Cuba sofreu, nesta segunda-feira (6), seu terceiro apagão nacional desde o início do ano, o que causou desespero na população, com a possibilidade de um colapso energético impulsionado pelos Estados Unidos.
A ilha comunista já vinha lutando para manter as luzes acesas antes de o presidente dos EUA, Donald Trump, cortar o fornecimento de petróleo em janeiro, esgotando o estoque já reduzido de combustível para suas usinas termelétricas.
“Houve uma desconexão total do sistema elétrico nacional”, escreveu a empresa de energia Unión Eléctrica (UNE) na rede social X, acrescentando que estava “investigando as causas”.
A operadora afirmou que conseguia fornecer energia para serviços essenciais, incluindo hospitais e centros de produção de alimentos. Até o final da tarde, porém, Havana, a capital cubana, tinha somente 1% da demanda coberta.
Este é o oitavo apagão na ilha de 9,6 milhões de habitantes desde o final de 2024 —e o terceiro em 2026.
O incidente ocorre no momento em que o Estado impõe cortes de energia cada vez mais drásticos em todo o país —passando de 30 horas consecutivas em partes de Havana e de 70 horas em algumas áreas rurais—, em uma tentativa cada vez mais desesperada de economizar combustível.
“Viver assim é uma agonia”, disse Meyboll Font, 51, gestora de comunidades de redes sociais autônoma. Ela contou que seu bairro em Havana vinha sobrevivendo com apenas “três ou quatro horas de energia por dia”, mas que o apagão geral era ainda pior porque “você nunca sabe quando ela [a eletricidade] vai voltar”.
“Estamos sem wifi, sem eletricidade, não conseguimos trabalhar”, disse um jovem programador de software que trabalha para uma startup de turismo em outro bairro.
Os apagões já fazem parte da rotina há anos em Cuba, onde o sistema de geração de eletricidade, composto sobretudo por usinas obsoletas da era soviética, está em ruínas.
Os blecautes e os cortes de energia se aceleraram desde o início do bloqueio de combustíveis, com as autoridades citando a falta de óleo para rodar os geradores que sustentam a rede nacional.
Desde janeiro, Washington permitiu que apenas um navio petroleiro, vindo da Rússia, atracasse em Cuba, como parte de uma campanha de pressão que visa pôr fim a mais de seis décadas de regime comunista em Havana.
Trump vê a derrubada do ditador da Venezuela, Nicolás Maduro, pelos EUA e a instalação de um sucessor alinhado a Washington como um modelo do que ele gostaria para Cuba.
O regime cubano, porém, tem afirmado repetidamente que seu modelo político não está em discussão e prometeu resistir militarmente a qualquer invasão.
O bloqueio americano, somado a uma enxurrada de sanções ao Estado cubano e a empresas estrangeiras que fazem negócios com o país, empurrou uma nação já atolada em uma crise geracional para mais perto do colapso.
Alimentos, água potável e medicamentos estão em falta cada vez maior, e algumas cirurgias foram suspensas, levando as Nações Unidas a alertar uma emergência humanitária.
O transporte na ilha está praticamente paralisado. No mês passado, o regime anunciou um amplo pacote de reformas de livre mercado que, se implementado, reduzirá drasticamente o controle estatal sobre a economia.
O Departamento de Estado dos EUA descartou os planos, classificando-os de “cortina de fumaça superficial”, e afirmou que Trump está esperando por reformas econômicas e políticas “muito mais substanciais que tornem Cuba atraente para investimentos” e concedam liberdade política aos cubanos.
Os dois lados realizaram várias rodadas de conversações, mas o ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, disse na semana passada que não houve avanços no sentido de encerrar o impasse.
Nesta segunda-feira (6), um telejornal incentivou os poucos privilegiados com acesso à eletricidade a espalhar a notícia sobre o colapso da rede nacional para amigos e vizinhos que estavam no escuro.
“Olhe para o meu rosto, ele diz tudo”, disse Ariel Sotelo, 57, morador de Havana, com os olhos cansados. Ele estava sem eletricidade desde o dia anterior. “Só nos resta aceitar e aguentar, mas não é fácil.”




