Quem se lembra das imagens aéreas de drones documentando as multidões na última edição dos protestos “No Kings” (sem reis), de oposição ao governo de Donald Trump? Os protestos atraíram 8 milhões de pessoas, um número recorde, mas imagens em close-up do mar de gente nas ruas, em 50 estados americanos, revelam o envelhecimento dos participantes.
“Cadê os jovens?”, perguntavam, com razão, manifestantes de meia idade e idosos, estes ainda com memória dos protestos contra a Guerra do Vietnã, liderados pelo movimento estudantil.
Uma professora universitária que monitora o perfil demográfico do No Kings registrou que a idade média da manifestação de junho de 2025 foi de 36 anos; a de outubro passado foi de 44 anos; e o protesto recordista de 28 de março foi o mais grisalho, com idade média de 48 anos. Foi também o primeiro evento marcado por reações à intensamente impopular guerra contra o Irã.
Por que os estudantes americanos resolveram ficar em casa? Eles ocuparam as universidades, indignados com o massacre de civis em Gaza, em 2024, um fator na derrota apertada da democrata Kamala Harris. Em plena pandemia, em 2020, mostraram os rostos mascarados na onda de protestos “Black Lives Matter” (Vidas Negras Importam).
Um menu variado de explicações começa a emergir. Medo seria um fator, já que o segundo mandato do presidente republicano foi marcado por deportações em massa e pela passividade de administrações universitárias. O slogan “No Kings” —uma referência à rebelião contra a Coroa britânica que levou à independência americana— seria uma mensagem vaga demais para a geração criada sob uma dieta de vídeos curtos, cujo reduzido espectro de atenção afeta seu senso de história.
Haveria também o fator que mais radicalmente distingue a geração de menos de 30 anos, outrora sujeita ao alistamento militar obrigatório durante a Guerra do Vietnã e que enfrentou a violenta repressão policial contra o movimento de direitos civis, nos anos 1960. A tempestade perfeita para jovens criados online, que somou a inteligência artificial à distopia da rede social. É um quadro que, não só começa a registrar sinais evolucionários concretos em cognição e saúde mental, como contribui para passividade social.
Especialistas têm avaliado que o Partido Democrata deve pagar o maior custo político por este cenário, já que a preferência de algoritmos por radicalização favorece uma agenda extremista de direita.
Vale notar que a Guerra do Vietnã durou quase duas décadas, enquanto a guerra contra o Irã, que começou há menos de dois meses, não envolve –ainda– tropas no chão, além de constituir um desafio de percepção com anúncios de cessar-fogo, bloqueios e ameaças de devastação constantes, não fruto de negociação diplomática, mas de postagens de rede social, nas madrugadas. A juventude democrática americana deixou claro que Joe Biden merecia punição por Gaza.
Mas há também o fato de que são democratas com “d” minúsculo – cada vez mais eleitores de 18 a 29 anos rejeitam filiação partidária e se identificam como independentes. Isto pode explicar por que, apesar de pesquisas registrando índice mais alto de desaprovação do presidente, jovens americanos não identificam alternativa no único partido de oposição.




