Expedição polar da China avança enquanto tufão mata 17 – 10/07/2026 – Igor Patrick

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No início deste mês, água é a palavra a ocupar as duas pontas da política da China.

Na semana passada, três quebra-gelos de pesquisa deixaram o porto de Dalian rumo ao Ártico na 16ª expedição científica do país à região, numa missão que reunirá quatro navios e 361 pessoas até outubro.

Dias depois, o serviço meteorológico emitiu um alerta laranja para o supertufão Bavi, que sustentou intensidade máxima por mais de cinco dias e deve descarregar até 400 milímetros de chuva sobre o litoral de Fujian e Zhejiang.

À primeira vista, o quadro compõe uma contradição confortável, a do maior emissor de carbono do mundo que manda cientistas medirem o gelo derretido pelas próprias chaminés, enquanto tempestades e tornados matam ao menos 17 pessoas no centro e no sul do país. A leitura da hipocrisia, porém, é a que menos explica o que tem acontecido aqui.

O que a China montou diante do aquecimento é uma divisão de trabalho. Em casa, o clima é tratado como problema de engenharia e defesa civil. Do lado de fora, como fronteira a ocupar antes dos rivais. A frota que zarpou para o norte não foi estudar o degelo para revertê-lo, mas mapear o que ele revela.

A aposta ganhou contabilidade própria, a começar pela inscrição da pesquisa polar no plano quinquenal em vigor como parte da economia marítima nacional. Operadores chineses fizeram 14 travessias de porta-contêineres pela rota do Mar do Norte em 2025, corredor russo que encurta em cerca de um quarto a distância até a Europa e evita o Canal de Suez, e um novo terminal de gás em Shandong se prepara para receber carga do projeto russo Arctic LNG 2, alvo de sanções americanas.

A China não possui território ártico e se define desde 2018 como “Estado quase ártico”, categoria que não existe no direito internacional. Sem soberania sobre um centímetro de gelo, são os laboratórios flutuantes que garantem presença permanente, dados próprios e assento nas discussões sobre a governança da região. O estudo da cordilheira submarina de Gakkel, conduzido com cientistas russos e alemães, dá a essa presença uma legitimidade que nenhum navio de guerra compraria.

Os americanos estão de olho nessa movimentação há bastante tempo, fenômeno acelerado com a chegada de Donald Trump à Casa Branca. No verão passado, por exemplo, a maior frota polar chinesa até então foi seguida por navios da Guarda Costeira americana e aviões de patrulha perto do Alasca.

A disputa no Ártico tem, porém, uma perversidade própria, a de que o prêmio cresce a cada verão mais quente, que alarga a janela de navegação e aproxima o dia em que a rota polar virará artéria do comércio entre Ásia e Europa.

Enquanto os quebra-gelos avançam para o norte, a fatura do mesmo verão chega pelo litoral sul, onde Xi Jinping pediu esforço total nas operações de resgate, e as autoridades preveem chuvas extremas do Bavi sobre Jiangxi, Anhui e outras províncias.

A adaptação em casa e a expansão lá fora saem do mesmo orçamento e do mesmo diagnóstico, o de que o aquecimento deixou de ser debate para virar dado de planejamento.

Há nesse método um padrão comum na história, em que potências em ascensão chegam a novas fronteiras primeiro com cartógrafos e só depois com bandeiras. A novidade é que o Ártico navegável será a primeira fronteira aberta não pela descoberta, mas pelo dano, e Pequim o trata como investimento à espera de resgate. A água que afoga Zhejiang é o preço, a que se abre no norte é o retorno.


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