Direita na América Latina abraça retórica pró-natalista – 11/05/2026 – Mundo

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No Chile, o presidente José Antonio Kast propôs a criação de um bônus monetário de um milhão de pesos (quase R$ 5.500) para cada bebê nascido. Javier Milei culpou, em maio de 2025, a legalização do aborto pela queda de natalidade na Argentina. Na Colômbia, a jornalista Vicky Dávila tentou emplacar uma candidatura à Presidência trazendo a preocupação com o número de filhos por família para o centro do debate.

Esses exemplos mostram que a América Latina, cujas taxas de natalidade estão em rápido declínio —causando preocupações de uma crise demográfica que se avizinha— também entrou na rota do pró-natalismo. Da mesma forma que na Europa e nos Estados Unidos, o discurso incentivando famílias maiores e criticando práticas de restrição reprodutiva, como o aborto, vem associado a políticos da direita.

Por muitos anos, os latino-americanos enfrentaram o problema oposto: esterilizações forçadas, retóricas de controle de fertilidade e o mito da “bomba populacional”. Conceito cunhado por Paul Ehrlich em 1968, a ideia neomalthusiana de que o mundo caminhava para uma inexorável fome em massa pelo aumento de nascimentos regeu as políticas de saúde reprodutiva por décadas em boa parte do mundo. Mais especificamente, nos países em desenvolvimento, vistos como responsáveis pela expansão desenfreada.

Mas aí a fecundidade latino-americana começou a cair. Segundo dados da ONU de 2024, 12 países da região estão abaixo da taxa de reposição populacional média de 2,1 filhos por mulher. No Brasil, a média é de 1,62 filhos; no Chile, de 1,1, menor do que a do Japão (de 1,15).

Mesmo países que se mantêm acima do nível de reposição enfrentaram quedas acentuadas nas últimas décadas. A Guatemala, por exemplo, viu a fecundidade recuar de 5,5 filhos por mulher em 1990 para 2,3 em 2024.

“Esse é um fenômeno complexo e multicausal”, explica a socióloga Martina Yopo, professora da PUC-Chile. Ela aponta que, para além da mudança cultural (“ser mulher hoje não necessariamente significa ser mãe”), da disseminação do uso de contraceptivos e da queda dos índices de gravidez na adolescência (que diminuíram 80% no Chile nas últimas décadas), há também uma maior reticência daqueles que desejam ter filhos.

Ela chama o fenômeno de “infertilidade estrutural”. “Faltam condições sociais, econômicas, políticas e ambientais para ter e criar filhos de forma digna, sustentável e saudável”, afirma.

Para Yopo, é inegável haver uma crise populacional a caminho do continente. O envelhecimento da população, com o aumento da expectativa de vida somado à menor quantidade de crianças, cria vários problemas de ordem econômica e social. Quem, por exemplo, cuidará de tantos idosos? De que forma os sistemas previdenciários se sustentarão?

“Temos que reconhecer que a baixa fecundidade é um desafio e abordá-lo dentro do contexto democrático sem gerar violação dos direitos sexuais e reprodutivos”, afirma. Isso poderia ser feito, por exemplo, criando condições para que aqueles que desejam ter mais filhos, e desistem por questões econômicas ou sociais, o façam.

A preocupação com a crise demográfica não é exclusiva da direita, embora o discurso pró-natalista esteja atrelado a países com algum grau de autoritarismo —seja a China, que vem lutando com a questão após encerrar a política do filho único, forma extrema de controle populacional que durou décadas— ou a Hungria governada por Viktor Orbán nos últimos 16 anos.

No Chile, o esquerdista Gabriel Boric havia proposto universalizar o acesso a creches. No Brasil, o governo Lula criou a Política Nacional de Cuidado e o Plano Nacional de Cuidado. Essas ações buscam ampliar ou criar políticas que facilitam a criação de filhos, de um lado, e o cuidado com o crescente número de idosos, do outro.

A crítica ao discurso pró-natalista de líderes da direita entre especialistas em demografia é a ênfase exagerada no aumento do número de filhos e no apoio a medidas restritivas para fazê-lo.

“Há países, por exemplo, que passam a restringir o aborto ou criam situações de imposto diferenciado para quem tem e quem não tem filho”, explica Joice Melo Vieira, professora da Unicamp e pesquisadora do Núcleo de Estudos de População Elza Berquó.

Às vezes, o temor da crise populacional é utilizado retoricamente para alcançar outros objetivos. Na Argentina, Milei culpa publicamente a legalização do aborto, em dezembro de 2020, pela queda de fecundidade. O fato é que o número de nascimentos no país vinha caindo havia décadas antes da lei. Em 2019, estava em 1,8 filho por mulher, já abaixo da taxa de reposição.

No Chile, onde o aborto é criminalizado em quase todas as situações, a fecundidade é a mais baixa da América do Sul. Kast, entre suas propostas na campanha vitoriosa à Presidência, apresentou o plano “Renasce Chile”, que pretende implementar um bônus financeiro único para cada bebê nascido.

“Esse tipo de incentivo financeiro não tem demonstrado resultado, porque se houver algum benefício, ele é de curto prazo, não estrutural”, afirma Yopo. A socióloga alerta que essa modalidade de pagamento pode gerar efeitos não intencionais, como aumentar a gravidez em grupos vulneráveis e adolescentes.

Para Vieira, da Unicamp, é preciso pensar em soluções que não sejam ligadas ao aumento de fecundidade. “Pelo que entendemos hoje do que é um investimento numa criança, do que um ser humano precisa para se desenvolver, não podemos pensar só sobre quantidade, mas sobre a qualidade do que temos para oferecer para as pessoas, sobretudo para as crianças”, afirma. “Estados mais focados em bem-estar vão pensar em se preparar para ter cada vez menos crianças mesmo.”



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