Ceuta: famílias buscam filhos em meio a 72 mortos – 02/08/2026 – Mundo

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Amina Saadoun passou o sábado (1º) na estrada que liga Ceuta ao Marrocos, exibindo uma pequena foto de seu irmão de 15 anos a cada migrante que retornava a passos lentos. “Você viu este menino? É meu irmão, eu o criei como um filho”, perguntava a quem passava.

Até este domingo (2), o número de mortos na travessia de dezenas de milhares para o exclave espanhol havia subido para 72, segundo autoridades da Espanha, deixando famílias marroquinas devastadas ou aterrorizadas com a possibilidade de que seus filhos estivessem entre as vítimas.

Amina busca o irmão Mohammed —um jovem tímido, receoso e sem interesse pelos estudos— desde que ele deixou a casa da família em Tetouan, na manhã de quinta-feira (30), rumo à fronteira do Marrocos com Ceuta. Ele se juntou a cerca de 60 mil pessoas que marcharam em direção ao país europeu. “Não sei se ele está vivo ou morto”, desabafou, entre lágrimas.

Os velórios e sepultamentos daqueles que morreram durante a travessia a nado —entre eles o de uma jovem de Tetouan apaixonada por futebol— ocorreram em suas cidades natais ao longo do fim de semana.

Enquanto os retardatários eram devolvidos ao Marrocos pelas autoridades espanholas, muitos seguiam desaparecidos. Mães e irmãs perambulavam pelas ruas próximas à fronteira com fotografias nas mãos, peregrinando entre delegacias e centros de deportação ao longo da costa.

Cresciam as suspeitas de que a trágica onda migratória tivesse sido provocada por manobras políticas, enquanto as famílias tentavam compreender a vulnerabilidade extrema que levou seus filhos a se arriscarem.

Embora o governo da Espanha tenha evitado críticas diretas às autoridades marroquinas, o líder do governo local de Ceuta adotou um tom contundente. Juan Jesús Vivas, presidente da cidade autônoma, declarou à rede de televisão Antena 3: “Nossa fronteira foi desrespeitada pelo Marrocos. É impossível que 60 mil pessoas entrem sem o aval do governo marroquino. Fomos maltratados e desprezados”.

Para Saadoun, o irmão caçula foi tragado por uma cultura fascinada pela emigração. “Foram os amigos dele que colocaram essa ideia na cabeça dele. E você conhece a visão de emigração entre os marroquinos: ir embora para ganhar dinheiro, comprar uma casa, um carro”, disse. “O que me deixa mais triste é ver nosso país e nossa juventude perdidos desse jeito.”

As mortes deixaram marcas profundas até mesmo em quem conseguiu retornar.

Enquanto nadava pelas águas mornas antes do amanhecer de sexta-feira (31), Hamza, de 23 anos, sentiu a pele de um cadáver roçar em sua perna. Ele acelerou as braçadas. Ao seu redor, contava, havia milhares de pessoas. Algumas não sabiam nadar e tentavam se agarrar desesperadamente àqueles que sabiam.

Ele finalmente alcançou a costa após, segundo relata, os guardas marroquinos permitirem a passagem do grupo. Contudo, deixou Ceuta em menos de 24 horas, impulsionado pela fome e pelo medo da violência.

Aguardando com dezenas de outros migrantes no chão da estação de trem de Tânger, Hamza revelou que aquela havia sido sua segunda tentativa de entrar na Espanha apenas naquela semana.

Na terça-feira (28), autoridades marroquinas o haviam flagrado nadando e o enviaram para o deserto no sul do país. No entanto, ao ouvir boatos de que a fronteira com Ceuta seria aberta, ele correu de volta à fronteira.

Aquela foi sua oitava tentativa de deixar o país natal. Ele contou que a ideia o perseguia há anos, impulsionada pela esperança de encontrar um trabalho melhor remunerado do que o emprego de metalúrgico em que ganhava cerca de £ 400 por mês, cerca de R$ 2.800, para sustentar quatro irmãos e a mãe viúva.

Muitos dos que se lançaram ao mar eram ainda mais jovens e nunca haviam tentado a travessia. Foram contagiados pelo frenesi coletivo após suas redes sociais serem inundadas com relatos de que ninguém seria deportado.

Abdulaal, um jovem de 16 anos que usa aparelho nos dentes, vendeu os próprios tênis para pagar a viagem até a fronteira após ouvir de amigos que a passagem para Ceuta estaria livre. Abalado após o retorno, usando chinelos de borracha trocados, ele garantiu que não tentará novamente.

Por ora, Hamza também se mostra desiludido. Ouviu teorias de que a decisão dos guardas de fronteira de liberar a passagem fazia parte de uma manobra diplomática mais ampla. Traumatizado com as mortes que presenciou, ele, ainda assim, não descarta uma nova tentativa no futuro.

Exibindo um curativo sobre o ferimento que sofreu ao escalar uma cerca de arame farpado, Hamza integra a lista de centenas de feridos. Autoridades espanholas informaram que equipes de saúde em Ceuta realizaram 1.149 atendimentos a migrantes entre as 9h de sexta-feira e as 9h de domingo.

“É como uma droga”, resume Hamza sobre deixar o Marrocos. “Depois que você tenta, diz a si mesmo que nunca mais fará aquilo. Mas o tempo passa e você começa a pensar nisso de novo.”

O impacto humano da crise continuava a se revelar neste domingo, quando Rida, de 16 anos, retornou à cidade fronteiriça de Fnideq após dias em Ceuta sem o irmão de seis anos, Rayan. Segundo ele, Rayan, que havia cruzado o mar para Ceuta à sua frente acompanhado de amigos, morreu em uma área de mata na noite de sábado.

Vestindo roupas esportivas em tons neon, Rida não sabia para onde ir. Seus pais sequer sabiam do ocorrido ou da morte do caçula. O jovem chorava e repetia “meu irmão” quando um policial marroquino se aproximou e o convenceu a subir em uma van policial repleta de outros migrantes repatriados —que, segundo o agente, seriam levados de volta às suas cidades de origem.

A última informação que Ahlam, uma arrumadeira de 38 anos vinda de Tânger, tem sobre a filha adolescente, Arwa, é que ela nadava em direção a Ceuta na quinta-feira quando uma embarcação da guarda costeira se aproximou.

O irmão caçula de Arwa nadava ao lado dela. Ela gritou para que ele voltasse para o Marrocos, e o menino obedeceu, relatando em seguida o ocorrido à mãe.

Há três dias a família não tem notícias de Arwa. Com a pele queimada pelo sol e os pés sujos nas sandálias, Ahlam peregrina sem rumo pelas ruas de Fnideq. Ela beija a tela do celular com a foto de Arwa sorrindo, vestida com uma camisa de futebol e um periquito no ombro.

“Tenho tanto medo de que ela esteja morta”, desabafa Ahlam. “Vou ficar aqui. Não volto para casa até saber o que aconteceu.”



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