Promotores federais dos Estados Unidos afirmaram na sexta-feira (31) que empreiteiros contratados pelo governo Donald Trump fizeram um serviço “malfeito” na reforma do espelho d’água do Memorial Lincoln, cartão-postal de Washington.
Segundo eles, a obra deixou “danos generalizados” no novo revestimento azul da piscina. O Departamento do Interior teria atribuído falsamente os danos a atos de vandalismo.
O histórico espelho d’água, construído na década de 1920, foi esvaziado e restaurado neste ano por meio de um contrato sem licitação no valor de US$ 14,7 milhões (R$ 75 milhões), como parte dos planos ambiciosos de Trump para remodelar a capital dos EUA.
Em uma moção extraordinária apresentada, a procuradora federal em Washington, Jeanine Pirro, pediu a retirada da acusação de crime grave contra David Hearn, ex-canoísta olímpico acusado de arrancar um pedaço do revestimento da piscina.
Ao fazer isso, Pirro, uma aliada de longa data do presidente Donald Trump, contradisse diretamente a alegação repetida do presidente de que o revestimento descascado do espelho d’água foi causado por pessoas que teria cortado o material com facas. Ela afirmou que “o dano foi resultado de uma instalação malfeita, não de vandalismo”.
Em julho, Pirro havia ecoado as alegações do presidente, convocando uma entrevista coletiva para anunciar a acusação formal de Hearn em 2 de julho. Ela disse que tinha “provas tremendas” de que Hearn havia cometido um crime grave e observou que ele poderia pegar até dez anos de prisão.
Mas, na sexta-feira, Pirro afirmou que seus promotores foram enganados pelo Departamento do Interior, que havia concedido um contrato sem licitação a um empreiteiro que trabalhava pela primeira vez para o governo para reparar o marco icônico da capital americana.
Pirro disse que o novo revestimento azul da piscina, na verdade, começou a descascar dois dias após a conclusão do projeto e que o Departamento do Interior escondeu esse fato dos promotores, dizendo que “quase todos os danos” foram causados por vândalos.
Posteriormente, afirmou Pirro, os promotores visitaram a piscina e viram que isso não poderia ser verdade. O revestimento estava descascando em muitos lugares, alguns distantes da borda onde Hearn havia estado.
Depois disso, os promotores exigiram mais informações do Departamento do Interior, que deixou claro que os problemas da piscina haviam se desenvolvido durante a própria reforma.
“Diante de todas essas informações recém-descobertas, é difícil atribuir os danos generalizados ao espelho d’água a vandalismo”, escreveu Pirro em sua moção ao tribunal.
O documento é uma acusação notável e detalhada de um projeto que, até agora, o governo Trump havia defendido como um sucesso extraordinário.
“O presidente Donald Trump é um construtor experiente que consertou o espelho d’água permanentemente antes que pessoas perturbadas o vandalizassem”, disse Katie Martin, porta-voz do Departamento do Interior, em julho.
Pirro culpou tanto o fornecedor do governo quanto o cronograma da administração, dizendo que o estado precário da piscina “foi resultado de uma instalação falha pela empreiteira, Atlantic Industrial Coatings, e da pressa para concluir o projeto antes dos eventos associados à celebração do America 250″ em 4 de julho (Dia da Independência nos EUA).
O Departamento do Interior não respondeu a perguntas sobre o documento. Não está claro se haverá consequências para os funcionários do Departamento do Interior que Pirro acusou de terem feito afirmações enganosas.
O espelho d’água foi cercado e esvaziado para que as falhas no revestimento possam ser inspecionadas e reparadas. Em um documento recente em um processo judicial separado, o Departamento do Interior disse que ele ficaria fechado até 10 de agosto.
Hearn, que se declarou inocente no mês passado, era a única pessoa conhecida a enfrentar uma acusação de crime grave, em vez de contravenção, relacionada às falsas alegações de vandalismo de Trump sobre a piscina.
Um advogado de um desses réus disse que seu caso não havia sido arquivado. Não está claro o que aconteceu com os demais. O escritório de Pirro não pôde ser contatado imediatamente para comentar.
Outras seis pessoas foram presas sob acusações de vandalismo, disseram autoridades federais. Três enfrentam acusações de contravenção por destruição de propriedade abaixo de US$ 1.000 (R$ 5.080), mostram registros judiciais.
O julgamento de Hearn por acusação de destruição de propriedade estava programado para começar em 28 de setembro. Advogados que o representam disseram que as acusações nunca deveriam ter sido feitas.
A retirada das acusações “não apaga o abuso de poder governamental ao prender e acusar um americano patriota que não fez nada de errado”, disse o comunicado. “A abordagem do governo foi atirar primeiro e perguntar depois. O governo deve desculpas a Hearn.”
A Casa Branca não respondeu imediatamente aos pedidos de resposta.
Este ano, o Departamento do Interior contornou os procedimentos regulares para conceder um contrato sem licitação para consertar a piscina à Atlantic Industrial Coatings, uma pequena empresa na zona rural da Virgínia. Trump disse inicialmente que havia escolhido a empresa pessoalmente, porque ela havia reparado uma piscina em um de seus clubes de golfe.
Posteriormente, Trump voltou atrás e disse que não conhecia a empresa.
A Atlantic Industrial Coatings não respondeu aos pedidos de posicionamento. No passado, a empresa defendeu seu trabalho, dizendo que os problemas afetaram uma “parte muito pequena” do revestimento da piscina e que os consertaria sob garantia.




