Cobertura do Irã é marcada por avaliação de riscos – 18/06/2026 – Mundo

Cobertura do Irã é marcada por avaliação de riscos -


Quando os Estados Unidos e Israel começaram a bombardear o Irã, em 28 de fevereiro, jornalistas de todo o mundo sabiam que era muito importante fazer uma cobertura in loco. Mas também tínhamos consciência de que o Irã é um país notoriamente fechado a jornalistas, com um histórico de repressão à liberdade de imprensa.

Comecei a tentar obter um visto de imprensa para entrar no Irã poucos dias depois do início do conflito.

A princípio, o governo iraniano resolveu conceder vistos apenas a TVs. O repórter Caco Barcellos, da TV Globo, foi um dos primeiros a entrar no Irã em guerra em abril, ao lado de outras equipes de TVs.

Mas não desistimos. Insisti diariamente por diversos canais. Em meados de maio, tive uma sinalização positiva da embaixada do Irã. Os diplomatas apostavam na importância de ter um olhar alternativo aos grandes veículos americanos e europeus para retratar o impacto da guerra. A Folha foi o primeiro jornal do mundo a obter o visto de imprensa para entrar regularmente no Irã após o início da guerra.

Ao fim da batalha do visto, começava uma nova epopeia: a logística. Após semanas de espaço aéreo iraniano fechado, a Iran Air retomou alguns voos. Mas, por causa das inúmeras sanções internacionais em vigor contra o país, agências de turismo não conseguiam comprar as passagens.

O jeito era cruzar por terra. Peguei um voo de São Paulo a Istambul e, de lá, outro até a cidade turca Van. De Van eram mais 100 km até a fronteira.

O posto de fronteira da cidade de Razi se parece com inúmeros outros ao redor do mundo, a não ser pelo intenso tráfego de pedestres levando galões de óleo de cozinha, que atingiram preços estratosféricos no Irã.

O processo na imigração iraniana não levou mais que 15 minutos. “Brasil? Neymar!”, disse um sorridente agente, após checar meu visto eletrônico de imprensa.

Passei com a bagagem no raio-x. Um policial verificou meu passaporte. “Haram? (palavra árabe que se refere a tudo que é proibido, e também é usada no Irã, onde se fala farsi) Uísque? Vodca?”

Devidamente desprovida de bebidas alcoólicas, pisei em solo iraniano, e fui recebida por um outdoor com uma foto do aiatolá Ali Khamenei —imagens dele, de seu filho e sucessor, Mojtaba Khamenei, e do líder da revolução Islâmica, Ruhollah Khomeini, são onipresentes no Irã.

Era hora de encarar a viagem de 850 quilômetros de carro até Teerã, que leva quase 12 horas. O motorista iraniano falava três palavras em inglês. Sem internet, não havia o recurso do tradutor no celular, e foi a viagem mais silenciosa da minha vida. O trajeto todo de São Paulo à capital iraniana levou 47 horas.

A primeira surpresa em Teerã foi a aparente normalidade. Ruas cheias, cafés e restaurantes lotados, pessoas levando sua vida como se não houvesse um frágil cessar-fogo. É difícil enxergar a guerra em Teerã. Nem a presença militar é ostensiva; há alguns tanques e militares com fuzis, mas nada muito diferente de certas áreas do Rio de Janeiro.

A segunda surpresa eram as mulheres sem o hijab, o véu islâmico. Da última vez que havia estado no Irã, em 2017, vi muito poucas mulheres sem véu. Policiais da moral chegaram a me chamar a atenção em Isfahan quando o hijab escorregou e parte do meu cabelo ficou à mostra. Desta vez, andando pelo Grande Bazar e pelas ruas de Teerã, eram inúmeras as mulheres sem hijab.

Uma grande preocupação da cobertura no Irã era o grau de liberdade que eu teria para fazer apurações para a reportagem.

Todos os jornalistas estrangeiros que entram no país regularmente precisam contratar um pacote com uma das agências autorizadas pelo governo, contendo motorista, carro alugado, tradutor e hotel. A agência também fornece o chip branco, um SIM card que permite navegar na internet sem as restrições impostas no país. Isso implica um certo grau de monitoramento, obviamente.

Não é possível ir a algumas instalações militares que foram alvos de ataques americanos e israelenses. Mas pude circular em locais que foram bombardeados e conversar com pessoas livremente. Não me impuseram nenhuma entrevista. Pude me encontrar com amigos e fontes.

Alguns iranianos relataram que amigos haviam sido mortos pela repressão violenta aos protestos de janeiro, que deixaram milhares de vítimas. Outros não quiseram falar comigo nem sobre assuntos prosaicos, disseram ter medo do governo. Estávamos pisando em ovos, calculando o que era possível publicar, para a minha segurança e a dos entrevistados.

Segundo o Comitê de Proteção a Jornalistas, inúmeros jornalistas foram presos no Irã desde os protestos de janeiro e a repressão se intensificou com a guerra. Repórteres estrangeiros não foram poupados. Um dos presos foi o japonês Shinnosuke Kawashima, chefe da sucursal da TV NHK em Teerã. Kawashima e um jornalista iraniano foram levados para a temida prisão de Evin em 20 de janeiro, após cobrirem os protestos de oposição ao governo. O jornalista japonês foi solto no início de abril e está em prisão domiciliar.

Alguns dias após chegar ao Irã, fui entrevistar Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã que é muito próximo da Guarda Revolucionária. Defensivo desde o início, ele afirmou que a liberdade de imprensa no Ocidente era “uma piada”. Eu o questionei sobre liberdade de imprensa no Irã, e a conversa desandou.

A certa altura, Marandi disse que todos os “jornalistas ocidentais apoiam o genocídio” em Gaza e as mortes no Líbano. Argumentei que vários profissionais não apoiavam e que eu mesma havia coberto bombardeios israelenses no Líbano em 2024.

“A diferença entre mim e você é que eu me importo com as crianças que são mortas. Você não se importa”, ele disparou. E continuou: “Quantos anos tem seu filho?”

“14.”

“Espero que seu filho nunca morra na sua frente.”

Pouco depois disso, ele deixou a entrevista, de cara amarrada. Soube posteriormente que ele reclamou para o governo das minhas perguntas.

No mesmo dia dessa entrevista, publicamos a primeira reportagem do Irã, que mostrava como a inflação estava atingindo a população mais pobre. Fui até um mercado em uma zona de baixa renda no sul de Teerã e conversei com vendedores e consumidores que tinham dificuldades para comprar os itens básicos.

Recebi uma mensagem cortês da embaixada iraniana afirmando que a matéria pintava um quadro sombrio do Irã que deixaria o leitor brasileiro muito pessimista em relação ao país. Até aí, é do jogo. Governos não ficam felizes com reportagens e têm o direito de reclamar.

Mas recebi também um recado por outra via, cuja identidade vou preservar. “Isto é uma advertência. O governo está muito insatisfeito com o que as reportagens têm refletido. Acham que você está pintando uma imagem muito negativa do país. Você pode estar sendo grampeada.”

O recado ligou uma luz vermelha. Já estava fazendo entrevistas para reportagens sobre a condição das mulheres no país, os protestos de oposição ao governo e a censura à internet.

Resolvemos veicular as matérias apenas depois que eu tivesse cruzado a fronteira do Irã. Não deixamos de publicar nada. Todas as reportagens foram ao ar quando eu estava fora do Irã.

Não publiquei o nome de nenhuma das pessoas críticas ao governo, para garantir a segurança delas. O governo não teve nenhum papel em um dos relatos mais impressionantes que encontrei sobre as consequências da guerra para a população.

Foi por acaso que cruzei, em uma manifestação com milhares de pessoas, um casal com um bebê muito pequeno e um menino, na frente de um ambulante que vendia bandeiras com imagens dos aiatolás e do Hezbollah. Puxei conversa.

“Viemos porque meu filho maior é muito fã de futebol, e a seleção iraniana se apresentou”, explicou-me a mãe. “É a primeira vez que saímos, porque meu bebê tem 20 dias…e nossa casa foi bombardeada.”

O homem me mostrou uma foto do apartamento em que eles moravam, totalmente destruído. Perguntei se eles topariam ir comigo até lá. Muito gentis, apesar da situação difícil, aceitaram. Conversamos longamente em meio aos destroços do que havia sido o apartamento da família no norte de Teerã.

A mãe estava grávida de nove meses quando sua casa foi destruída por um ataque de Israel e EUA, no início da guerra. A família escapou da morte porque estava na mesquita. Nem ela, nem o pai, têm qualquer envolvimento com militares ou o governo. Morteza vende pias de cozinha, Zeynab não trabalha. “Não sobrou quase nada, nem o que compramos para o quarto do bebê. Mas salvamos a geladeira.”

Mesmo com as limitações da cobertura, estar no local e interagir com iranianos nos possibilitou mostrar um pouco dessa guerra que eles vivem no cotidiano.



Fonte CNN BRASIL

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