O próximo presidente do Peru precisará lidar com um Congresso hipertrofiado, ameaças constantes de protestos massivos e uma crise de segurança pública que fez a taxa de homicídio duplicar em dez anos. A macroeconomia, no entanto, não deve entrar em sua lista de preocupações.
Trata-se de um feito considerando o nível de instabilidade política que o país alcançou na última década —foram inúmeros escândalos de corrupção, pelo menos três ondas de manifestações e nove presidentes ao longo desse período.
O décimo líder deve ser escolhido em junho, mas os nomes que estarão nas cédulas do segundo turno ainda são incertos uma semana após a jornada eleitoral do domingo passado (12), marcada por atrasos na entrega de materiais e pela reabertura de alguns centros de votação no dia seguinte.
Nos últimos dez anos, índices como PIB, inflação e dívida pública passaram praticamente ilesos pelo furacão. Apesar disso, o país convive com uma das mais altas taxas de informalidade da América Latina e um elevado grau de concentração de renda.
A estabilidade se deve principalmente à base econômica do país, às empresas que regem seu ecossistema de negócios, à independência do Banco Central e a um marco legal rígido que garante o equilíbrio das contas públicas —uma herança controversa da ditadura de Alberto Fujimori (1990-2000).
“Esses quatro elementos fazem com que a economia siga um caminho e a política outro”, afirma Efraín Gonzales de Olarte, professor emérito de economia da PUC (Pontifícia Universidade Católica) do Peru.
A base da economia peruana é a agricultura e a mineração —em 2025, este setor foi responsável por 87,4% das exportações de bens primários do país, com destaque para chumbo, zinco, ouro e cobre. Isso significa que o país é regido mais pelo comércio exterior do que pela sua própria conjuntura, o que acaba por blindar a economia das oscilações internas.
Se a geopolítica tampouco tem sido monótona nos últimos anos, a principal matéria-prima do Peru, o minério, não sofreu grandes abalos se comparada a commodities como o petróleo. Impulsionado justamente pela instabilidade global, o preço do ouro, por exemplo, praticamente quadruplicou desde 2016, quando saiu do poder o último presidente peruano que conseguiu completar seu mandato.
Para além disso, o país tem uma carteira diversificada de parceiros internacionais. Em 2025, seus principais importadores foram China, Estados Unidos, Japão, Espanha e Holanda, nesta ordem. “Essa diversificação proporciona uma certa estabilidade”, diz Olarte.
A mesma lógica da base econômica peruana é vista em relação às suas maiores empresas, na maioria multinacionais e, portanto, menos sensíveis a abalos internos. Na lista estão a mineradora chinesa Shougang Hierro Perú, a cervejaria Backus & Johnston, pertencente à AB InBev, dona também da brasileira Ambev, e a suiça Nestlé.
“A maioria das grandes empresas no Peru é de propriedade estrangeira e não participa diretamente da política”, afirma o economista. “As empresas peruanas se envolvem, mas não têm tanta influência.”
A independência do Banco Central peruano também cumpre um papel importante na estabilidade econômica, já que torna possível a implementação de uma política monetária condizente com a realidade do país e não pautada por anseios políticos de ocasião.
“Graças à sua independência e boa gestão, não temos grandes choques inflacionários”, diz Olarte. A inflação no Peru se manteve abaixo da brasileira na maior parte da última década —a única exceção foi em 2021, quando a do país vizinho bateu 6,4% enquanto a do Brasil ficou em 4,3%.
Por fim, o ponto mais controverso que explica a estabilidade econômica do país: a Lei de Prudêcia e Transparência Fiscal, um dos últimos atos de Fujimori antes de sua renúncia, em 2000. A lei determina que o déficit fiscal anual “não pode exceder 1% do PIB” e o aumento das despesas do governo “não poderá exceder a taxa média anual de inflação mais dois pontos percentuais”.
O marco legal está em consonância com a Constituição de 1993, promulgada após o autogolpe do ditador.
“A definição constitucional estabelece que o Estado tem apenas um papel subsidiário, portanto não pode intervir onde a iniciativa privada pode operar. Este é um princípio introduzido pelo Consenso de Washington”, diz Olarte sobre o seminário de 1989 bancado pelo governo americano e por organizações internacionais que listou diretrizes econômicas para países em desenvolvimento.
“Durante a ditadura militar [1968-1980], o Estado peruano representava 40% do PIB devido à presença de muitas empresas estatais. Hoje, o Estado representa cerca de 17% do PIB, principalmente pela arrecadação de impostos”, completa o economista.
Tamanha ausência do poder estatal pode ser um problema, principalmente levando em conta as carências de uma sociedade como a peruana, que costuma ter grandes queixas em relação a saúde e educação públicas.
Segundo o World Inequality Database, o Peru é um das nações mais desiguais da América Latina —dados do projeto mostram que os ganhos do 1% mais rico do país correspondem a 27,6% da renda total da população em 2024, um ponto percentual a mais em relação ao Brasil no mesmo ano.
O índice de informalidade do Peru também é um dos maiores da região, segundo a Organização Internacional do Trabalho. Em 2024, a taxa no país estava em 71,4%, atrás da Bolívia, com 83,%, e bem à frente do Brasil, com 36,5%.
“Um dos principais problemas do modelo do Consenso de Washington é que a desigualdade não diminuiu e, pior ainda, a informalidade aumentou drasticamente”, diz Olarte. “De uma perspectiva política e institucional, um país com tanta informalidade explica por que agora tivemos 35 presidenciáveis nas eleições.”
O economista se refere à cifra inédita nas eleições do domingo passado, em um contexto de siglas ideologicamente vazias que se esforçam para sobreviver a mais de um ciclo eleitoral. “Não existem mais organizações de trabalhadores e associações empresariais associadas a partidos, nem mesmo membros participando ativamente deles”, completa.
Tais problemas não impediram que a economia peruana virasse uma referência para alguns governos da região. Em março do ano passado, o ministro da economia da Argentina, Luis Caputo, afirmou com orgulho que agora seu país se parecia com o Peru. “No Peru, eles trocam de presidente, não a cada cinco minutos, mas todos os anos, e isso não afeta a macroeconomia”, afirmou.
O modelo é praticamente o oposto do visto na Argentina, que, até a posse do ultraliberal Javier Milei, sofria grandes solavancos na economia, mas oferecendo uma rede de proteção considerável para a população.
“Um Estado pequeno em um país altamente desigual não é a fórmula adequada nem para a estabilidade nacional nem para o desenvolvimento. Esse é um dos principais problemas do Peru”, diz Olarte.




