Mais de mil manifestantes gritando “ICE fora de Houston” marcharam na quarta-feira (8) perto do local onde um agente do Serviço de Imigração e Controle de Alfândega dos EUA matou a tiros um homem que ia para o trabalho. Esse foi o mais recente confronto letal decorrente do aumento das operações de deportação nos Estados Unidos.
Os manifestantes, muitos agitando bandeiras mexicanas e carregando cartazes que diziam “Apoie os imigrantes” e “O ICE derrete no Texas”, também ecoaram as crescentes demandas por uma investigação independente sobre o tiroteio nesta terça-feira (7) que vitimou Lorenzo Salgado Araujo, 52, um cidadão mexicano em situação irregular nos EUA há três décadas.
O protesto noturno começou com algumas centenas de pessoas reunidas no local onde Salgado foi baleado, no East End de Houston, um bairro de classe trabalhadora predominantemente hispânico. Depois, enquanto os manifestantes marchavam até um parque próximo, a cerca de um quilômetro e meio de distância, soprando apitos e gritando “ICE fora de Houston, ICE fora de todo lugar”, a multidão cresceu para mais de 1.000 pessoas.
Por volta do pôr do sol, os manifestantes se dispersaram por conta própria, embora cerca de cem tenham retornado ao local do tiroteio para realizar uma vigília solene à luz de velas.
A morte de Salgado elevou para pelo menos seis o número de pessoas mortas a tiros em operações de fiscalização imigratória desde janeiro de 2025, quando o presidente Donald Trump retornou ao cargo e lançou uma campanha de deportações em massa. Salgado era um trabalhador da construção civil que, segundo a família, morava em Houston há 35 anos e estava perto de obter residência legal nos EUA.
Essa repressão ganhou novo impulso recentemente em cidades de todo o país, com agentes federais detendo cerca de 2.000 imigrantes por dia em todo o território nacional na semana passada, de acordo com duas pessoas familiarizadas com o assunto.
Somente em Houston, lar de uma grande e profundamente enraizada comunidade de imigrantes mexicanos, o número de prisões do ICE por semana mais que triplicou de meados de junho até o final de junho, de acordo com dados preliminares compartilhados com a Reuters por uma fonte.
Em um comunicado, o ICE disse que Salgado bateu sua van contra um veículo dos agentes, se recusou a obedecer a múltiplos comandos verbais e tentou atropelar um agente, que então atirou nele em “legítima defesa”.
A Reuters não conseguiu verificar as circunstâncias do tiroteio. Relatos iniciais de agências federais sobre seu uso de força frequentemente foram contestados por imagens de vídeo ou outras evidências. Até a tarde de quarta-feira (8), nenhum vídeo do tiroteio em si havia surgido.
Em uma entrevista coletiva, o filho de Salgado, Ronaldo, descreveu seu pai como um homem pacífico que “dedicou sua vida nos Estados Unidos a dar à família o sonho americano”. Ladeado por vários membros do Congresso, líderes de grupos de defesa dos latinos e autoridades de Houston, Ronaldo pediu “uma investigação completa” sobre a morte de seu pai.
Ele só soube do que havia acontecido após ver um vídeo postado nas redes sociais, disse Ronaldo, mostrando seu pai no chão ao lado de sua van branca. “Eu o reconheci imediatamente, não pela aparência, mas pela voz, pedindo ajuda enquanto estava deitado na rua, sangrando”, disse ele, contendo as lágrimas.
“É antiamericano usar força letal contra um ser humano e depois esconder as evidências”, disse Roman Palomares, presidente da Liga de Cidadãos Latino-Americanos Unidos, à coletiva de imprensa. “Por muito tempo, assistimos a uma temporada de caça declarada aos latinos e às comunidades de cor, sob o pretexto de segurança pública.”
O ICE disse na terça-feira (7) que sua agência superior, o Departamento de Segurança Interna dos EUA, lideraria uma investigação sobre o tiroteio, enquanto o FBI encabeçaria uma investigação sobre a “potencial agressão a um policial”.
Mas muitos nesta cidade não estavam dispostos a esperar por uma investigação federal: “Estou pedindo uma investigação imediata e imparcial, com todos os vídeos disponíveis e conclusões divulgadas o mais rápido possível”, escreveu Alejandra Salinas, vereadora de Houston, em um artigo de opinião no Houston Chronicle na quarta-feira.
O prefeito de Houston, John Whitmire, falando em uma reunião da Câmara Municipal na quarta-feira, pediu uma investigação “transparente e independente”, mas descartou uma investigação liderada pela cidade, dizendo que “não poderia haver duas investigações em andamento”.
O caso já repercutiu além da fronteira, no México. Em uma entrevista coletiva na quarta, a presidente mexicana Claudia Sheinbaum disse que seu governo estava preparando medidas legais após “mais uma morte lamentável” de um cidadão mexicano cuja “única culpa era ainda não ter documentos legais”.
O governo do México planeja apresentar queixas criminais nos EUA referentes a cidadãos mexicanos que morreram sob custódia de imigração ou enquanto eram alvos de operações anti-imigração, disse o ministro das Relações Exteriores, Roberto Velasco, na quinta-feira (9).
Catorze cidadãos mexicanos perderam a vida enquanto estavam sob custódia do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos EUA e outros três morreram em operações de prisão conduzidas pela agência, disse Velasco em uma entrevista coletiva.
“Vamos ir além da esfera diplomática e recorrer diretamente aos promotores americanos para apresentar queixas sobre esses incidentes, solicitando que sejam investigados como questões criminais”, afirmou Velasco.




