O governo de Donald Trump não respondeu a um pedido da diplomacia brasileira para receber a ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, 74, em reunião que trataria de sua candidatura a secretária-geral da ONU.
A candidatura da chilena é patrocinada pelo Brasil e pelo México, e ela disputa o cargo, até o momento, com outros sete concorrentes. O atual secretário-geral, o português António Guterres, deixa o posto em 31 de dezembro, após dois mandatos consecutivos.
Pessoas envolvidas na candidatura disseram à Folha que Bachelet visitou oficialmente 12 dos 15 países-membros do Conselho de Segurança, o órgão mais importante da ONU e decisório na eleição.
Ficaram de fora a Dinamarca, a República Democrática do Congo e os EUA, este último o mais importante por ser membro permanente do colegiado e, portanto, ter poder de veto. Com os dois primeiros países, no entanto, houve esforço para realizar encontros. No caso da Dinamarca, Bachelet conversou por telefone com a primeira-ministra, Mette Frederiksen.
Já no caso da República Democrática do Congo, sua viagem não ocorreu por recomendação do próprio país devido às restrições ligadas à epidemia de ebola, que exigem quarentena para viajantes. Temia-se que isso prejudicasse a agenda de campanha de Bachelet.
Ainda assim, ela esteve com a chanceler daquele país em Nova York. Inicialmente, reuniria-se com o presidente, Félix Tshisekedi, mas ele cancelou sua visita à cidade.
No caso dos EUA, não houve nenhuma resposta ao pedido brasileiro para que uma figura de alto nível do governo Trump —por exemplo, o secretário de Estado, Marco Rubio— a recebesse em Washington. Ela visitou os EUA ao menos quatro vezes neste ano, para agendas ligadas à ONU. Procurada por meio de sua assessoria, Bachelet não respondeu a pedidos de comentário.
Um porta-voz do Departamento de Estado disse à reportagem que o órgão não comenta discussões diplomáticas privadas. Mas destacou que os candidatos a secretário-geral da ONU precisam voltar ao básico e se comprometer publicamente com as mudanças que os EUA exigem.
“Qualquer novo secretário-geral deve fazer a ONU retornar ao seu propósito primordial de manter a paz e a segurança no mundo, em vez de seguir a ideologia absurda, politizada e progressista que tem prejudicado a eficácia da instituição”, declarou o porta-voz, que falou sob condição de anonimato para discutir o tema.
O nome de Bachelet foi oficializado para concorrer ao cargo máximo da ONU em fevereiro deste ano, com apoios do Brasil, do México e do Chile, seu país natal. A costura havia sido feita com a administração do então presidente chileno, Gabriel Boric. Em março, após assumir a Presidência chilena, o ultradireitista José António Kast retirou o apoio a Bachelet, que é do Partido Socialista.
Além de ex-presidente do Chile (2006-2010, 2014-2018), ela foi ministra das pastas de Defesa e Saúde e posteriormente desenvolveu carreira na própria ONU: foi diretora-executiva da ONU Mulheres e comissária de direitos humanos da organização.
Brasil e México argumentam sobre a importância de ter uma candidata que represente a América Latina (o último da região a ocupar o posto foi o peruano Javier Pérez de Cuéllar, de 1982 a 1991) e que seja uma mulher (só homens chefiaram a ONU desde sua criação, em 1946).
Neste sentido, há outras quatro candidatas de perfil em partes semelhante.
A mais bem cotada é Rebeca Grynspan, 70, ex-vice-presidente da Costa Rica e atual presidente do escritório da ONU para Comércio e Desenvolvimento. Latino-americana e mulher, ela também acrescenta um aspecto importante ao ser judia, após anos de tensão entre a chefia da ONU e Israel no contexto da guerra na Faixa de Gaza.
A Folha enviou email para a equipe de Grynspan para perguntar se ela teve alguma agenda com autoridades dos EUA, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.
Depois, a segunda mais bem colocada é Carolyn Rodrigues Birkett, 52, atual representante permanente da Guiana na ONU. Em que pese o fato de o país ser caribenho e anglófono, está na América do Sul e tem similaridades com muitas outras nações da região.
Há ainda María Fernanda Espinosa Garcés, 61, diplomata do Equador que foi indicada a concorrer ao cargo por Antígua e Barbuda; e Virginia Gamba, 72, argentina que foi indicada pelas Maldivas.
Também concorrem ao cargo o argentino Rafael Grossi, hoje diretor-geral da AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica); Macky Sall, do Senegal; e Olara Otunnu, de Uganda. Este último foi apresentado há apenas duas semanas, evidenciando que mais nomes podem aparecer na disputa, dado que não há um prazo estrito para o fim de candidaturas.
Grossi teve uma reunião com Rubio em novembro do ano passado, um dia depois de ser anunciado candidato ao mais importante posto da ONU. Ele se encontrou com o chefe da diplomacia americana na condição de diretor da AIEA.
No final do mês passado, o Conselho de Segurança realizou sua primeira pesquisa secreta para avaliar os nomes dos candidatos. No processo, cada país tem de dizer se encoraja, desencoraja ou fica neutro em relação a cada nome. Por ora, não se sabe se o país votante é um membro permanente ou não.
Em rodadas futuras, essa informação será revelada, de modo que nomes que receberem uma carta de desencorajamento de membros permanentes tendem a sair da disputa, já que um nome só é aprovado quando não há veto de nenhum dos membros permanentes.
Naquela primeira rodada, Grynspan, da Costa Rica, foi a mais bem avaliada. Recebeu dez votos de incentivo, um de desencorajamento e quatro neutros. Em seguida, Birkett, da Guiana, recebeu nove incentivos, dois desencorajamentos e quatro neutros. Em terceiro, o argentino Grossi ficou com sete incentivos, dois desencorajemos e seis neutros. Então veio Bachelet, a quarta colocada, com seis incentivos, cinco desencorajamentos e quatro neutros.
Não há um prazo para a eleição do próximo secretário-geral da ONU, e o processo é, em geral, pouco transparente. Ainda haverá outras rodadas de pesquisas secretas, mas o número delas é incerto. Também não se sabe quando será revelada a posição de membros permanentes e membros rotativos.
Um nome é escolhido apenas quando houver consenso na maioria dos 15 membros do Conselho de Segurança —em especial, é claro, entre os cinco permanentes (os vencedores da Segunda Guerra Mundial China, EUA, França, Reino Unido e Rússia), uma vez que um veto de qualquer um deles impossibilita a eleição de um nome.




