Já faz tempo que o nosso colega aqui da Folha, Sérgio Rodrigues, defende que o brasileiro deveria proclamar a sua independência e reclamar para si o nome do idioma. Mais recentemente o meu amigo José Eduardo Agualusa sugeriu que, para se sintonizar com a sua multiculturalidade, o nosso idioma deveria passar a ser conhecido como “língua geral”.
As duas propostas não são a mesma coisa. Na primeira todos passaríamos a falar brasileiro ou então deixaríamos de dizer “a nossa língua”. Se a Folha me deixasse, eu continuaria a escrever em português e o leitor leria magicamente em brasileiro, um feito nada fácil de repetir com qualquer outro par de línguas, para dizer o mínimo.
Já houve portugueses a reagir irritadamente à proposta, mas, a meu ver, mal: se Sérgio Rodrigues levar a melhor, o currículo de todos os portugueses ganhará automaticamente uma língua estrangeira na altura de se candidatar a um emprego. Deveríamos até encorajar angolanos, moçambicanos e outros a fazer o mesmo, e aí ficaríamos todos poliglotas sem esforço.
Já na segunda proposta, entendo que a ideia é fazer com que a língua não tenha um dono. Mas paradoxalmente iria acabar por roubar a designação ao tupi, que foi a língua geral original. E eu tenho idade suficiente para ter ouvido argumentos semelhantes em defesa da “lusofonia”; já ninguém fala a língua dos lusitanos, então o termo pareceria de certa forma mais neutro.
Uma alternativa é a que preconizam os nossos primos galegos: na verdade, todos falamos galego e pertencemos à galegofonia.
Quero juntar mais uma proposta. Para dar um nome à língua que não fosse de ninguém em particular e fosse de todos em geral, teríamos de escolher como raiz qualquer coisa que todos nós façamos e que mais ninguém faça. Qualquer coisa que nos distinga e que não seja de mais ninguém.
A solução é evidente. Todos nós dizemos “ão”, e mais ninguém diz “ão” (só os nossos cães, evidentemente, ladram “ão”; os outros ladram “auf”). Todos nós dizemos “inho”, e praticamente mais ninguém diz “inho”, ou ninguém diz “inho” com o nosso carinho.
O novo nome da nossa língua está encontrado: todos falamos “ãoinhês”. Soa tão bem no Maranhão como no Minho; em Santo Antão como em Jacarezinho. Só falta convencer a ONU.
É verdade que nenhum estrangeiro —perdão, nenhum não-ãoinhófono— conseguirá pronunciar o nome da nossa língua. Nós próprios também teríamos dificuldade. Mas também não creio que o objetivo desse debate fosse simplificar a vida de ninguém, mesmo.
E, entre as alternativas, o ãoinhês é a que mais se adapta à tensão interior que todos temos entre o universal e o doméstico. O “ão” aponta para a nossa ambição, que é do tamanho do mundo. O “inho” para o umbiguinho, que é maior ainda.
Uma vez resolvido esse problema, pode ser que todos nós, intelectuais e escritores ãoinhenses finalmente olhássemos para fora das janelas da nossa língua e reparássemos no estado em que o mundo está. Com um pouco de sorte, talvez brasileiros, portugueses, angolanos e outros ãoinhenses deixássemos de inventar problemas para nós e arranjássemos umas soluções para o mundo.
A solução está no “ão”. O caminho está no “inho”. A união faz a força? Não: mas dá um jeitinho.




