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Marine Le Pen anunciou candidatura à Presidência da França na noite de terça-feira (7), poucas horas depois de ser condenada pela segunda vez no caso dos assistentes parlamentares europeus do antigo partido Frente Nacional —hoje Reunião Nacional (RN).
“Sou candidata à Presidência esta noite”, disse na emissora de televisão TF1. O tribunal de apelação de Paris havia reduzido, horas antes, sua pena de inelegibilidade a um patamar que ela já cumpriu —liberando-a, na prática, para concorrer em 2027.
A guinada surpreende. Nos últimos meses, o RN parecia ter migrado para o plano B: Jordan Bardella, presidente do partido, de 30 anos, herdeiro natural do RN. Le Pen devolveu a si mesma o centro do palco, e Bardella, ao que tudo indica, se contenta com o posto de primeiro-ministro numa eventual vitória. É um recuo estratégico do delfim, ou apenas um adiamento?
Para a França, a notícia é grande. Para a União Europeia, talvez seja ainda maior.
O que está em jogo em Bruxelas
A França é a segunda maior economia da União Europeia, atrás da Alemanha, e as duas seguem sendo o eixo que segura a coesão do bloco. Um Eliseu ocupado pela extrema direita não é um detalhe doméstico francês: é uma mudança de eixo geopolítico continental, num momento em que a Europa já negocia sozinha sua segurança diante da Rússia e tenta decifrar o que sobrou da relação com Washington.
Le Pen fez, ao longo dos anos, o trabalho de moderação de fachada: abandonou a saída do euro, deixou para trás o Frexit, evita hoje a retórica de ruptura total com Bruxelas. Mas a moderação do discurso não apagou o projeto. O Financial Times resume bem: o RN segue sendo “uma imensa força de disrupção” —não porque queira sair da União Europeia, mas porque quer reformá-la por dentro, à la Giorgia Meloni, primeira-ministra da Itália, só que com menos pudor. Um RN no poder testaria a paciência de Bruxelas em cada dossiê que toca a soberania: fronteiras, energia, política externa em relação a Moscou.
A Europa que Le Pen encontraria pela frente já não é a de 2017, quando ela perdeu a eleição para Emmanuel Macron sendo tratada como anomalia. É uma Europa mais acostumada à extrema direita no poder —Meloni na Itália, a AfD (Alternativa para a Alemanha) crescendo na Alemanha, o Vox como terceira força na Espanha— mesmo com reveses recentes, como a derrota de Geert Wilders, líder do Partido pela Liberdade (PVV), para o centrista Rob Jetten nas eleições holandesas de outubro. O avanço não é linear, mas o terreno está mais poroso do que há uma década e por isso mesmo, menos blindado contra ela.
O que está em jogo na França
Dentro do país, o RN não é azarão: é favorito. As pesquisas colocam o partido na casa de um terço dos votos no primeiro turno —folga suficiente para tornar o segundo turno uma possibilidade real de vitória, não só de presença. O adversário mais perigoso do RN, hoje, não é um nome. É a falta de um.
A oposição segue fatiada entre centro, centro-direita e esquerda, sem coragem ou capacidade de unificar um candidato único contra o RN. Enquanto isso não muda, o RN segue vendendo o que sempre vendeu: imigração sob controle, mão pesada na segurança, poder de compra para quem se sente esquecido pela globalização. Bandeiras batidas, mas que continuam funcionando —sobretudo entre a classe trabalhadora, historicamente a mais fiel a Le Pen.
O que muda agora é a moldura moral da disputa. Nunca uma candidata à Presidência da França chegou à corrida com uma condenação por corrupção nas costas. Os adversários já exploram isso. Mas a experiência recente mostra que o RN aprendeu a transformar acusação judicial em munição de campanha, não em fraqueza.
A cartada arriscada
Há um porém que pode reescrever tudo: Le Pen recorreu à Corte de Cassação, a última instância francesa, e usa esse recurso para evitar, por ora, a tornozeleira eletrônica que a sentença lhe impôs. A aposta é dupla, e as duas pontas são perigosas.
A primeira: nem todos os juristas concordam que o recurso blinda sua candidatura. Existe a possibilidade — remota, mas real — de a inelegibilidade original de cinco anos ressurgir enquanto a Cassação não decide. A segunda, mais concreta: ninguém sabe quando essa decisão vai sair.
O procurador-geral da Corte de Cassação, Rémy Heitz, afirmou que a Justiça está “em ordem de marcha” para julgar o caso antes do primeiro turno, em abril — mas fez questão de ressalvar que o prazo “não depende só” da própria Corte, já que a defesa de Le Pen também pode usar recursos processuais que estendam o processo.
Se a decisão vier antes da eleição e for desfavorável, Le Pen faz campanha de tornozeleira — ou é impedida de terminar a corrida. Se vier depois, ela pode chegar ao Eliseu blindada pela imunidade presidencial antes que a Justiça termine de falar.
É a definição de um período de nove meses vivido sob suspense: uma França com um partido favorito e sem adversário à altura, mas com uma candidata cuja legitimidade segue, tecnicamente, em aberto até a própria eleição —e cujo desfecho pode acabar sendo decidido não nas urnas, mas num tribunal.
Frase da Semana
Os franceses terão a última palavra. Eles serão os juízes
Farage tropeça, mas ainda não caiu
Nigel Farage, líder do Reform UK, o partido de extrema direita que hoje lidera as pesquisas britânicas, passa pelo momento mais turbulento de sua carreira recente —mas segue longe de estar fora de jogo.
Farage chegou a este ano como favorito folgado: o Reform lidera as pesquisas desde abril de 2025, chegando a um pico de 34% em setembro —patamar que o Ukip, projeto anterior de Farage, jamais alcançou. O partido avançou nas eleições locais de maio, ampliando a presença território afora. Mas o pico parece ter ficado para trás. Desde então, a vantagem nas pesquisas vem encolhendo, e o Reform perdeu três eleições suplementares seguidas —a mais recente, em Makerfield, justamente para o trabalhista Andy Burnham. Derrotas pontuais, mas que mancham a narrativa de ascensão linear que Farage cultivou.
O desgaste está nas manchetes dos jornais britânicos: duas investigações parlamentares por padrões de conduta que avançam em paralelo. Uma apura a doação de 5 milhões de libras (cerca de R$ 34 milhões) recebida por Farage do bilionário de criptomoedas Christopher Harborne pouco antes de ele se tornar deputado, em 2024 —doação que ele nunca havia declarado publicamente, como manda a lei britânica, e que diz ter sido “presente pessoal” para custear sua segurança.
A outra investiga benefícios não declarados de George Cottrell, condenado nos Estados Unidos em 2017 por lavagem de dinheiro e conselheiro de confiança de Farage havia mais de uma década: segurança, motoristas, equipe de redes sociais e uso de uma casa em Londres, tudo bancado por Cottrell e nunca registrado.
Farage respondeu do jeito que sempre respondeu à pressão: atacando. Renunciou, em 7 de julho, ao mandato de deputado por Clacton, sua própria cadeira, para provocar uma eleição suplementar em que ele mesmo será candidato —numa tentativa de antecipar qualquer decisão da comissão de padrões parlamentares e chegar a ela já com um novo mandato popular nas mãos. É um gesto de quem tenta transformar escrutínio em plebiscito pessoal.
Os principais partidos rivais, porém, decidiram não jogar o jogo: recusaram-se a lançar candidatos, chamando a disputa de “eleição fake” —o que deve garantir a Farage uma vitória fácil, mas também esvaziar o gesto de qualquer significado real.
O contexto britânico ajuda a explicar a pressa. A próxima eleição geral precisa acontecer até 2029, o que dá tempo para o escândalo esfriar — ou se aprofundar. Enquanto isso, a política britânica muda de mãos: o primeiro-ministro Keir Starmer anunciou renúncia em 22 de junho, e Andy Burnham, até então prefeito da Grande Manchester, é o favorito nítido para sucedê-lo —com previsão de assumir o cargo em meados de julho. A chegada de um rival novo em Downing Street é o tipo de fato que rouba o noticiário exatamente na hora em que Farage mais precisa dele para si.
Se antes o maior trunfo do Reform era Farage, hoje esse também é seu maior risco: o partido segue sem um substituto à altura, e cada escândalo pessoal do líder vira automaticamente escândalo do partido inteiro. Farage construiu o Reform à sua própria imagem. O problema é que agora o partido também herdou suas sombras.
Trump na Otan: o de sempre, mas mais cedo
A cúpula da Otan em Ancara, que reuniu os 32 líderes da aliança na terça e na quarta-feira (7 e 8), começou como um pesadelo para os aliados europeus e terminou em valsa.
Na terça, Trump desembarcou atirando contra os aliados, inclusive reabrindo a ferida da Groenlândia, insistindo que o território dinamarquês deveria ser dos Estados Unidos.
Na quarta, o dia mais tenso dos dois, veio o resto do roteiro de sempre, com o volume mais alto: chamou a Espanha de “parceiro terrível” e pediu para cortar todo o comércio bilateral, ameaçou tirar as tropas americanas da Europa e declarou que o cessar-fogo com o Irã “acabou” — horas depois de uma nova troca de ataques no Golfo. Os mercados reagiram na hora: bolsa e bônus espanhóis caíram, o petróleo disparou. Mas, ao longo da mesma quarta, o tom virou.
O segredo, segundo diplomatas, foi simples: elogio. O secretário-geral Mark Rutte disse a Trump que sua “liderança está transformando a aliança”; o anfitrião turco, Recep Tayyip Erdoğan, presenteou cada um dos 32 líderes com um revólver gravado com o próprio nome — munição inclusa. Trump saiu do encontro fechado declarando haver “muito amor” na sala.
O ápice veio ao lado de Volodymyr Zelensky, também na quarta: depois de meses de cobranças e do episódio humilhante no Salão Oval em 2025, Trump elogiou a “ótima relação” com o ucraniano, chamou o país de promissor e autorizou a Ucrânia a fabricar mísseis Patriot sob licença americana — um gesto concreto, não apenas retórico. “Acho que ele [Putin] não está nada feliz com o que está acontecendo”, disse Trump, sugerindo que a pressão sobre a Rússia enfim pesa.
A cúpula terminou com um sentimento geral de alívio. Resta saber se o carinho sobrevive à volta a Washington, ou se é só mais um capítulo da mesma novela: Trump ataca, Trump elogia, e ninguém sabe qual dos dois vale amanhã.
No radar
O que monitorar até a próxima quarta-feira (15):
- Guerra na Ucrânia — Os sinais de desgaste em torno de Vladimir Putin se acumulam: a economia russa sente o peso das sanções e dos ataques ucranianos a refinarias e terminais de petróleo. Trump chegou a dizer acreditar que Putin “sente pressão” para encerrar o conflito, mas analistas do Royal United Services Institute (RUSI) alertam para o risco oposto: um poder em declínio tende a ser mais perigoso que um em ascensão. Vale acompanhar se o desgaste interno leva Moscou a negociar ou a reagir de forma mais agressiva.
- Conselho de Assuntos Externos da UE — Reunião marcada para 13 de julho, em Bruxelas. A expectativa é de que os países-membros cheguem a um acordo sobre o 21º pacote de sanções contra a Rússia, aprofundando restrições a bancos, embarcações da “frota-fantasma” e indivíduos ligados ao Kremlin.
- Cessar-fogo Estados Unidos–Irã — Situação em aberto. Na quarta-feira (8), em Ancara, Trump declarou que o acordo com o Irã “acabou”, horas depois de uma nova troca de ataques entre os dois países no Golfo. Nesta quinta-feira (9), ocorreram novos ataques americanos. Nem Washington nem Teerã, porém, formalizaram o rompimento do memorando de entendimento assinado em 17 de junho. É um caso claro de retórica correndo à frente dos fatos: a situação pode se estabilizar tão rápido quanto escalou, e o desfecho da semana é incerto.
Fora da Pauta
Estreou recentemente na França o filme em duas partes “La Bataille de Gaulle”, de Antonin Baudry — “L’Âge de Fer” e “J’écris ton nom” — sobre a trajetória de Charles de Gaulle à frente da Resistência francesa, entre 1940 e 1944. Baseado no livro “De Gaulle: Uma Certa Ideia da França”, do historiador britânico Julian Jackson, o projeto custou 74 milhões de euros e estreou em Cannes antes de chegar aos cinemas franceses. Ainda não há data prevista para o Brasil, mas vale ficar de olho: o filme reacendeu na França um interesse raro pela figura de De Gaulle —a ponto de turbinar as vendas do livro que o inspirou.




