Latino-americanos ouvidos em uma pesquisa sobre o cenário internacional percebem o mundo como um lugar mais hostil, incerto e menos regulamentado. Num contexto de conflitos e de turbulência, a China registra melhora de sua imagem, enquanto Estados Unidos e países da Europa perdem reputação.
A conclusão é de um relatório divulgado nesta quarta-feira (22) pela fundação alemã Friedrich-Ebert-Stiftung, que promove o legado político de Friedrich Ebert (1871-1925), o primeiro presidente democraticamente eleito no país europeu; pela publicação latinoamericana Nueva Sociedad, com sede em Buenos Aires; e pelo grupo Diálogo e Paz, que reúne especialistas em política internacional.
Foram entrevistadas 12 mil pessoas com oito ou mais anos de escolaridade em dez países da América Latina: Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, Colômbia, Costa Rica, Guatemala, México, Uruguai e Venezuela. A implementação metodológica ficou a cargo da empresa de consultoria chilena Latinobarômetro, e a margem de erro é de três pontos percentuais para mais ou para menos.
De sete potências listadas, a China foi a única que ganhou prestígio em relação ao levantamento anterior, de 2022. Perguntados sobre seus países de preferência, 24,2% dos latino-americanos entrevistados escolheram a nação asiática que, embora apareça só na quinta colocação, registrou um aumento de 6 pontos percentuais em quatro anos.
À frente da China estão Espanha (30,8%) e EUA (30,6%), e, empatados dentro da margem de erro, Alemanha (30,2%) e França (24,9%). Todos esses, porém, registraram quedas significativas no período, de dois dígitos percentuais. Completam a lista Reino Unido (20,8%) e Rússia (10,1%), que também tiveram desempenho pior na pesquisa mais recente.
Quando o assunto é referência para desenvolvimento, a China sobressai. Nessa categoria, o país teve 36,1% das escolhas dos entrevistados e ultrapassou os EUA (31,5%), com variação para cima de 7 pontos percentuais, no caso de Pequim, e de 13 pontos percentuais para baixo, no caso de Washington. Japão (31,8%) e Coreia do Sul (15,8%) também tiveram oscilação positiva, ainda que de forma mais tímida.
A China é vista como líder nas áreas de educação, ciência, tecnologia e inteligência artificial. Já os EUA são reconhecidos por seu peso econômico e militar, embora registrem maior desconfiança e avaliação negativa de sua liderança política.
“A América Latina está olhando mais positivamente para a Ásia do que para o Ocidente”, diz à Folha Monica Hirst, que ajudou a produzir a pesquisa. “A China não aparece como possível ameaça ou fator de tensão nas visões que a região tem sobre os países do mundo. [No caso dos países asiáticos] não há dúvida de que se trata de uma capacidade tecnológica para âmbito civil, não para âmbito militar.”
As entrevistas ocorreram de 3 de outubro a 18 de novembro do ano passado, antes, portanto, da ação militar dos EUA na Venezuela que resultou na captura do então ditador Nicolás Maduro, em janeiro, e também dos ataques americanos, em conjunto com Israel, contra o Irã, iniciados em fevereiro e que pressionaram os preços de energia em todo o mundo.
O contexto, no entanto, já era de instabilidade. Os EUA e países europeus como Espanha, Alemanha e França são integrantes da Otan, a aliança militar ocidental, que apoia a Ucrânia, invadida pela Rússia em fevereiro de 2022. Washington também é o maior aliado de Israel, cujas ações após o atentado terrorista do Hamas, em outubro de 2023, provocaram crise humanitária na Faixa de Gaza e em nações vizinhas.
Segundo a pesquisa, as sociedades latino-americanas percebem um mundo em turbulência no qual crescem os conflitos, enfraquecem-se as regras internacionais e ganham terreno as lógicas de força.
Em relação à situação atual do mundo, predomina na região o sentimento de incerteza (citado por 40% dos entrevistados), sendo que as percepções negativas (32%) superam as positivas (22%).
Quando questionados se o mundo está na direção correta, 78% dos entrevistados disseram de alguma forma discordar, enquanto só 16% afirmaram concordar, e outros 6% não responderam.
A maioria dos latino-americanos também disse concordar com as frases “Começou uma era de guerras e de conflitos no mundo” (70%) e “Leis e normas internacionais já não são relevantes” (53%).
O americano Donald Trump, por sua vez, é o presidente com a maior desconfiança entre os latino-americanos ouvidos (25,3%), seguido pelo russo Vladimir Putin (12,3%) e pelo venezuelano Nicolás Maduro (4,9%). O brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi mencionado por 1,3% dos entrevistados.
Os EUA, aliás, registraram ao lado da Venezuela a maior retração na categoria “Avaliação da democracia no mundo”, com perda de 1,5 ponto percentual cada um deles. Em uma escala de 1 a 10, em que 1 “não é considerado uma democracia”, e 10 é uma “democracia plena”, Washington registrou 6,2, e Caracas, 2,5. A China, com a pontuação de 4,4, teve um aumento de 0,4 pontos percentuais em relação a 2022.
“Não há dúvida de que Trump teve um impacto devastador em termos reputacionais”, diz Hirst. Segundo o levantamento, os latino-americanos, sobretudo do México e países da América Central, consideram negativos os impactos das políticas do republicano para o mundo.
Já a Europa mantém seu perfil como referência em defesa dos direitos humanos, assistência humanitária e proteção do ambiente. Mas as percepções sobre seu poder brando, sua autonomia estratégica e sua relevância como modelo de desenvolvimento e de integração enfraqueceram, segundo a pesquisa. Atualmente, a cooperação da América Latina com os europeus já não é vista como algo necessariamente estratégico nem tangível.




