As guerras que não vemos – 14/06/2026 – Bianca Santana

As guerras que não vemos - 14/06/2026 - Bianca Santana


Em 2025, a invasão da Rússia à Ucrânia e a de Israel a Gaza estiveram entre os conflitos mais letais do planeta, assim como a guerra civil do Sudão.

O levantamento do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo (Prio) informa que os três conflitos foram os principais responsáveis pelas 245 mil mortes diretas registradas no ano. Sem contar as pessoas que morreram por falta de tratamento médico ou acesso a medicamentos causada pelos conflitos, como aconteceu com a ativista sudanesa Roya Hassan.

Sem propor qualquer hierarquia entre as guerras, é fato que dois desses conflitos recebem mais atenção da comunidade internacional e da imprensa.

O mesmo levantamento mostra que a África concentrou 29 dos 65 conflitos armados envolvendo Estados, mais do que qualquer outra região do mundo. O Oriente Médio atingiu seu maior número de conflitos desde 1946. A Ásia viveu o nível mais elevado desde 1994. E o Haiti, praticamente ausente do debate internacional, viu as mortes em conflitos saltarem de cerca de 200 para mais de 1.200 em um ano.

Em “Os Condenados da Terra”, Frantz Fanon mostra como o racismo subjuga determinados corpos, reduzindo ou retirando completamente sua humanidade como justificativa da violência e da exploração. Determinadas vidas são reconhecidas como humanas, e as vidas consideradas “outras” não têm o mesmo valor.

A Guerra da Ucrânia produz mobilização diplomática imediata, cobertura diária detalhada da imprensa internacional e sucessivas análises estratégicas. O massacre de El Fasher, no Sudão, que se estima ter chegado a quase 60 mil mortos em uma única semana de outubro de 2025, permaneceu praticamente invisível no debate internacional.

Repito que não se trata de estabelecer uma competição entre massacres, mas de observar que a hierarquia da atenção costuma acompanhar a hierarquia racial global.

O estudo também aponta uma transformação geopolítica importante. Nos anos 1990, repetia-se, com convicção, entre economistas e organismos multilaterais, que a expansão do comércio internacional, das cadeias globais de produção e da interdependência econômica reduziria progressivamente os incentivos para a guerra. Mercados integrados produziriam estabilidade. Países que negociam entre si não teriam interesse em se destruir mutuamente.

E mais uma vez a hipótese de que o mercado resolve sozinho os problemas é desmentida. Em 2025, o mundo registrou oito conflitos entre Estados, o maior número desde o fim da Segunda Guerra (1939 – 1945). Muitos desses Estados, com intensa relação comercial entre si.

O comércio global coexiste com nacionalismos exacerbados, a competição por recursos e a indústria armamentista ampliada. A globalização do mercado, como tão bem nos anunciava Milton Santos, não elimina a hierarquização, as exclusões e as desigualdades.

Como agravante, vemos guerras civis e conflitos internacionais misturados às milícias e ao crime organizado, além da ameaça crescente à soberania de países, especialmente na América Latina, justificada como enfrentamento a facções, agora classificadas de terroristas.

Há interesses econômicos e estratégicos. Mas há também colonialismo e racismo nas guerras e no olhar sobre elas. O mundo continua atribuindo valores diferentes a corpos diferentes.


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Fonte CNN BRASIL

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