Bolívia: Bloqueio piora crise alimentar e ameaça hospitais – 04/06/2026 – Mundo

Bolívia: Bloqueio piora crise alimentar e ameaça hospitais - 04/06/2026


Graciela Cancari, uma mulher indígena aimará, caminhou durante duas horas na manhã de terça-feira (2) de sua casa em El Alto até chegar a sua barraca de frutas. Devido à falta de transporte público, ela empurrava um carrinho carregado não só com produtos, mas também com sua filha, que tem uma deficiência e não pode ficar sozinha.

El Alto e o município vizinho de La Paz estão entre as áreas mais afetadas pelos protestos que ocorrem na Bolívia há 35 dias, impedindo a passagem de alimentos, medicamentos e combustível.

“A situação está muito ruim; estamos preocupados. Outros nem têm dinheiro suficiente para comprar nada; está muito caro”, diz a vendedora, que comercializa seus produtos nos mercados de El Alto.

Desde 1º de maio, a Central Operária Boliviana e a Federação Camponesa Tupac Katari —alinhadas ao ex-presidente Evo Morales— mantêm uma greve nacional com bloqueios de estradas em sete dos nove departamentos do país. Elas exigem a renúncia do presidente Rodrigo Paz.

Há pelo menos 90 pontos de bloqueio de estradas impedindo o livre trânsito e provocando uma escassez progressiva de itens básicos de alimentação. Essa escassez levou a aumentos de preços que tornaram muitos alimentos inacessíveis para setores da população.

Graciela conta que, há duas semanas, investiu na compra de tangerinas, mas, como muitas pessoas não têm mais dinheiro, teve de vendê-las por um preço menor, resultando em um prejuízo de 300 bolivianos (R$ 216).

A volatilidade do mercado obrigou diversos vendedores em El Alto e La Paz a fecharem temporariamente suas barracas em feiras e mercados. Os mais afetados, no entanto, são as famílias consumidoras, que enfrentam dificuldades crescentes para encontrar e comprar itens básicos de alimentação. Muitas reduziram a quantidade e a variedade de produtos que normalmente compram.

A escassez e o aumento de preços são evidentes em alimentos frescos: verduras, frutas, carnes, laticínios e ovos. Produtos como macarrão instantâneo, açúcar e alguns alimentos processados mantêm preços mais estáveis.

Reina López, moradora de El Alto, confirma que os bloqueios reduziram a disponibilidade de mercadorias nos mercados e aumentaram os preços. Antes, ela gastava 150 bolivianos (R$ 108) em comida; agora, 200 bolivianos (R$ 144) mal compram um quilo de carne e alguns outros itens.

Isso porque um frango inteiro custa atualmente de 100 a 120 bolivianos (R$ 72 a R$ 86), enquanto um quilo de carne bovina custa 120 bolivianos (R$ 86), aproximadamente o dobro do preço antes dos protestos. O aumento se deve ao fato de que a carne precisa ser transportada por via aérea de Santa Cruz, o departamento produtor.

O preço dos vegetais aumentou de quatro a seis vezes. No popular mercado Rodríguez, em La Paz, por exemplo, meio quilo de tomates passou de 2 ou 3 bolivianos (de R$ 1,44 a R$ 2,16) para 10 bolivianos (R$ 7,20), enquanto uma cuartilla (pacote equivalente a quase três quilos) de cenouras subiu de 8 a 12 bolivianos (de R$ 5,76 a R$ 8,64) para 35 a 40 bolivianos (de R$ 25,20 a R$ 28,80).

Diversas famílias foram obrigadas a racionar o consumo de alimentos, enquanto outras mal conseguem comprar o básico. É o caso da sogra de José Leoto, que faz compras no mercado Rodríguez e agora escolhe apenas alguns vegetais.

José conta que a viu chorando há alguns dias ao perceber que os 500 bolivianos (R$ 360) de sua Pensão Dignidade (um benefício destinado a idosos) não são mais suficientes para comprar comida.

Essa situação está agravando a segurança alimentar. A situação é especialmente preocupante em lares com crianças. Autoridades afirmam que a crise está impactando direitos fundamentais como o direito à alimentação, à saúde e à vida.

Na tarde de segunda-feira (1º), o Hospital Norte de El Alto estava prestes a ficar sem oxigênio líquido, colocando em risco a vida de 12 pacientes em estado crítico na UTI. Após uma série de negociações entre o gabinete do governador de La Paz e o Ministério da Saúde, foi garantida a compra de 30 cilindros de oxigênio adicionais, o suficiente para suprir a demanda por três dias.

A situação nos sete hospitais de nível terciário do departamento de La Paz é crítica, afirma o diretor do Serviço Departamental de Saúde, José Carrasco. A impossibilidade de transportar oxigênio líquido devido aos bloqueios fez com que as reservas atingissem níveis criticamente baixos em vários momentos.

Há também escassez de anestésicos e medicamentos cirúrgicos. Diante dessa situação, o Complexo Hospitalar de Miraflores, que possui quatro unidades especializadas, decidiu suspender as cirurgias eletivas e atender apenas casos de emergência.

“O departamento declarou estado de emergência sanitária, o que nos permite iniciar os procedimentos administrativos para obter maiores recursos financeiros”, explica Carrasco.

Além da crise enfrentada pelos hospitais, outro problema tem sido a dificuldade na transferência de pacientes. Algumas ambulâncias ficaram bloqueadas e, segundo o Ministério da Saúde, cinco pessoas morreram a caminho do Hospital de Clínicas de La Paz para receber atendimento especializado.

Os pacientes vivenciam essa vulnerabilidade diariamente no acesso à assistência médica, principalmente devido à escassez e ao aumento dos preços dos medicamentos. A farmácia do Hospital de Clínicas não possui todos os suprimentos necessários, então os pacientes precisam comprá-los em farmácias particulares e arcar com os custos.

Filas enormes nos postos de gasolina duram o dia todo. Kevin Coarite, que trabalha com delivery, decidiu, como seus colegas, montar barracas na fila de veículos que aguardavam gasolina. Dessa forma, ele consegue se proteger do frio da noite enquanto espera que o fornecedor do Automóvel Clube Boliviano, no centro de La Paz, receba o combustível para encher seu tanque com os 12 litros que lhe permitirão trabalhar por pelo menos três dias.

Coarite passa dois dias esperando e, devido ao tempo gasto abastecendo, acaba perdendo uma parte significativa de sua renda: de 100 a 200 bolivianos (de US$ 10,08 a US$ 20,16) por dia.

Nesse posto de gasolina, a fila de veículos, incluindo motocicletas e carros, estende-se por cerca de 12 quarteirões. Segundo os funcionários do fornecedor, a última remessa de combustível não continha os 24 mil litros que normalmente cabem em um tanque. Durante a visita da reportagem na quarta-feira (3), os motoristas ainda aguardavam um novo abastecimento, embora ninguém conseguisse precisar quando ele chegaria.



Fonte CNN BRASIL

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