Eleições na Colômbia chacoalham tabuleiro antiquado – 30/05/2026 – Sylvia Colombo

Eleições na Colômbia chacoalham tabuleiro antiquado - 30/05/2026 - Sylvia


Há muito ruído em torno da ideia de que o pêndulo da política colombiana continuará do lado da esquerda ou se migrará para a direita neste domingo (31).

Legítima, mas, no caso colombiano, ela não esgota a discussão.

A verdadeira transformação é uma remexida no tradicional tabuleiro político. Durante décadas, a cúpula do poder ficou concentrada em poucas famílias: Pastrana, Samper, Santos, Gaviria, Turbay, Galán. Eram representantes de uma elite bogotana distante dos campos de café, da fronteira com a Venezuela, da amazônia, da costa empobrecida e dos territórios dominados pelo crime organizado.

Essa elite monopolizou o dinheiro, o prestígio e a política nacional. Ideologicamente, transitava entre uma direita liberal e uma social-democracia moderada. A polarização é um fenômeno relativamente novo na Colômbia.

Por décadas, a esquerda democrática teve pouca voz. Para boa parte dos colombianos, a palavra “esquerda” era associada à violência praticada por grupos armados como as Farc, o ELN e o M-19. Mesmo após os acordos de paz firmados com o M-19, o Quintín Lame e, anos depois, as Farc, essa percepção não desapareceu. Nos dois primeiros casos, antigos integrantes participaram da Assembleia Constituinte que elaborou a Constituição liberal de 1991.

A ideologia do que resta desses grupos foi corroída pelo narcotráfico. A violência permaneceu, sustentada por alianças entre dissidentes das guerrilhas e facções transnacionais do crime organizado.

O primeiro grande abalo no sistema veio com Álvaro Uribe. Embora oriundo de uma família rica, ele não pertencia ao núcleo tradicional do poder bogotano. Era um caudilho regional de Antioquia que reorganizou a política em torno da linha dura contra guerrilhas e cartéis, nem sempre obedecendo os direitos de seus adversários.

O segundo grande abalo ocorreu em 2022, com a eleição de Gustavo Petro. Sua gestão acumulou erros, sobretudo na segurança e na relação errática com outras instituições do Estado. Ainda assim, construiu uma imagem positiva em partes do interior por defender a reforma agrária, promover programas voltados aos deslocados pela violência e ampliar o acesso à saúde em regiões precárias.

Petro consolidou a percepção de que a esquerda pode governar dentro das regras democráticas.

A jornalista María Jimena Duzán resumiu esse processo ao afirmar que o governo Petro “não foi tão ruim quanto a direita sustenta, nem tão bom quanto o presidente afirma”. Segundo ela, existe hoje “um país que se sente representado nessa esquerda de Petro e que vota em um partido legalmente constituído”.

Essa talvez seja a principal novidade da Colômbia contemporânea. Pela primeira vez, a esquerda disputa o poder não como promessa de ruptura revolucionária, mas como continuidade possível de governo.

A direita também mudou. O desgaste do uribismo abriu espaço para correntes mais radicalizadas e personalistas, como a do advogado Abelardo de la Espriella.

Assim, as candidaturas que despontam na disputa são fruto da mesma transformação histórica. Elas nasceram da erosão do sistema dominado pelas famílias tradicionais, da desmobilização parcial da esquerda armada, da ascensão do uribismo e da normalização da esquerda institucional sob Petro.


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Fonte CNN BRASIL

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