“Everton FC, o Partido Trabalhista e a Igreja Católica. Nessa ordem.” Em 2009, foi assim que Andy Burnham, novo primeiro-ministro do Reino Unido, respondeu quando perguntado sobre as coisas mais importantes em sua vida, além da família.
“A razão pela qual digo isso é que tudo se resume à identidade cultural.”
Everton é o rival local do outro time de Liverpool, que leva o nome da cidade e tem habitado regiões mais elevadas da tabela da Premier League, a primeira divisão do Campeonato Inglês. Na última temporada, o time de Burnham, um dos mais tradicionais do país e que já teve brasileiros como Jô e Richarlison no elenco, foi apenas o 13° colocado.
Detalhe para quem é torcedor do clube desde criança e tem ingresso de temporada, a versão europeia de cadeira cativa. O agora chefe de governo promete continuar ocupando seu lugar no estádio, algo que o antecessor Keir Starmer, torcedor do atual campeão Arsenal, não conseguiu fazer por questões de segurança nos últimos dois anos.
Acostumado a manter conversas com pessoas nas ruas durante seus três mandatos como prefeito da Grande Manchester, Burnham afirma que se manterá acessível à população.
Atacante na juventude e na universidade, em Cambridge, o novo premiê é autor de um importante projeto de lei relacionado ao futebol, a chamada lei de Hillsborough.
O nome vem da maior tragédia esportiva do país, que alterou as regras de segurança de praças esportivas em todo o planeta. Em 1989, na semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest, uma manobra equivocada da polícia local para aliviar a lotação do estádio provocou a morte de 97 torcedores e centenas de feridos. Por vários anos, as autoridades culparam o comportamento da torcida, versão que foi descartada em um inquérito concluído em 2012.
A legislação proposta por Burnham, apresentada em 2017 e aprovada apenas na semana passada pelo Parlamento, busca coibir o encobrimento de provas e omissões por parte de agentes de segurança e servidores públicos.
Ainda que amenizado por pressões políticas, o texto acabou por reforçar a identificação do novo premiê, um dos políticos mais populares do país, com o futebol.
A vida pessoal de Burnham também chama a atenção pelo fato de ser católico, característica incomum em chefes de governo britânicos. Em tese, uma legislação do século 19 não permite que integrantes da Igreja Católica aconselhem o rei direta ou indiretamente.
Em entrevista ao Times, publicada antes da posse, nesta segunda-feira (20), Burnham afirmou que certas decisões relacionadas à Igreja Anglicana serão delegadas a outras instâncias do governo.
Durante sua segunda campanha para se tornar líder do Partido Trabalhista, em 2015, o então parlamentar instou o papa Francisco a ser mais assertivo sobre os direitos da comunidade gay na Igreja. O posicionamento, contou mais tarde, lhe custou alguns atritos com amigos e família.
Burnham é casado com Marie-France van Heel, executiva de marketing holandesa, que conheceu na faculdade, e tem três filhos.




