Como Marco Rubio está governando a Venezuela à distância – 13/07/2026 – Mundo

Como Marco Rubio está governando a Venezuela à distância -


O presidente Trump estava sentado no Salão Oval no início deste ano com o secretário de Estado Marco Rubio quando teve uma ideia.

Talvez ele devesse enviar Rubio de forma permanente para Caracas, a capital venezuelana, onde os comandos dos Estados Unidos haviam realizado a maior conquista de política externa do segundo mandato de Trump: a captura de Nicolás Maduro, o líder do país.

Rubio poderia ser o próximo líder da Venezuela, sugeriu Trump. E, embora os assessores do presidente digam que ele estava brincando —e que frequentemente provoca Rubio sobre uma possível missão no exterior— o fato é que Rubio não precisa se mudar para Caracas.

Ele já governa a Venezuela a partir de Washington.

Nos seis meses desde que as forças americanas arrombaram a porta do quarto de Maduro e o capturaram durante a madrugada, Rubio se tornou o vice-rei de fato da Venezuela, exercendo influência sobre uma nação soberana de uma forma que nenhum funcionário americano fez desde que L. Paul Bremer chegou a Bagdá, em 2003, para administrar o Iraque ocupado pelos EUA.

Rubio agora controla, na prática, as finanças da Venezuela, a distribuição de seus recursos naturais e seu regime, de acordo com entrevistas com mais de uma dúzia de autoridades e pessoas próximas aos dois governos, em Washington e Caracas, que forneceram detalhes sobre seu envolvimento na condução das políticas do país. Muitos falaram sob condição de anonimato para descrever interações privadas e discussões internas.

Embora não tenha visitado a Venezuela pessoalmente desde que os EUA assumiram o controle, o secretário de Estado está profundamente envolvido nas operações cotidianas do país, mantendo contato próximo com Delcy Rodríguez, que era vice-presidente de Maduro e agora lidera o país de forma interina, com o aval dos EUA. Os dois trocam mensagens em espanhol pelo WhatsApp, compartilhando fofocas, cumprimentos de aniversário e selfies.

Apesar do tom descontraído, a relação entre Rubio e Rodríguez está longe de ser uma parceria. Ela é uma manifestação do poder americano na era Trump, em que o vencedor fica com tudo, independentemente da soberania e do direito internacional.

Procurado, o regime venezuelano não respondeu a um pedido de comentário. O governo Trump não abordou perguntas detalhadas sobre a atuação de Rubio na Venezuela.

Rubio, por sua vez, tem minimizado seu papel e, em grande parte, evita discutir seu trabalho. Ele recusou vários pedidos de entrevista.

Tommy Pigott, porta-voz do Departamento de Estado, escreveu em comunicado que “com uma cooperação renovada e uma gestão econômica responsável, a Venezuela poderá ressurgir como uma parceira estável e próspera, cujos cidadãos se beneficiem de sua vasta riqueza natural e de laços fortalecidos com os EUA”.

O controle direto sobre as receitas públicas da Venezuela, em particular, diferencia a influência de Washington no país daquela exercida na maioria das outras nações que dependem de seu poderio militar e financeiro.

O Tesouro dos EUA recebe as receitas provenientes da maior parte das exportações da Venezuela e, em seguida, repassa esses recursos a Caracas pelo sistema bancário do país —uma relação semelhante à de pais que distribuem mesadas aos filhos. Rubio e sua equipe estabelecem as condições sobre como esse dinheiro pode ser gasto e por quem.

Esse sistema permitiu que o Rubio interrompesse os esquemas de corrupção mais graves da Venezuela. E ele também traz alguns benefícios ao regime venezuelano, que utiliza a proteção efetiva do Tesouro dos Estados Unidos para receber receitas sem ser constantemente pressionado pelos numerosos credores que buscam o pagamento de bilhões de dólares em dívidas não quitadas.

Mas esse acordo também deu a Rubio uma enorme influência sobre Delcy Rodríguez, que depende desse dinheiro para pagar trabalhadores e sustentar a moeda nacional.

Ele também supervisiona a aplicação das sanções dos Estados Unidos contra a Venezuela, decidindo quem pode fazer negócios no país e de que forma. Ele tem trabalhado para reformular o setor petrolífero e ampliou o acesso de empresas americanas a esse mercado. Por sua vez, Delcy submete a ele importantes nomeações do regime, como a do ministro da Defesa.

Desde que dois terremotos atingiram a Venezuela no mês passado, Rubio tem buscado fortalecer o governo interino do país. Os Estados Unidos enviaram 900 militares à Venezuela, comprometeram quase US$ 400 milhões em ajuda e entregaram caixas de dinheiro ao regime venezuelano.

Os terremotos complicaram a missão declarada de Rubio de devolver a Venezuela à democracia (“É um retrocesso nesse sentido”, ele reconheceu no mês passado). Mas a capacidade de recuperação do país é fundamental para o objetivo final de Trump: garantir o petróleo venezuelano para os interesses dos EUA.

O acordo é profundamente incomum, ocorrendo 80 anos depois de os Estados Unidos terem renunciado à sua última grande colônia formal, as Filipinas.

Mas Trump deixou claro que deseja retornar a uma era de expansionismo americano, cogitando assumir o controle da Groenlândia, do Canadá e do Canal do Panamá.

Ele obteve o maior sucesso na Venezuela. Mas há riscos.

Os críticos de Trump acusam os Estados Unidos de drenar os recursos da Venezuela e sustentar um governo autoritário ao manter, em grande parte, os aliados e subordinados de Maduro no poder. O acordo também envolve os EUA no destino de um regime profundamente impopular e não eleito, que enfrenta uma pressão crescente por mudanças políticas.

“O secretário Rubio disse que não estamos em guerra com a Venezuela”, afirmou o deputado Sean Casten, democrata de Illinois, ao secretário do Tesouro, Scott Bessent, durante uma audiência no Congresso em fevereiro. Que autoridade, perguntou Casten, os EUA tinham para controlar os ativos venezuelanos?

Bessent respondeu a Casten que retornaria com uma resposta posteriormente. Um funcionário do Departamento do Tesouro afirmou que o departamento respondeu ao pedido de Casten em abril.

A realpolitik dura de Rubio na Venezuela representa um afastamento significativo para um homem que passou sua carreira se apresentando como defensor da democracia na América Latina. Ele afirmou que seu objetivo é uma eventual transição democrática.

O resultado da incursão na Venezuela poderá moldar o futuro político de Rubio, enquanto Trump considera seu sucessor.

Nas primeiras horas de 3 de janeiro, pouco depois de Maduro ter sido capturado, Rubio entrou em contato com Delcy por telefone. Falando em espanhol, Rubio disse a ela que ela tinha uma escolha entre trabalhar com os Estados Unidos ou testemunhar um ataque mais amplo contra a infraestrutura da Venezuela, suas bases militares e seus altos funcionários.

Após algumas negociações, Delcy concordou.

Segundo Trump, ela disse a Rubio que “está essencialmente disposta a fazer o que consideramos necessário para tornar a Venezuela grande novamente”. O presidente afirmou que os Estados Unidos iriam “administrar o país” até que houvesse uma “transição de poder segura, adequada e criteriosa”.

Dias depois, Trump disse ao The New York Times, em uma entrevista, que esperava que os Estados Unidos administrassem a Venezuela por anos.

No centro dessa estrutura de poder está Rubio, chamado por outros funcionários de “vice-rei” —o título dado aos poderosos governadores do Império Espanhol até que a Venezuela e a maioria de suas outras províncias se rebelaram e conquistaram a independência no início do século 19.

À medida que Delcy começou a formar seu governo, Rubio opinou sobre decisões importantes de pessoal e a incentivou a afastar a família de Maduro e seus parceiros de negócios. Ela seguiu essa orientação.

A maioria dos venezuelanos expressou alívio com a queda de Maduro, apenas para assistir, incrédula, enquanto o governo Trump estabelecia uma aliança com a maioria dos seus principais agentes de sustentação.

A inflação caiu, mas continua sendo a mais alta do mundo, e a moeda do país continua perdendo valor. Milhões de pessoas estão exigindo novas eleições, pressionando Rubio a ir além dos acordos econômicos e promover mudanças políticas. Os investidores estão receosos de colocar capital em um sistema que pode desmoronar a qualquer momento.

Antes dos terremotos, Delcy vinha pedindo a Rubio maior autonomia financeira e o fim das sanções econômicas, a fim de reduzir a pressão interna sobre seu governo.

Rubio demonstrou simpatia pelos argumentos dela, mas o governo dos Estados Unidos não abriu mão do controle.

O trabalho de Rubio com Delcy provocou críticas e insatisfação entre alguns diplomatas de carreira dos EUA, venezuelanos-americanos e aliados de Trump, que rejeitam a ideia de que a principal aliada de Maduro permaneça no poder.

Rubio e outros funcionários rejeitaram essas preocupações, apontando que Delcy seguiu praticamente todas as ordens dadas pelo governo, especialmente aquelas relacionadas às finanças do país. A Venezuela vende grande parte de seu petróleo por meio de duas empresas, a Trafigura e a Vitol, em um acordo estabelecido pelo governo Trump.

Rubio praticamente ofuscou Chris Wright, o secretário de Energia, na abertura do setor petrolífero venezuelano ao investimento estrangeiro —o ponto central da visão de Trump para o país. Ele priorizou a chegada de novas empresas americanas em detrimento das produtoras europeias de petróleo que já atuavam no país.

Ben Dietderich, porta-voz de Wright, afirmou que o secretário trabalhou em estreita colaboração com Rubio e manteve conversas regulares com líderes da indústria de energia e com Delcy.

O controle de Washington sobre a economia venezuelana vai além das receitas do petróleo. A equipe de Rubio elabora as licenças que concedem às empresas interessadas em fazer negócios na Venezuela isenções das sanções.

Ele advertiu o governo de Delcy a evitar negócios com adversários dos Estados Unidos. Após a queda de Maduro, por exemplo, a empresa estatal de petróleo da Venezuela assumiu discretamente as operações dos projetos petrolíferos que possui em parceria com a empresa estatal russa Rosneft. A Rosneft não respondeu a um pedido de comentário.

O governo Trump também pressionou com sucesso Delcy a entregar venezuelanos que são alvo do Departamento de Justiça. A pedido dos EUA, o governo dela deteve, em fevereiro, Alex Saab, o bilionário amigo e parceiro de negócios de Maduro, e aprovou sua extradição para os Estados Unidos, depois de retirar dele o passaporte venezuelano.

Alguns funcionários acreditam que o Departamento de Justiça pretende usar Saab para fortalecer o caso contra Maduro, que foi acusado de vários crimes relacionados ao tráfico de drogas.

E, em junho, o governo de Delcy ajudou os Estados Unidos a matar um chefe criminoso com antigos vínculos com autoridades venezuelanas, segundo várias pessoas familiarizadas com a operação.

As forças americanas utilizaram informações de inteligência fornecidas por autoridades de Delcy para matar Niño Guerrero, um dos líderes da facção Tren de Aragua, em um ataque com mísseis em uma área remota do sul da Venezuela. Essa foi a primeira colaboração militar entre os dois países em décadas. O regime venezuelano posteriormente recuperou o corpo e o entregou aos Estados Unidos.

O governo Trump acusou a organização criminosa Tren de Aragua de trabalhar com Maduro para inundar os Estados Unidos com drogas e imigrantes ilegais, embora as agências de inteligência americanas tenham concluído no ano passado que Maduro não controlava a gangue.

O governo Trump também exerce controle sobre as aparições públicas e declarações de Delcy. Em maio, Rubio anunciou que ela viajaria para a Índia antes que o regime venezuelano mencionasse a viagem, surpreendendo autoridades venezuelanas e diplomatas estrangeiros.

Quando o apresentador da Fox News Bret Baier entrou em contato com Delcy para convidá-la a participar de uma entrevista, ela disse que Trump teria de aprovar. Segundo várias pessoas familiarizadas com os comentários dele, Trump gostou do fato de que Delcy estivesse se submetendo a ele e tem repetido essa história a outras pessoas quando elas perguntam sobre ela.

Quando os Estados Unidos atacaram o Irã, Yvan Gil, ministro das Relações Exteriores da Venezuela, publicou uma condenação moderada da agressão contra o antigo aliado da Venezuela.

O governo Trump comunicou a Delcy que a publicação deveria ser removida e a advertiu a não voltar a apoiar publicamente os adversários dos EUA. Gil apagou a publicação horas depois de tê-la feito.

Na prática, foi uma admissão de que a Venezuela já não definia mais sua própria política externa.

Gil não respondeu a um pedido de comentário.

Rubio estava dormindo no Bahrein no mês passado quando foi acordado por uma ligação da Sala de Situação da Casa Branca. Dois terremotos de grande magnitude haviam atingido a Venezuela, e as primeiras imagens eram devastadoras. Bairros inteiros haviam sido destruídos, e dezenas de pessoas estavam desaparecidas.

Pouco depois, ele conversou com Delcy, prometendo a assistência total dos Estados Unidos. Equipes americanas de resgate chegaram ao local dois dias depois. Rubio descreveu os planos do governo para a Venezuela em três fases: recuperar a economia, estabilizar o país e conduzi-lo a uma transição democrática.

Antes dos terremotos, autoridades americanas afirmavam que estavam na segunda fase, trabalhando para abrir a Venezuela ao investimento internacional. Para avançar nesse objetivo, altos funcionários do governo Trump viajaram à Venezuela para se reunir com seus homólogos e fechar novos acordos nos setores de energia e mineração.

Os anúncios resultantes, no entanto, foram em sua maioria apenas descrições otimistas de possíveis investimentos futuros.

Em março, Doug Burgum, secretário do Interior, visitou a Venezuela e se reuniu com Delcy no Palácio Presidencial. Durante a visita, Rubio enviou uma mensagem de texto a ela perguntando como estava sendo a reunião. Delcy disse que estava indo bem e enviou uma selfie com Burgum.

Mas a reunião foi ofuscada por uma notícia prejudicial. A agência de notícias Reuters informou naquele dia que o Departamento de Justiça estava discretamente construindo um processo judicial contra Delcy.

O governo de Delcy ficou chocado e buscou esclarecimentos junto à Casa Branca. Para tranquilizar as preocupações, Todd Blanche, então vice-procurador-geral, chamou a reportagem de “completamente falsa”.

Mas o regime venezuelano buscou garantias adicionais. Assim, no dia seguinte, Rubio enviou a Delcy o link de uma publicação do presidente dos Estados Unidos nas redes sociais.

“Delcy Rodríguez, que é a presidente da Venezuela, está fazendo um ótimo trabalho e trabalhando muito bem com representantes dos Estados Unidos”, escreveu Trump. Delcy ficou satisfeita e quis agradecer com uma publicação própria. Mas, antes, compartilhou o rascunho com Rubio. Ela publicou a mensagem depois de receber a aprovação dele.

Antes da captura de Maduro, promotores americanos estavam investigando muitos funcionários venezuelanos, incluindo Delcy, embora não esteja claro se esses esforços revelaram evidências de crimes. A agência de notícias Associated Press informou em maio que o governo Trump instruiu os promotores a interromper a investigação contra Delcy.

O sucesso dos esforços para trazer estabilidade à Venezuela —a segunda fase do plano de Rubio— depende em grande parte do investimento estrangeiro. Mas os investidores estão cautelosos. O setor petrolífero está degradado e marcado pela corrupção, e o controle de Delcy sobre o poder é incerto. Os terremotos atrasaram as negociações para novos contratos de petróleo.

Trump parece não estar preocupado. Ele sugeriu repetidamente que a Venezuela poderia se tornar o 51º estado dos Estados Unidos.

Quem poderá liderar o país de forma mais permanente ainda é uma questão profundamente incerta. María Corina Machado, líder oposicionista exilada, continua sendo a política mais popular do país. Mas ela tem inimigos ferrenhos entre autoridades de segurança e militares da Venezuela, levando Rubio a contorná-la e escolher Delcy como líder indicada pelos Estados Unidos para o país.

Antes uma defensora firme de María Corina, Rubio se afastou dela nos últimos meses. O esfriamento da relação entre o governo Trump e María Corina tornou-se uma ruptura aberta após os terremotos. Autoridades americanas se recusaram a ajudá-la a retornar à Venezuela por receio de provocar instabilidade.

O cronograma para a fase final do plano de Rubio para a Venezuela —as eleições livres— continua indefinido. Quando o The Times perguntou à Delcy, em maio, quando ela realizaria eleições, ela respondeu: “Não sei. Algum dia.”

Analistas políticos dizem que Delcy pode estar tentando ganhar tempo até o fim da Presidência de Trump, na esperança de que a pressão para realizar a votação diminua sob seu sucessor.

Por enquanto, a questão de quando uma eleição será realizada não está nas mãos dela. Está nas mãos de Rubio.



Fonte CNN BRASIL

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