EUA lucram com Venezuela e doam pouco para terremoto – 08/07/2026 – Mundo

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Quando um terremoto gigante atingiu o Haiti em 2010, os Estados Unidos montaram um enorme esforço de socorro que envolveu mais de US$ 3 bilhões —pouco mais de R$ 15 bilhões— em ajuda, 7.000 soldados americanos e a suspensão das deportações de haitianos para seu país devastado.

Essa resposta supera em muito o que os EUA prometeram para a Venezuela, também devastada por um terremoto, que o governo Trump afirma estar administrando após capturar seu líder este ano. Até o momento, Washington destinou US$ 300 milhões—pouco mais de R$ 1 bilhão—, mobilizaram uma força muito menor, de cerca de 900 militares americanos, e não anunciaram a suspensão das deportações de venezuelanos.

Grandes diferenças marcam os desastres: o Haiti é mais pobre do que a Venezuela, o número de mortos pelo terremoto parece ter sido muito maior e, talvez o mais importante de tudo, a abordagem dos EUA em relação ao mundo mudou.

Mas os paralelos entre os desastres também são assustadores: edifícios de concreto de vários andares desabados, corpos lotando necrotérios sobrecarregados, sobreviventes criticando as respostas das autoridades, e civis liderando resgates de pessoas presas sob os escombros.

As imagens mostram agências de primeiros socorros sucateadas, empobrecimento generalizado e disfunção política tanto no Haiti quanto na Venezuela.

No entanto, nos anos em que os EUA lideraram um esforço internacional para ajudar o Haiti, autoridades do governo Trump expressaram desdém pela ajuda externa. Eles desmantelaram a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), a principal agência americana para a distribuição de ajuda externa, e cortaram a assistência a países mais pobres.

Ao mesmo tempo, a Venezuela, assolada por crises, passou de um dos maiores doadores de ajuda da América Latina a um país que necessita de grandes quantidades de assistência. Em 2010, Caracas estava entre os principais doadores do Haiti, fornecendo alimentos, medicamentos, remessas emergenciais de petróleo e concedendo perdão de dívidas.

Antes do colapso da economia da Venezuela, há uma década, seus líderes socialistas enquadravam essa ajuda como um contrapeso à política dos EUA, que misturava a recuperação do terremoto com esforços de construção nacional, canalizando a maior parte da assistência por meio da Usaid.

Na Venezuela, o governo Trump está priorizando operações imediatas de busca e salvamento, além da estabilidade política em um país que vê como um Estado cliente rico em petróleo, onde empresas de energia dos EUA podem fazer fortunas.

Após invadir a capital da Venezuela e capturar seu líder autoritário em janeiro, o presidente Donald Trump disse que estava assumindo o controle do petróleo da Venezuela. Desde então, autoridades dos EUA disseram que estão supervisionando bilhões em vendas do produto no país.

A questão é: quanto desse dinheiro será usado para ajudar os sobreviventes do terremoto e reconstruir os danos na Venezuela agora que grande parte do país está em ruínas?

Tendo desmantelado a Usaid no ano passado, as autoridades dos EUA estão agora canalizando os US$ 300 milhões —R$ 1,68 bilhões— em assistência anunciada por meio de grupos como a Cruz Vermelha, organizações religiosas e as Nações Unidas. Esse financiamento representa a maior parte dos esforços de socorro globais, com a União Europeia e países como a Austrália oferecendo valores menores.

John Barrett, o principal diplomata dos EUA na Venezuela, disse na semana passada que Washington espera continuar engajado na recuperação do país sul-americano pelo tempo que for necessário, sendo que abrigo, remoção de escombros, água encanada e geração de eletricidade são prioridades imediatas.

Mas Barrett também disse que a estratégia mais ampla do governo Trump para a Venezuela —priorizar a estabilidade política e usar as próprias receitas do petróleo para financiar uma recuperação econômica — permaneceu inalterada apesar do desastre.

“A reconstrução parece um pouco diferente, é claro, desde o terremoto devastador”, disse Barrett aos jornalistas, enfatizando que a destruição não danificou a indústria petrolífera da Venezuela. “Portanto, essa produção continua, e continua a aumentar com os investimentos que os EUA e empresas privadas de todo o mundo já tinham começado a iniciar.”

Javier Corrales, professor de ciência política no Amherst College, disse que seria difícil mensurar a importância dos generosos US$ 300 milhões quando os EUA controlam receitas da indústria petrolífera da Venezuela que valem muitas vezes mais.

“Isso se encaixa no impulso predominante de que os EUA vão ajudar os países desde que lucrem mais do que os outros estão lucrando com os EUA”, disse Corrales.

Ainda assim, a experiência do Haiti mostrou que maior nem sempre é melhor quando se trata de ajuda em desastres.

Após o terremoto de 2010, os projetos de recuperação dos EUA incluíram a construção de uma usina elétrica e novos edifícios governamentais, a modernização de um porto e o desenvolvimento de uma força policial nacional.

Contudo, a maioria dos projetos de infraestrutura supervisionados pela Usaid atrasou, custou mais do que o planejado ou teve de ser reduzida, mostrou o Tribunal de Contas dos EUA anos mais tarde. Em um dos casos, a agência havia planejado construir 4.000 casas, mas concluiu apenas 906 devido a custos de construção mais altos do que o esperado.

O enorme fluxo de ajuda externa, cerca de US$ 13 bilhões no total —quase R$ 67 bilhões—, serviu como uma tábua de salvação, mas permitiu que a corrupção e a disfunção política continuassem sem controle, deixando o governo do Haiti com poucos incentivos para fazer as transformações institucionais necessárias para a reconstrução.

Pior ainda, as forças de paz das Nações Unidas no Haiti desempenharam um papel em um surto de cólera após o terremoto que deixou 10 mil pessoas mortas. “A magnitude daquele desastre e a magnitude do fracasso na resposta a ele alimentaram o sentimento antiajuda que estamos vendo hoje”, disse Jake Johnston, diretor de pesquisa internacional do Center for Economic and Policy Research, em Washington.

Durante sua primeira campanha em 2016, Trump focou as controvérsias em torno da ajuda ao Haiti, acusando Bill e Hillary Clinton de lucrarem com os esforços de socorro. Bill Clinton, o ex-presidente dos EUA, era enviado especial da ONU para o Haiti, coordenando os esforços de ajuda internacional; Hillary Clinton era secretária de Estado e concorria à Presidência naquele ano. Ambos rejeitaram as acusações.

Enquanto os venezuelanos agora vasculham os escombros de seu próprio desastre, o rastro de longo prazo do que aconteceu no Haiti ainda projeta uma sombra sobre os esforços de socorro, disse Sam Vigersky, ex-funcionário da Usaid que liderou as equipes de resposta de assistência a desastres da agência e agora é membro de assuntos internacionais no Council on Foreign Relations.

Na época do terremoto no Haiti, “os EUA estavam em todos os lugares, o tempo todo, de uma só vez, em termos de como abordavam a ajuda humanitária globalmente”, disse Vigersky.

Em contraste, acrescentou, o governo Trump estava adotando uma abordagem mais “à la carte, onde a ajuda humanitária está diretamente atrelada à política de Estado”.



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