A França conheceu, nas últimas duas semanas, o nome de Lyhanna, 11, e, com ele, uma pergunta que nenhum governo deseja enfrentar: quantos alertas um Estado pode ignorar antes que uma criança morra?
A menina desapareceu em 29 de maio em Fleurance, cidade de cerca de 6.400 habitantes no departamento do Gers, no sudoeste do país, depois de entrar no carro de Jérôme Barella, 41, pai de uma amiga.
Seu corpo foi encontrado seis dias depois em um silo de cereais abandonado, a cerca de 15 km da escola, em uma propriedade agrícola onde o suspeito havia trabalhado. Ele foi indiciado por rapto e cárcere privado e está em prisão preventiva. A causa da morte ainda não foi divulgada.
O que transformou a tragédia em uma crise nacional foi a ficha do suspeito. Segundo o jornal Le Monde, cinco investigações por violência sexual contra menores abertas contra ele foram arquivadas ou abandonadas ao longo dos anos.
A mais grave das queixas, registrada em agosto de 2025 pela mãe de outra menina de 11 anos por estupros que teriam ocorrido na casa de Jérôme Barella, dormiu nove meses nas gavetas da Justiça —apesar de exame ginecológico ter apontado lesões e de uma psicóloga ter considerado crível o relato da criança.
O suspeito jamais foi convocado a depor. O diretor-geral da Gendarmerie Nationale, a força policial militar que patrulha o interior da França, admitiu que o caso constitui “um fracasso” para a corporação.
A sequência de omissões alimentou um sentimento de que as instituições falharam em sua missão mais elementar, a de proteger crianças —sentimento que a direita trata de converter em diagnóstico de decadência nacional e em plataforma para a eleição presidencial de 2027.
O ministro da Justiça, Gérald Darmanin, reconheceu “falhas graves”, descartou renunciar e ordenou que os procuradores revisem cerca de 70 mil queixas envolvendo crianças até 14 de julho. “Não vou sair de férias, e nenhum alto magistrado vai, até que eu receba um por um os procuradores-gerais”, disse.
O presidente Emmanuel Macron admitiu na quarta-feira (10), em reunião ministerial, que houve “disfunções manifestas” e que está em jogo “a confiança em nossas instituições” —mas pediu ação sem “precipitação” nem “demagogia”. “Não se responde a um drama com gritos”, afirmou.
A rua respondeu antes do Estado. Na segunda (8), cerca de 60 mil pessoas, segundo o Ministério do Interior, manifestaram-se diante de tribunais e prefeituras em quase 200 cidades, convocadas por 150 associações feministas e de proteção à infância. Em Paris, sob chuva fina, cartazes perguntavam: “Lyhanna, quantas outras como ela?”.
O caso não chegou sozinho ao noticiário. Na quarta (10), o cantor e ator Patrick Bruel, 67, ídolo da música popular francesa desde os anos 1980, foi indiciado por estupro, tentativa de estupro, agressão sexual e assédio sexual em quatro processos, com fatos entre 2008 e 2019. Solto sob controle judicial, mediante fiança de € 500 mil (quase R$ 3 milhões), ele nega todas as acusações e cancelou a maior parte de sua turnê.
No mesmo dia, um osteopata de 37 anos foi condenado em Estrasburgo, no leste do país, a 17 anos de prisão por estupros e agressões sexuais contra 29 pacientes.
Em Paris, um escândalo de abusos em pré-escolas levou a prefeitura a suspender 132 monitores do contraturno escolar desde janeiro, 52 deles por suspeita de violência sexual ou sexista, segundo o prefeito Emmanuel Grégoire. Entre os presos preventivamente está um brasileiro de 51 anos, monitor de oficinas de música acusado de estupro de crianças de dois a quatro anos. Alvo de alertas de pais desde novembro, ele não foi afastado: foi transferido de escola.
É sobre esse acúmulo que a extrema direita constrói sua narrativa. Na Assembleia Nacional, Marine Le Pen, do partido de ultradireita Reunião Nacional (RN), afirmou que Lyhanna foi “sacrificada no altar da indolência de um Estado cujo aparelho judiciário falhou”.
A direita tradicional acompanhou: Bruno Retailleau, presidente do partido Os Republicanos e candidato à Presidência, propôs castração química obrigatória para os criminosos sexuais “mais perigosos”. O ex-ministro Bruno Le Maire foi mais longe no tom de advertência: se o poder não tomar “a medida da cólera que sobe”, disse, “a revolução se tornará uma certeza”.
A esquerda não ficou de fora. A França Insubmissa (LFI) exige a cabeça de Darmanin, enquanto socialistas e ecologistas cobram a votação de uma lei “integral” contra violências sexistas e sexuais, orçada em € 2,7 bilhões (cerca de R$ 16 bilhões).
“Foi preciso que uma criança morresse para que vocês viessem dizer ‘ok'”, acusou a deputada ecologista Marie-Charlotte Garin. No mesmo dia, a comissão de leis da Assembleia impôs novo revés ao governo ao rejeitar o projeto de reforma da justiça criminal de Darmanin.
Por trás do duelo retórico, os números descrevem uma Justiça cronicamente subfinanciada. Segundo relatório de 2024 da Comissão Europeia para a Eficácia da Justiça, a França tem três procuradores por 100 mil habitantes, e cada um recebeu em média mais de 2.000 casos em 2022 —quase cinco vezes a média europeia. O governo lembra que o orçamento da pasta subiu de € 7 bilhões (R$ 41,7 bilhões) em 2017 para € 10,5 bilhões (R$ 62,5 bilhões) em 2025.
Para o advogado dos pais de Lyhanna, François Roujou de Boubée, o debate está mal colocado: “Os meios que se dão à Justiça e sua eficácia, sim, senhor presidente, esse é o verdadeiro coração do problema.”



