejado pelo chefe do Kremlin: pompa e palavras que sugerem uma parceria inabalável. Sua diplomacia simbólica também é mais calorosa, mas o encontro desta quarta-feira (20) teve nuances significativas.
A mais óbvia ocorreu na chegada de Putin. Enquanto Xi aguardava imperialmente no tapete vermelho, a limusine Aurus do russo estacionou a certa distância, obrigando o presidente a atravessar um chão nu até chegar ao anfitrião.
Por evidente, é só um detalhe, mas que trai a realidade indesejada na Rússia de que o país hoje é um parceiro importante, mas minoritário da Guerra Fria 2.0 iniciada pelo mesmo Trump contra a assertividade de Xi no longínquo 2017.
Para os propagandistas da multipolaridade à chinesa, em particular os financiados por ela, o documento invocando uma nova era nas relações internacionais é pura música. O texto não erra ao apontar o enterro da ordem do pós-guerra, de resto pedra de toque do trumpismo.
O que soa contraditório é o de sempre: o cinismo, ou pragmatismo, da defesa de uma pluralidade a partir de centros autoritários que vetam o dissenso. Ou não, dado que a Europa cambaleia e os Estados Unidos sob o republicano já jogaram valores para um plano secundário.
Dito isso, a melodia tem ares chineses, dada a gravidade do polo de Xi. Pressionado pelo recrudescimento da Guerra da Ucrânia e pela condição de auferir ganhos com a desgraça do aliado Irã, Putin até desembarcou em Pequim lembrando que está sentado sobre um formidável arsenal nuclear.
Mas os exercícios em curso, que tanto assustam a Europa, não pareceram comover Xi. Como é evidente, não se sabe a profundidade do que foi discutido em termos de segurança global entre ambos, mas não é segredo que o russo não é um entusiasta da reaproximação entre China e EUA.
Ainda mais importante foi a ausência de definição acerca do Força da Sibéria 2, um megagasoduto dobrando a capacidade atual de exportação russa para a China que livraria Putin do garrote imposto pelos europeus com as sanções devido à guerra contra Kiev. Xi também ganharia ante a indefinição no Oriente Médio, mas nada emergiu.
Moscou precisa dos chineses, mas a corrente comercial recorde de 2024 desacelerou 7% no ano passado. Como a Folha mostrou em outubro, Putin expressa privadamente desconfiança acerca das intenções dos aliados.
Há outras rusgas que remetem à história de rivalidade entre os dois colossos territoriais, com especial tensão nas fronteiras orientais da Rússia, o que quase levou soviéticos e chineses às vias de fato nucleares nos anos 1960.
Ainda assim, a fotografia antiamericana do encontro foi refeita, gerando apreensão na Ucrânia. Em Kiev, poucos se esquecem que a invasão de 2022 ocorreu três semanas após Putin ir a Xi para selar uma aliança estratégica que só fez aprofundar de lá para cá.
Ambos os líderes também compartilham o incômodo com a guerra de Trump contra o Irã, terceiro maior fornecedor de petróleo para a China em 2025. Nesse sentido, é presumível que haja alguma coordenação em curso visando pressionar o americano, talvez envolvendo a própria questão ucraniana.
Seja como for, mesmo com um décimo do arsenal atômico de Putin, Xi preside uma economia dez vezes maior do que a do vizinho e tem uma agenda geopolítica muito mais ampla. Nesta cúpula, ele deu as cartas.




