Quatro dias após o presidente Donald Trump decretar o fim do acordo de cessar-fogo com o Irã, as hostilidades no Oriente Médio escalaram, deslocando de vez o foco do conflito para a questão do estreito de Hormuz.
Neste domingo (12), os Estados Unidos atacaram alvos iranianos na costa da região depois que Teerã atingiu dois petroleiros que furaram o renovado bloqueio da teocracia na região, que havia sido decretado na véspera.
Ato contínuo, o Irã promoveu o maior ataque contra seus vizinhos regionais desde a trégua de 17 de junho. Ao menos seis países que abrigam instalações militares americanas foram alvejados por mísseis e drones, inclusive no mais neutro Omã, com que Teerã discute dividir o controle sobre Hormuz.
Algumas horas após esses bombardeios, foi a vez de os EUA voltarem a atingir alvos no Irã. A região do porto de Bandar Abbas, que centraliza as operações militares da Marinha da Guarda Revolucionária do país no estreito, registrou as maiores explosões.
Segundo a mídia estatal iraniana, houve ações com mísseis contra a estratégica ilha de Qeshm, no estreito. O site americano Axios diz que foram atacadas posições de defesa antiaérea.
Hormuz, por sua vez, viu cair dramaticamente o tráfego de navios. Até o início da tarde na região, apenas duas embarcações estavam nas proximidades da via, que antes da guerra iniciada em fevereiro escoava um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito do mundo.
No sábado, haviam sido 22, de todo modo uma queda no nível registrado após o cessar-fogo —que nunca chegou, segundo monitores como o da consultoria Kpler, aos 140 navios que por lá passavam diariamente no período pré-conflito.
Trump, por sua vez, disse em rede social que o “estreito está aberto”, repetindo diretriz do Comando Central dos EUA. Antes, o secretário de Defesa americano, Pete Hegseth, havia dito que o Irã “pagará” por interferir na navegação do local.
Com a dinâmica de ataques, o Irã quer asseverar sua maior ficha de negociação ao lado do programa nuclear do país: o controle sobre Hormuz, que até a guerra era visto como algo difícil de ser exercido pelos aiatolás.
Na prática, contudo, empregando instrumentos assimétricos como drones e lanchas leves de ataque, Teerã provou que pode conseguir derrubar o tráfego na região mesmo sob ataque americano. O preço do petróleo, que havia voltado a níveis pré-guerra, já voltou a subir.
O acordo de 17 de junho previa 60 dias de negociação em que o estreito ficaria aberto, mas os iranianos não cumpriram sua parte, alegando que os EUA também violam a trégua quando retaliam e, principalmente, que Israel não suspendeu operações contra o seu aliado libanês Hezbollah.
Mais importante, Teerã busca reafirmar que tem iniciativa militar, apesar do discurso de Trump de que suas capacidades foram destruídas nas cinco semanas de combate mais ativo da guerra.
O problema para a teocracia é justamente se a escalada levar a uma nova guerra aberta, algo que o americano evita para não prejudicar ainda mais seu Partido Republicano nas eleições legislativas de novembro —pesquisas mostram que o conflito é impopular.
Assim, é possível que os contatos ainda rudimentares entre as partes, feitos por meio de intermediários como o Qatar e o Paquistão, sejam mantidos enquanto a troca de fogo segue de forma relativamente contida.
Mas o risco de uma escalada sair de controle é permanente, com consequências imprevisíveis, em particular acerca da reação dos vizinhos regionais do Irã. Neste domingo, foram atacados alvos americanos na Jordânia, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes Unidos, Qatar e até em Omã.
O sultanato convocou o embaixador do Irã para protestar, lembrando que ambos os países estão em negociação acerca das linhas marítimas de Hormuz, cuja costa sul é omani e a norte, iraniana. No Kuwait, uma plataforma de petróleo também foi atingida, segundo o governo.




