Timmy, Hope ou apenas baleia. Não há consenso nem sobre como chamar a jubarte de 12 toneladas encalhada em um banco de areia no mar Báltico. Ela vai morrer, questão de dias, dizem especialistas e o governo local. A espera, acompanhada ao vivo por sites, canais de TV e ativistas de toda sorte, comove e divide a Alemanha há mais de um mês.
Evento relativamente comum na região, Timmy encalhou ao menos quatro vezes em locais próximos à costa norte da Alemanha desde o começo de março. A primeira aparição se deu na praia de Timmendorf, daí o apelido usado por parte da mídia do país.
Liberada com ajuda de especialistas e bombeiros, voltou a atolar na baía de Wismar, cerca de 50 km a leste. Sozinha, escapou para voltar a encalhar não muito longe dali, nas proximidades da ilha de Poel, quase em frente a Wismar, onde está agora.
A área toda é de águas rasas. Neste momento, Timmy tem 40 cm do corpo para fora da água em um trecho com profundidade de apenas 1,4 m. Para sair sozinha da encrenca, precisaria de no mínimo 2 m. Se é que ela conseguiria fazer qualquer coisa no estado em que está. Ajudá-la ou aceitar a ordem natural das coisas virou uma polêmica nacional.
“Do nosso ponto de vista, não faz sentido causar esse sofrimento ao animal. Por isso, temos que deixá-lo em paz e deixá-lo morrer em paz. Não é agradável, não deixa ninguém feliz, e gostaríamos que o desfecho fosse outro, mas é assim que as coisas são”, disse em entrevista coletiva Stephanie Gross, da Universidade de Hannover.
Recrutada pelo governo de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, estado alemão que coordena os esforços em torno de Timmy, Gross explicou que uma nova operação para mover a jubarte seria muito estressante para a baleia. “Já é a quarta vez que ela encalha. Não vamos ganhar nada apenas retirando desta área de águas rasas usando correias, cordas ou o catamarã, que lhe causarão ferimentos graves, apenas para que volte a encalhar logo depois.”
O tal catamarã é uma das tantas traquitanas que surgiram nas últimas semanas como solução de resgate. Com capacidade para tirar o bicho do lugar e levá-lo para alto mar, veio da Dinamarca, mas foi dispensado. A pele de Timmy provavelmente não aguentaria as correias, pois está fragilizada pela água salobra do lago onde está presa, na ilha de Poel.
“Em um eventual transporte, o próprio peso da baleia acabaria por comprimi-la, e não sabemos que tipo de lesões internas ela já tem. Ou seja, uma manobra não seria apenas muito estressante, como também potencialmente perigosa”, diz à Folha Daniela von Schaper, do braço alemão do Greenpeace, que participou de uma tentativa de guiar Timmy para longe da costa no mês passado.
À época, a intenção ainda era liberar a jubarte com a ajuda de uma draga submarina, que já havia tido sucesso em escavar um canal no leito do mar para lhe dar espaço de manobra em Timmendorf. “Quando chegamos pela manhã, ela tinha sumido, o que era um bom sinal”, conta Von Schaper.
Após uma hora, Timmy foi avistada, e o trabalho de condução começou, sempre tentando manter o animal longe da costa.
“Deu certo durante o dia, mas, à noite, você perde ela de vista. Não dá para segui-la porque está escuro, e o risco de colisão é muito alto.” No dia seguinte, Timmy encalhou na baía de Wismar. A operação de estimulá-la se repetiu, assim com sua liberação e seu sumiço. No terceiro dia, a jubarte foi encontrada encalhada no local em que está até agora.
“Tivemos que aceitar que ela estava simplesmente muito fraca. Acho que procurou um lugar para descansar e ficar tranquila”, diz Von Schaper, que concorda com a atual operação de “cuidados paliativos”, como descrito por Till Backhaus, ministro de Meio Ambiente de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental, cargo equivalente a secretário.
Uma eutanásia também foi descartada. Como eventualmente fazê-la, foi um dos tantos debates das últimas semanas. “Descartada explosão para sacrificar a jubarte”, dizia o título de uma reportagem no site da revista Focus. A discussão surgiu depois de Backhaus explicar que tiros de misericórdia não funcionam em baleias.
Timmy tem 12,35 m de comprimento, 3,2 m de largura e 1,6 m de altura —atingi-la fatalmente seria um exercício de sorte.
Uma onda viral de protestos, no entanto, exige que alguma operação seja tentada para salvar a baleia. O Greenpeace, Von Schaper e especialistas que opinaram o contrário foram inundados com desaforos e ameaças nas redes sociais.
“Tive que instalar um software no meu celular para filtrar ligações. Isso é muito difícil, porque fomos até lá para ajudar a baleia”, diz a ativista, comparando a situação aos tempos da pandemia, quando cientistas eram constantemente desqualificados por críticos e políticos.
A confusão começou depois que um youtuber, Robert Mark Lehman, conhecido na Alemanha como “encantador de baleias”, afirmou em seu Instagram, com mais de um milhão de seguidores, que estava sendo boicotado nos esforços de resgate, o que é negado pelas autoridades.
O biólogo havia participado de uma das primeiras operações, reivindicando para si uma liberação da baleia que foi obtida pelo uso da draga. Também não se pondera que Timmy não estava tão debilitada como agora. Lehman fechou suas redes sociais e sumiu após a acusação.
A onda de protestos continua intensa nas redes sociais e in loco. No último domingo (12), uma mulher de 58 anos pulou de uma balsa para tentar nadar até Timmy. Foi contida pela polícia.
Já há processos na Justiça. A baleia virou pauta para políticos da AfD, o partido populista de ultradireita alemão. Frank-Walter Steinmeier, presidente da Alemanha, estará na região na quinta-feira (16) e promete discutir o assunto com os governantes locais.
“O parágrafo 1° da Lei Alemã de Bem-Estar Animal estabelece explicitamente que ninguém tem o direito de causar dano ou ferimento a um bicho. [Remover a baleia] seria um dano grave. Trata-se de um animal selvagem. Mantemos essa posição. É um animal selvagem que agora deve seguir seu curso natural. Por mais ruim e terrível que isso possa parecer”, declarou Backhaus, ao explicar sua decisão.




