Governo Trump usou data cubana simbólica para indiciar Raúl Castro – 20/05/2026 – Mundo

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O 20 de maio ocupa um lugar desconfortável na memória cubana. Foi nesse dia, em 1902, que nasceu formalmente a República de Cuba e terminou a ocupação militar americana iniciada após a guerra hispano-americana.

Em Havana, a bandeira cubana foi hasteada no Castillo del Morro enquanto Tomás Estrada Palma assumia como primeiro presidente do país. Depois de décadas de guerras de independência contra a Espanha, Cuba passava finalmente a existir como Estado soberano.

Mas aquela soberania nasceu condicionada. A nova república carregava o peso da Emenda Platt, mecanismo imposto por Washington que dava aos EUA o direito de intervir militarmente na ilha e manter uma base naval permanente em Guantánamo.

O 20 de maio tornou-se, desde então, uma data ambígua. Ao mesmo tempo símbolo da independência nacional e lembrança de uma autonomia limitada pela influência americana.

Foi justamente nesta data que a administração Trump indiciou Raúl Castro por homicídio pelo abatimento de dois aviões da organização anticastrista Hermanos al Rescate, em 1996.

Autoridades norte-americanas baseiam a acusação, que ocorre após anos de pressão, em gravações onde Castro, então ministro da Defesa, supostamente autoriza o ataque.

O Departamento de Justiça dos EUA busca um ato histórico contra o ex-líder cubano pelo envolvimento na derrubada dos aviões, que resultou na morte de quatro voluntários em águas internacionais.

Após a Revolução de 1959, Fidel Castro praticamente eliminou a data do calendário oficial. Para a narrativa revolucionária, a República fundada em 1902 representava uma independência incompleta, subordinada a Washington.

A escolha parece carregada de simbolismo político. Em vez de funcionar apenas como memória histórica, o 20 de maio volta a ser usado como instrumento na disputa sobre o futuro da ilha.

Para os comunistas, o verdadeiro nascimento da nação cubana teria ocorrido apenas em 1º de janeiro de 1959. Já no exílio cubano, sobretudo em Miami, o 20 de maio sobreviveu como símbolo de uma república interrompida pelo castrismo.

Mais de um século depois, a data volta ao centro da política cubana num dos momentos mais delicados da ilha em décadas. Cuba vive apagões diários de até 20 horas, escassez extrema de combustível, falta de medicamentos e um nível crescente de exaustão social.

Em bairros de Havana, moradores voltaram a bater panelas e incendiar esquinas durante cortes de energia. Nas redes sociais, multiplicam-se relatos de famílias dormindo sem ventilação, comida estragando nas geladeiras e crianças incapazes de descansar sob o calor tropical.

O temor da chamada “Opción Cero”, expressão herdada do Período Especial dos anos 1990 para designar um cenário de colapso absoluto de combustível, voltou a circular entre os cubanos.

Nesse contexto de asfixia econômica, a relação com os EUA reaparece como elemento central da sobrevivência do regime. A administração de Donald Trump endureceu o cerco energético contra Havana, mas ao mesmo tempo ofereceu US$ 100 milhões em ajuda humanitária destinados a alimentos, medicamentos e combustível, proposta inicialmente rejeitada e depois aceita pelo governo de Miguel Díaz-Canel.

O gesto aprofundou a contradição histórica do próprio 20 de maio: Cuba continua presa a uma relação simultânea de confronto, dependência e negociação com Washington. Exatamente o dilema que marcou o nascimento da república em 1902.


MIRADA

Victor Hugo Quero, 51, foi detido durante a repressão pós-eleições de 2025 e sua mãe, Carmen Teresa Navas, buscou seu paradeiro durante 16 meses. Neste mês, o governo da Venezuela admitiu que o comerciante morreu sob custódia do Estado. Ela faleceu apenas dez dias após descobrir o destino do filho e o caso é tido por organizações de direitos humanos como exemplar da repressão no país.


LATINAS

‘Envidiosa’

Divertida série romântica que reforça os caracteres da “argentinidade” feminina. Produção do conhecido Adrian Suar, conta a história de uma mulher na faixa dos 40 que busca transformar o namorado em marido. Clichês e algo de machismo poderiam ser melhor dosados, mas a série faz rir com seu bom roteiro.

Assista ao trailer aqui.

A Fondo

María Jimena Duzán, a mais importante jornalista colombiana, apresenta diariamente as mais importantes notícias da Colômbia dando, agora, uma ótimo panorama sobre o processo eleitoral em seu país, que começa ainda neste mês. No programa, passam candidatos, líderes da situação e da oposição e muitos outros atores da vida pública.

Veja aqui.



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