O governo Lula (PT) emitiu uma nota nesta quinta-feira (23) em que manifestou preocupação com as declarações do ditador da Nicarágua, Daniel Ortega, em que afirmou que o país “não voltará a ter eleições”. O comunicado do Itamaraty pede que as autoridades locais garantam o direito ao voto.
“[O governo brasileiro] recorda que a realização de eleições livres, periódicas, plurais e transparentes é um dos esteios da democracia, valor com que o Brasil tem um profundo compromisso”, diz nota do Ministério das Relações Exteriores. “Conclama as autoridades do país, por isso, a assegurarem ao povo nicaraguense o livre exercício do direito soberano de escolha dos seus governantes.”
Daniel Ortega governa a Nicarágua há quase 20 anos. A fala a qual o governo brasileiro se refere foi feita durante a cerimônia de celebração da Revolução Sandinista do último domingo (19), em que o ditador participou após um período sem aparições públicas.
“Esqueçam! Não haverá mais eleições aqui para que eles possam tentar tomar o governo, tomar o poder”, afirmou, em referência ao que chama de “partidos políticos criados pelos ianques”, declarou Ortega na ocasião.
Três dias após essa fala, a Assembleia Nacional da Nicarágua, dominada por apoiadores do ditador, afirmou que “está iniciando as análises necessárias para desenvolver um plano de trabalho que esteja em conformidade com as orientações presidenciais”.
A iniciativa dos deputados era esperada —a separação de Poderes no país, regido por Ortega há quase 20 anos, é considerada de fachada. Como exemplo, está o episódio de 2014 em que a Assembleia aprovou uma reforma constitucional que autorizou a reeleição por tempo indefinido no país —algo que, na prática, já havia sido liberado pela Suprema Corte, também aparelhada por Ortega.
Mais recentemente, em 2025, outra reforma da Constituição deu à sua mulher e vice, Rosario Murillo, o cargo de copresidente. O movimento foi visto como estratégia para manter a família de Ortega no poder diante da fragilidade da saúde do líder de 80 anos.
Em 2021, Lula, então fora da Presidência do Brasil, aconselhou Ortega a “não abrir mão” da democracia, em entrevista à TV mexicana na semana passada. Foi a primeira vez em que Lula se posicioou em relação à ditadura na Nicarágua. Na época, já se sabia que o governo Ortega havia prendido sete candidatos a presidente e outros 24 membros da oposição e da imprensa desde maio deste ano.
Antes disso, no entanto, L ula nutria uma relação mais próxima com o nicaraguense durante os dois primeiros mandatos do ditador. A relação entre os dois mudou ao longo dos últimos anos. O petista tentou dialogar com Ortega após seu reunir no Vaticano com o papa Francisco para pedir a liberação de lideranças católicas que o ditador havia prendido, mas Ortega se negou a falar.
Não vendo canal de diálogo, o brasileiro congelou as atividades da embaixada brasileira em Manágua como forma de represália. Posteriormente, após o Brasil não enviar representantes a um evento que celebrava o sandinismo, Ortega expulsou o embaixador brasileiro, medida respondida da mesma maneira por Brasília.
De lá para cá, Ortega já deu declarações contrárias ao presidente brasileiro, chegando a chamar Lula de “puxa-saco”.
“Governos servis, traidores, puxa-sacos, que se apresentaram como muito progressistas, como muito revolucionários, agora dizem que é preciso repetir eleições”, afirmou ele, em referência ao Brasil e a Lula. Na época, ele disse que a postura do brasileiro sobre o processo das eleições na Venezuela era vergonhosa —o governo Lula não reconheceu a vitória de Nicolás Maduro.




