
CAROLINA LINHARES E THAÍSA OLIVEIRA
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS) – Passados os 90 dias de prisão domiciliar que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes concedeu a Jair Bolsonaro (PL), parentes e aliados do ex-presidente dizem esperar uma prorrogação em nome de sua saúde, ainda que seu isolamento político tenha se agravado no período.
A continuidade da prisão domiciliar, no entanto, está ameaçada pela apreensão, na semana passada, de uma arma de Bolsonaro com dos seus seguranças. O agente a levava para o conserto, segundo a defesa do ex-presidente afirmou à polícia.
Em um despacho nesta quarta-feira (24), Moraes disse que isso demonstra uma “falta grave” e pode ensejar “a cessação da prisão domiciliar”. O ministro pediu a opinião da PGR (Procuradoria-Geral da República), que disse não ver, até aqui, uma falta disciplinar e falou em aguardar as investigações. Os 90 dias se encerraram nesta quinta-feira (25).
Interlocutores do ex-presidente dizem acreditar que a disposição de Moraes é encerrar a prisão domiciliar, mas que a posição da PGR pode fazer diferença. Além disso, outros ministros do STF preferem que Bolsonaro seja mantido em casa.
Bolsonaristas afirmam que a volta de Bolsonaro para a unidade conhecida como Papudinha daria a Flávio Bolsonaro, presidenciável do PL, uma plataforma eleitoral mais robusta em torno de uma suposta perseguição ao pai, além de gerar turbulência política e colocar a vida do ex-presidente em risco.
Por outro lado, quem esteve com Bolsonaro ao longo dos 90 dias afirma que sua saúde teve melhora, com crises de soluço menos frequentes, mas ressalta que seu estado ainda é frágil e poderia não suportar uma nova prisão. Relatos médicos deste mês indicam cansaço e fadiga do ex-presidente, além de ocasiões em que estava sonolento ou sem disposição por conta de remédios.
Ao contrário da avaliação feita inicialmente por aliados, o diagnóstico de pessoas próximas ao final desses 90 dias é que, na prisão domiciliar, as restrições de saúde e de visitas limitaram a atuação política do ex-presidente.
Desde que Bolsonaro tentou romper a tornozeleira eletrônica, em novembro, o contato dele com o mundo político ficou concentrado em Flávio, tido por bolsonaristas como o único porta-voz do pai.
Michelle Bolsonaro (PL), por sua vez, que brigou publicamente com Flávio, tem dito que seu foco é cuidar de Bolsonaro e não atuar eleitoralmente, embora ela defenda junto ao marido que o PL lance suas aliadas. Ela também quer gravar vídeos de apoio a pré-candidatas como presidente do PL Mulher.
Entre médicos, advogados e filhos, Flávio foi uma das 14 pessoas que estiveram com Bolsonaro nesse período, sem contar Michelle e suas filhas, que não precisam de autorização e nem são submetidas ao controle do 19º Batalhão de Polícia Militar.
A cada semana, a Polícia Militar informa a Moraes quem entrou na casa de Bolsonaro e por quanto tempo lá permaneceu, já que advogados, por exemplo, têm no máximo 30 minutos por dia com o ex-presidente, enquanto os filhos podem visitá-lo por até 2 horas às quartas e sábados.
Segundo os registros mais recentes, desde 27 de março, quando Bolsonaro deixou o hospital após um quadro de pneumonia causada pelos soluços e se instalou em casa, até 17 de junho, Flávio esteve com ele 26 vezes, ora na condição de advogado, ora na de filho.
Foi essa internação que levou Moraes a autorizar a prisão domiciliar por 90 dias, após ter recebido pedidos pessoalmente de Michelle e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).
Nesse período, segundo quem convive com o ex-presidente, Bolsonaro tem assistido televisão e convivido com os cachorros da casa. Suas condições de alimentação melhoraram, já que tem acesso às refeições durante todo o dia e não apenas em horários determinados, como ocorria na Papudinha.
Quatro médicos e fisioterapeutas se revezaram no atendimento ao ex-presidente, que também é assistido por quatro diferentes advogados. Um deles é o ex-ministro Adolfo Sachsida. De acordo com o relato da PM, Sachsida foi visitar Bolsonaro no último dia 9, mas “o atendimento não foi realizado devido ao estado de sonolência do monitorado, decorrente do uso de medicamentos”.
No último dia 13, Bolsonaro teve visitas especiais autorizadas -da nora Fernanda Bolsonaro, casada com Flávio, e de duas netas.
Auxiliares de Flávio afirmam que o senador tem discutido sua pré-campanha com o pai, na medida do possível, e que o presidenciável não toma decisões sem antes consultá-lo. Nesse sentido, dizem que a opinião de Bolsonaro vai pesar na escolha de um vice, na definição de palanques pelo país e no dilema a respeito de quem seria o ministro da Economia caso o bolsonarista vença a eleição.
Ainda assim, de acordo com interlocutores do ex-presidente, o tempo limitado de Flávio com o pai, as viagens do senador pelo país e o dinamismo da campanha impedem que Bolsonaro tenha maior participação, o que o deixa frustrado.
Bolsonaristas afirmam que o plano de Moraes foi inviabilizar o ex-presidente politicamente, mas que a prioridade é mantê-lo vivo e, portanto, em casa para concretizar o plano de que, caso Flávio vença a eleição, o pai o acompanhe ao subir a rampa do Planalto na cerimônia de posse.
Colaborou Ana Pompeu, de Brasília
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