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A Rússia que vacila
Por décadas, Vladimir Putin cultivou uma imagem de invulnerabilidade. A guerra na Ucrânia começou a desgastá-la. O que se vê agora, mais de quatro anos depois da invasão, é um acúmulo silencioso de sinais de fragilidade —no campo de batalha, na economia e nas ruas, onde o desgaste ainda é difícil de medir.
No front, a Ucrânia mantém o impasse. Kiev aperfeiçoou sua campanha de drones contra a infraestrutura energética russa e, segundo estimativas do setor, forçou Moscou a reduzir a produção de petróleo em até 400 mil barris por dia —a queda mensal mais acentuada em cerca de seis anos. Três dos principais portos de exportação russos foram atingidos.
A economia reflete isso. Pela primeira vez em três anos, o Produto Interno Bruto russo recuou. O indicador do clima de negócios atingiu, em março, o pior nível desde outubro de 2022 —quando a mobilização parcial lançou o país em pânico. O próprio Putin reconheceu o problema publicamente em abril, cobrando do governo e do Banco Central medidas para estimular a atividade. Para um líder que transformou o crescimento econômico em pilar de legitimidade, admitir isso não é trivial.
Por trás dos números há uma sangria demográfica que não tem solução rápida. Cerca de 700 mil homens estão no front. O número de mortos é desconhecido —Moscou não divulga. Até 700 mil pessoas podem ter deixado o país após a mobilização de 2022, segundo estimativas; uma mão de obra em geral qualificada, que faz falta.
Para tentar compensar, a Rússia recorreu a trabalhadores migrantes da Ásia Central, mas endureceu as regras de permanência depois de um atentado em Moscou em 2024. O resultado: o país tinha 6,3 milhões de estrangeiros no início de 2025 e 5,7 milhões ao fim de janeiro de 2026 —uma queda de 10% em um ano. A presidente do Banco Central, Elvira Nabiullina, disse sem rodeios: a Rússia jamais havia enfrentado uma escassez de mão de obra como a atual.
Esta semana, enquanto Putin viajava a Pequim para encontrar Xi Jinping, o Kremlin anunciou exercícios nucleares de três dias —de 19 a 21 de maio— com 65 mil militares, mísseis, submarinos e, pela primeira vez, integração explícita com a Belarus. Apresentados como demonstração de força, são antes um sinal de desconforto. A mensagem é para consumo tanto interno quanto externo.
E então, nesta quarta-feira, 20, o jornal Financial Times revelou que governos europeus estão discutindo quem poderia representar a União Europeia em eventuais negociações com Putin. Os nomes que circulam: Angela Merkel, ex-chanceler alemã, e Mario Draghi, ex-presidente do Banco Central Europeu. Alexander Stubb e seu antecessor Sauli Niinistö, da Finlândia, também foram cogitados.
A iniciativa parte de um diagnóstico claro: as negociações lideradas por Washington estagnaram, em grande parte porque Putin mantém exigências territoriais que Kiev rejeita. A Europa teme ser excluída de um eventual acordo e forçada a conviver com um resultado desfavorável. A Casa Branca sinalizou que não se opõe a que os europeus abram seus próprios canais com Moscou —o que, em linguagem diplomática, equivale a dizer que os americanos também sabem que o que estão fazendo não está funcionando.
Bruxelas cortou os canais formais com Moscou em 2022. Reabri-los agora, com a guerra ainda em curso é o reconhecimento de que algo mudou. A Europa precisa estar dentro da sala onde o futuro da Ucrânia será decidido.
Merkel recusou a missão com elegância, observando que Putin só leva a sério líderes em exercício. Draghi não comentou. Os finlandeses têm a vantagem do histórico —e a desvantagem de que a Rússia ainda não digere a adesão de Helsinque à Otan. Moscou, por sua vez, indicou que preferiria negociar com uma grande potência europeia diretamente, em vez do bloco como um todo —o que diz muito sobre sua estratégia de sempre: dividir para enfraquecer.
Putin nunca deve ser subestimado, como a história mostra. Mas, neste momento, está diante de uma série de pontas soltas, o que pode fortalecer a expectativa por um acordo para o fim do conflito na Ucrânia.
Quando os estoques acabarem
Os mercados de ações ainda fingem que está tudo bem. Os mercados de bônus discordam.
Nos últimos dias, os rendimentos dos títulos do Tesouro americano de 30 anos flertaram com níveis não vistos desde 2007. O título equivalente do Japão atingiu máximas históricas —recordes desde que Tóquio começou a emiti-los, em 1999.
Na Alemanha e no Reino Unido, os custos de empréstimo também disparam. Papéis de longo prazo são os termômetros mais sensíveis da inflação esperada. Quando os investidores os vendem em massa, estão dizendo algo simples: não acreditam que os preços vão cair tão cedo.
O motivo está no Golfo. O estreito de Hormuz permanece efetivamente fechado desde o fim de fevereiro. Por ali passavam, antes da guerra, cerca de 20% do petróleo consumido no mundo, além de gás natural liquefeito, combustível de aviação, diesel, ureia, amônia e hélio —este último insumo essencial para a fabricação de semicondutores. Não há substituição simples. As rotas alternativas são mais longas, mais caras, e têm capacidade limitada.
Até agora, o impacto foi amortecido pela liberação de reservas estratégicas e pelo consumo de estoques acumulados. Mas estoques são finitos. Neste momento, há um abismo real se formando nos suprimentos globais. A pergunta não é mais se a escassez vai chegar —é quando.
Os bancos centrais não aumentaram os juros, com medo de sufocar o crescimento. Mas os consumidores sentem: os custos de hipotecas subiram na Europa e na América do Norte. A agência de classificação de risco Moody’s alertou que o Federal Reserve pode ser forçado a considerar uma alta. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) projeta que o crescimento do comércio mundial vai desacelerar de 4,7% em 2025 para entre 1,5% e 2,5% neste ano —com tensões geopolíticas e choques nas cadeias de suprimento como causas centrais.
O Brasil está dentro dessa equação. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, esteve em Paris nesta semana, convidado para a reunião ministerial do G7, e descreveu o clima.
“Foi um debate menos propositivo e mais de reconhecimento de uma situação inflacionária ruim. Vários ministros comentaram que estavam na expectativa de que os seus bancos centrais fariam cortes de juros; agora estão numa expectativa menor”, afirmou o brasileiro.
A questão de fundo é política tanto quanto econômica —e ninguém sabe ao certo qual é o tamanho real do espaço de negociação entre Washington e Teerã. Qual a flexibilidade de Trump? Quais são as linhas vermelhas do Irã? Um dia tudo parece encaminhado; no dia seguinte, o risco de escalada volta à mesa. As declarações se contradizem, os sinais se confundem. Enquanto isso, os estoques continuam caindo.
Os mercados de ações ainda não fizeram essas perguntas com seriedade. Os mercados de bônus já começaram.
Évian: Trump vai, Lula deve ir
A Casa Branca confirmou nesta terça-feira (19) que Donald Trump participará da cúpula do G7 em Évian, na França, de 15 e 17 de junho. A atmosfera promete ser pesada. Trump travou ofensivas comerciais e diplomáticas contra vários dos líderes que estarão na cidade termal ao pé dos Alpes. Ele ainda cobra dos aliados do G7 o fato de não terem apoiado a ofensiva militar americana contra o Irã nem se envolvido para reabrir o estreito de Hormuz.
Lula, por sua vez, ainda não confirmou oficialmente a participação. Mas seus assessores e o Itamaraty trabalham com o cenário firme de que ele irá. A cautela do Planalto não é por acaso. Nos bastidores dos preparativos, circulou a informação de que Trump era contrário a um G7 ampliado, com países como o Brasil.
O anfitrião Emmanuel Macron bateu o pé e manteve os convites. Resta saber se a agenda reservada aos convidados vai justificar a viagem do presidente brasileiro.
O comportamento imprevisível de Trump —que despreza instâncias multilaterais e pode mudar de posição de um dia para o outro— é parte do cálculo do Planalto. Confirmar a presença de Lula antes de saber exatamente qual papel lhe caberá seria um risco político desnecessário.
O Brexit que não passou
O Partido Trabalhista britânico vive sua pior crise desde que chegou ao poder. O primeiro-ministro, Keir Starmer, que entrou em 2024 com uma maioria histórica, enfrenta uma debandada de popularidade acelerada por resultados eleitorais desastrosos e por uma série de recuos humilhantes.
Na disputa pela sua sucessão —Starmer afirma que não vai renunciar— emergiu uma questão que o partido havia sepultado com cuidado: o Brexit.
Wes Streeting, ex-secretário de Saúde que renunciou ao cargo para desafiar Starmer, foi direto: o Brexit foi um erro catastrófico e o Reino Unido deve retornar à União Europeia. Andy Burnham, prefeito de Greater Manchester e outro candidato em potencial, foi mais cauteloso, mas também abriu a porta para um eventual retorno.
É uma jogada de alto risco. Burnham concorre a uma cadeira em uma circunscrição que votou pelo Brexit em 2016. Streeting sabe disso —e foi exatamente por isso que forçou o tema. Colocar o Brexit na mesa empurra Burnham para um terreno desconfortável.
O mercado financeiro observa com preocupação. Os gilts —títulos do governo britânico— atingiram seu nível mais alto em 28 anos. A especulação sobre uma eventual liderança trabalhista mais à esquerda é parte da explicação, mas a instabilidade política crônica também pesa. O Reino Unido teve mais primeiros-ministros do que a Itália desde 2015 —e os investidores começam a precificar isso.
No radar
Negociações EUA-Irã — Trump afirmou que há “negociações sérias” em andamento com Teerã. Qualquer avanço —ou recuo— muda de forma imediata o cenário global de energia e os mercados.
Mercados e títulos — O comportamento dos bônus americanos, japoneses e europeus continua sendo o termômetro mais honesto da crise. Fique de olho em qualquer movimento dos bancos centrais —ou em qualquer sinal de que o otimismo das bolsas começa a ceder.
Opep — Após a saída dos Emirados Árabes Unidos, o cartel busca recomposição. Qualquer sinalização sobre cotas de produção ou aproximação com produtores independentes merece atenção.
Chanceleres da UE no Chipre (27 e 28 de maio) — Reunião informal em Limassol. Na pauta: quem representa a Europa em eventuais negociações com Putin. Draghi ou Merkel? A escolha diz muito sobre a estratégia europeia para a Ucrânia.
Zelensky e os europeus — O presidente ucraniano deve se reunir nos próximos dias com líderes de França, Alemanha e Reino Unido para definir o papel europeu nas negociações com Moscou. Kiev quer voz ativa —e quer escolher quem fala por ela.
Fora da pauta
Europe: A History, de Norman Davies (Oxford University Press, 1996)
Norman Davies escreveu uma das histórias mais ambiciosas já produzidas sobre a Europa: mais de 1.300 páginas que vão da pré-história ao fim da Guerra Fria, com uma perspectiva deliberadamente descentralizada, que recusa o viés ocidental dominante na historiografia tradicional. Denso, mas escrito para ser lido —não apenas consultado.
The Rest Is History (podcast)
Um dos melhores podcasts de história em língua inglesa. Tom Holland e Dominic Sandbrook cobrem tudo —da Roma antiga à Guerra Fria— com talento raro para tornar o passado urgente. O episódio mais recente traz uma entrevista de Holland com Paul McCartney sobre a infância no Liverpool do pós-guerra e as origens dos Beatles. Uma boa porta de entrada para quem ainda não conhece.




