Donald Trump visitou a China, e a esta altura o leitor que acompanha esta coluna possivelmente espera que eu use este espaço para analisar os desdobramentos da ocasião. Haverá momento para isso no meu próximo texto, mas por hora gostaria de focar um tema que talvez tenha passado fora do radar no noticiário brasileiro.
É que enquanto o presidente americano se reunia com Xi Jinping, uma das maiores empresas de inteligência artificial do mundo fez algo pouco comum nessa área: publicou um artigo sobre como analisa a competição com a China nesta tecnologia tão definidora do futuro próximo.
Dona do modelo Claude e avaliada em mais de US$ 60 bilhões, a Anthropic divulgou na quarta-feira (13) um documento defendendo que Estados Unidos e aliados precisam agir agora para consolidar uma vantagem de 12 a 24 meses sobre a China em IA até 2028.
Intitulado “2028: Dois cenários para liderança global em IA”, não é um artigo acadêmico. É uma empresa dizendo ao governo Trump o que fazer e por quê.
A tese central é que a corrida por IA é, antes de tudo, uma corrida pelos chips avançados nos quais os modelos são treinados. EUA e aliados dominam essa cadeia, e controles de exportação bipartidários limitam o acesso chinês.
O paper cita estimativa de que a Huawei produzirá em 2027 apenas 2% da capacidade de processamento da NVIDIA e sustenta que vantagem em computação se converte em vantagem algorítmica porque mais chips permitem mais experimentos, que geram avanços técnicos num ciclo que se retroalimenta.
O problema é que duas brechas vêm permitindo que laboratórios chineses se mantenham competitivos. A primeira é o acesso ilícito a chips americanos, por contrabando ou uso remoto de data centers no Sudeste Asiático, rota documentada pelo Financial Times envolvendo Alibaba e ByteDance.
A segunda são os ataques de destilação, em que empresas chinesas criam contas falsas para extrair capacidades de modelos americanos e usá-las como atalho. A Anthropic classifica isso de espionagem industrial e uma “porta dos fundos” do modelo de negócios dos laboratórios chineses.
O documento avança para dois cenários em 2028. No primeiro, Washington fecha essas brechas, e a liderança americana se consolida a ponto de democracias definirem as regras da IA. No segundo, a inação permite que o Partido Comunista alcance paridade e use IA para repressão automatizada, ofensiva cibernética e expansão de infraestrutura no Sul Global, com data centers da Huawei e da Alibaba oferecendo modelos baratos e “bons o suficiente” para mercados de menor custo.
É nesse cenário que países como o Brasil aparecem, não como agentes de estratégia tecnológica própria, mas como terreno disputado por infraestrutura americana ou chinesa, leitura que deveria incomodar Brasília.
O artigo tem limitações claras porque não toca no fato de que a Anthropic se beneficia dos controles que defende e tem interesse em que modelos chineses de código aberto percam mercado. Mas a franqueza com que expõe a disputa geopolítica da IA, especialmente no setor de tecnologia que é geralmente dependente da China para insumos ou mercado consumidor, é rara.
Para quem acompanha a competição EUA-China, leitura obrigatória. Para quem formula política tecnológica no Brasil, um alerta de que a janela para definir quem controla a IA do futuro está se fechando. Se não estivermos na corrida, vamos ter que conviver com quem vencer.




