O mercado americano absorve três quartos dos produtos exportados pelos canadenses. Assim, o anúncio de um novo tarifaço de 50% contra o Canadá teria o potencial de provocar intenso nervosismo no país que compartilha com os EUA a mais longa fronteira contínua do mundo.
Mas gestos dramáticos não fazem parte do DNA canadense. O primeiro-ministro Mark Carney anunciou, sóbrio, que seu interlocutor na Casa Branca concordou em intensificar novas negociações antes de 19 de agosto, o prazo para o tarifaço entrar em vigor.
O Canadá não tem um “tariflávio” em campanha para sabotar sua economia, mas tem províncias cuja independência para aplicar represálias econômicas o governo central de Ottawa não controla.
Semanas antes do pleito para indicar um sucessor de Justin Trudeau, que deixou seu Partido Liberal em desarranjo, poucos previam que o banqueiro de 59 anos, sem qualquer experiência política, seria eleito primeiro-ministro. Mas Carney contou com um poderoso cabo eleitoral em Washington, na forma do primeiro tarifaço aplicado ao retornar para um segundo mandato.
Quem conhecia o cosmopolita Carney, educado em Harvard e Oxford, nos sete anos como o primeiro estrangeiro a presidir o banco central britânico, dificilmente ia imaginá-lo gravando um vídeo-espetada nos EUA com o comediante e ator Mike Myers (“Shrek”).
Em menos de um ano de governo, Carney surpreendeu os céticos ao reagir à onda de choques trumpistas que havia começado sob Trudeau com a ameaça de anexação do país.
Anunciou, logo cedo: “A relação com os EUA acabou”. Em seguida, passou a acumular milhas a bordo de um Airbus, cruzando o mundo para atrair novas parcerias comerciais. E, sobretudo, tornou-se um líder da mobilização pela preservação da aliança da Otan, que Trump volta e meia ameaça abandonar. Aumentou o orçamento canadense de defesa –decisão impopular entre progressistas– e conseguiu provocar deserções à direita e à esquerda para garantir uma vitória importante em três eleições especiais, em abril.
A vantagem de falar baixo e de não perder tempo com piadas adolescentes sobre dentaduras é que as palavras proferidas carregam mais peso. Assim, o banqueiro que poderia se beneficiar com o contágio de um pouco de carisma de Barack Obama acabou atraindo uma ovação de pé com seu discurso de pouco mais de 15 minutos em Davos, em janeiro passado.
A caminho da reunião das elites globais na Suíça, Carney acordou às 4 da manhã e escreveu o discurso sozinho, em duas horas. O pronunciamento, que será lembrado por passagens como “Nostalgia não é uma estratégia” e “Se não estamos sentados à mesa, fazemos parte do menu”, conseguiu, com eloquência quieta, repercutir mais do que os apelos de resistência à ambição hegemônica de Trump, vindo de aliados mais experientes como Emmanuel Macron.
Enquanto Carney ainda surfa num período de popularidade, é divertido ouvir a opinião dos canadenses, sempre desconfiados de espalhafato e autocongratulações.
Num podcast político, comentaristas destacaram que Carney nunca será o namoradinho sonhado pelos americanos como era o galã Justin Trudeau. E recomendaram aos ouvintes ler o texto, não assistir ao discurso de Davos, porque a oratória do autor é monótona.
Quem não está pronto para menos trancos e mais monotonia em todos os corredores decisivos do poder?




