Está documentado, não adianta duvidar. Antes de começar a Copa, na edição de 9 de junho de 2026, eu previ que “ao contrário de Brasil e de Portugal, Cabo Verde já ganhou esta Copa”.
A Folha titulou, na chamada do site, mantendo a parte sobre Portugal e omitindo a parte sobre o Brasil, mas eu reafirmo: Brasil e Portugal ainda terão de lutar para cumprir com as suas ambições e, para Cabo Verde, tudo o que vier é ganho.
Por que tamanha “bazofaria”, como se diz em crioulo, a língua cabo-verdiana? (Em português, que é o idioma oficial de Cabo Verde, mas não a língua da música, da casa e das ruas, “bazofaria” quer dizer fanfarronice, e “bazofe” seria o fanfarrão.) A razão é simples: não só é impossível conhecer Cabo Verde sem ficar apaixonado como é impossível conhecer os cabo-verdianos sem admirar a enorme coragem, tenacidade e enorme coração deste povo.
Cabo Verde tem uma paisagem bela, mas difícil; “escalabrode”, como se diz em crioulo, do português “escalavrada”: árida, escarpada, lacerada. Por vezes atravessamos as ilhas pensando como foi possível que gente se aguentasse ali durante séculos. E depois pode acontecer-nos, como aconteceu comigo há um ano na ilha do Maio, uma das menores e menos populosas do arquipélago, que nos recebam dizendo: “Bem-vindo à casa”. Respondi: “Mas eu não sou daqui”. E o senhor já idoso que me tinha saudado fitou-me com um olhar sereno e sorriu: “Eu sei; por isso mesmo, bem-vindo à casa”.
Isso, naturalmente, já não existe no mundo. Mas existe em Cabo Verde. Por isso, fica o alerta se você for um dos muitos milhões que foi pesquisar passagens para visitar o país: pode estar rodeado de lagoas naturais de águas cristalinas ou ter acabado de subir em um vulcão dentro de um outro vulcão, mas só vai mesmo valer a pena se entender que a missão principal da sua viagem é conhecer, respeitar e aprender a amar as pessoas de Cabo Verde.
Não se pode tomar a beleza cabo-verdiana por superficialidade; ela vem de um processo de sedimentação longo e muito culto.
Tomemos como exemplo a palavra “morabeza”. Em Cabo Verde, ela aparece em todos os lados desde que a gente pisa no solo das ilhas e é normalmente associada à hospitalidade e gosto de saber viver. Mas a sua origem é muito mais antiga e vem de uma palavra que já pouco usamos em português: amorável, ou seja, a qualidade de se ser amoroso. Amorável tornou-se em crioulo “morábi”; da pessoa que é “morábi” diz-se que tem a qualidade da “morabeza”, ou seja, de receber amorosamente, por exemplo, o recém-chegado.
O mundo agora age como se tivesse descoberto Cabo Verde. Na verdade, Cabo Verde tem muito para ensinar ao mundo.
Numa época em que nos dividimos e categorizamos incessantemente, Cabo Verde é ainda um dos lugares no mundo em que a mestiçagem é celebrada. Lá, quem pertence a dois mundos ou mais não está de fora em nenhum lugar. É África, mas há ilhas em que se tocam polkas e mazurkas como na Europa de há cem anos, o Brasilim do Carnaval e a morna, que é a irmã mais bonita do fado e do chorinho.
Cabo Verde é natureza, mas é, acima de tudo, cultura: literatura, música, gastronomia, história e humanidade. E, a partir de agora, uma estrela na Copa. Aconteça o que acontecer no jogo contra a Argentina.




