Se Lulu Santos tivesse assistido ao debate entre sete candidatos a governador na noite de terça-feira (5), talvez cantasse: “Garota, eu não vou pra Califórnia.”
O ensolarado estado americano e quarta maior economia mundial se fosse um país (o Brasil é a 10ª) encerra uma campanha de eleições primárias para governador que desafia previsões e destaca descontentamentos nacionais.
Dois candidatos assumiram a liderança nesta semana. O democrata Xavier Becerra registrava, até o mês passado, números tão baixos que nem se qualificou para participar do primeiro debate. Mas, quando a candidatura favorita, do democrata Eric Swalwell, implodiu em abril, sob acusações de abuso sexual, Becerra, ex-secretário de Saúde do governo Biden, passou à liderança.
No campo republicano, empatou com Becerra em 18% Steve Hilton, um milionário londrino, que foi assessor do ex-primeiro-ministro britânico David Cameron, um trumpista de primeira hora, e ex-âncora da Fox News. Quando Hilton abre a boca, a gente imagina como seria um lisboeta com sotaque impenetrável se candidatar a governador da Bahia. Ah, os imigrantes que, mal se mudam para os EUA, passam a detestar imigração.
Apesar de ser um estado predominantemente azul, isto é, democrata, a Califórnia pode eleger um candidato Maga, que só obteve um passaporte americano em 2021, graças ao desarranjo no campo democrata, que já começou com excesso de candidaturas, um cenário que provoca desgaste entre pré-candidatos.
Isso ficou claro quando os quatro rivais de Becerra, partiram para cima do agora favorito com renovada agressividade. Eles incluem uma ex-deputada, um ex-prefeito de Los Angeles, um ex-prefeito de San Jose e um bilionário ambientalista considerado um traidor da classe por querer pagar mais imposto.
A candidatura de Steve Hilton é beneficiada pelo sistema eleitoral do estado. Os dois pré-candidatos que receberem o maior número de votos na primária de 2 de junho avançam para a eleição de novembro, não importa o partido. Se Hilton conseguir a vaga, vai ter amplo apoio de Donald Trump, que não vê a hora de se vingar de sua nêmese Gavin Newson, o atual governador democrata e provável candidato a presidente em 2028.
As preocupações dos californianos são uma versão amplificada de angústias no resto do país —alto custo de vida, moradia escassa, seguro saúde, imigração e inteligência artificial. Há uma questão importante com chances de inclusão nas cédulas de novembro: um imposto de 5% sobre fortunas acima de US$ 1 bilhão. A taxação só ocorreria uma vez, mas atingiria a bufunfa bilionária global de cada residente do estado, não importa onde esteja escondida —quer dizer, investida.
Só o plano da proposta fez plutocratas como Larry Page, cofundador do Google, fazer as malas e fugir para um cafofo de US$ 180 milhões em Miami; Mark Zuckerberg gastou só US$ 170 milhões numa ilha próxima, onde vai poder bater à porta do vizinho Jeff Bezos, que comprou três casinhas adjacentes por mais de US$ 200 milhões.
Enquanto a legislação federal americana não abordar uma reforma fiscal, cidades e estados vão atrair os fujões do Leão, com consequências nefastas de longo prazo. Miami foi o terceiro município americano que mais perdeu população de renda média no ano passado. Vai faltar gente para cortar grama e lavar os banheiros dos recém-chegados.




