Guerra contra o Irã esgota armamento dos EUA – 10/08/2026 – Mundo

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A guerra do presidente Donald Trump contra o Irã esgotou os estoques de armamentos dos EUA a níveis preocupantes, desviando suprimentos da Ásia e da Europa, segundo autoridades.

O suprimento em rápido declínio de mísseis de defesa aérea e outros armamentos na Europa e na Ásia não apenas deixa o Exército americano menos equipado, mas também poderia deixar Rússia e China mais confiantes caso considerem um potencial conflito com os Estados Unidos, disseram especialistas.

Bombardear o Irã consumiu milhares de mísseis que contêm peças de precisão vindas de uma rede global de fornecedores —e que podem levar anos para serem produzidos. Defender-se das barragens de retaliação do Irã desgastou os estoques americanos de mísseis de defesa aérea a um ponto que alarmou, em particular, autoridades de alto escalão do governo Trump, e levou os EUA a atrasar entregas a clientes europeus e asiáticos.

A campanha contra o Irã forçou o Pentágono a deslocar às pressas navios, aeronaves e unidades de defesa aérea de toda a Europa e Ásia para o Oriente Médio, um esforço com consequências em cascata para a manutenção de equipamentos e o moral das tropas, disseram autoridades americanas.

O resultado é uma erosão significativa do poder de fogo dos EUA nessas regiões, uma mudança com implicações de longo prazo que é uma preocupação crescente nas comunidades militar e de inteligência, disseram autoridades dos EUA e do Ocidente.

A secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, disse que os EUA têm “poder de fogo mais do que suficiente para realizar qualquer operação que o presidente ordenar, a qualquer momento e lugar”. Mas especialistas dizem que é quase certo que a crise de munições —parte da qual Trump herdou do presidente Joe Biden— vai perdurar além de sua Presidência.

Tom Karako, membro sênior do Center for Strategic and International Studies, em Washington, disse que o esgotamento de munições representa uma “aniquilação geracional dos meios de dissuasão convencional”. O impacto sobre como as decisões são tomadas em Pequim e Moscou, segundo ele, pode ressoar por anos.

“É impossível que isso não tenha um efeito significativo no cálculo decisório da Rússia e da China”, disse Karako, que vem acompanhando os estoques de armamentos dos EUA. “Eles podem fazer algo bastante deliberado, no momento que escolherem, porque não se esqueçam, vamos levar anos para reconstituir os estoques.”

Em reuniões que antecederam a guerra contra o Irã, o general Dan Caine, presidente do Estado-Maior Conjunto, informou o presidente sobre os riscos de recorrer ainda mais aos estoques já reduzidos, segundo duas autoridades com conhecimento das conversas. Ainda assim, Trump decidiu seguir em frente, acreditando que a guerra terminaria rapidamente. Um porta-voz de Caine se recusou a comentar suas conversas privadas com o presidente.

Depois de atacar o Irã ao lado de Israel em 28 de fevereiro, Trump prometeu várias vezes a vitória em poucas semanas. Mais de cinco meses depois, ele continua incapaz de dobrar Teerã à sua vontade, ou de encontrar uma forma de encerrar a guerra.

Diz-se que a escassez de munições teve um papel em convencer Trump a adiar uma grande campanha de bombardeios no fim do mês passado. Mas isso também mostra como a decisão do presidente de atacar o Irã deixou os EUA e seus aliados mais vulneráveis a outras ameaças.

O governo Trump tem trabalhado com fornecedores militares para tentar acelerar e expandir a produção. Mas mesmo levando em conta esses esforços, pode levar mais de dois anos para os EUA reporem os mais de 1.500 mísseis interceptadores de defesa aérea Patriot usados na guerra contra o Irã. O estoque atual desses mísseis é de menos de 1.700, segundo duas pessoas informadas sobre o aasunto que falaram sob condição de anonimato para discutir detalhes militares sensíveis.

Trump ficou enfurecido com as reportagens sobre a escassez de munições. Ele ordenou uma ampla caçada a vazamentos em todo o governo e está exigindo processos criminais. Ele disse a assessores, em privado, que qualquer discussão sobre a crise de munições sinaliza fraqueza aos inimigos do país, e continua, em público, a minimizar o problema, negar que ele exista ou culpar seu antecessor.

“Nossas empresas de defesa estão fabricando mais munições do que nunca, ao mesmo tempo em que expandem rapidamente suas fábricas e equipamentos em níveis recordes”, escreveu Leavitt em comunicado. “Qualquer pessoa que tenha acesso a informações militares sigilosas e as vaze para a imprensa está traindo essa confiança e violando a lei federal, e deve ser processada com todo o rigor.”

Sean Parnell, principal porta-voz do Pentágono, disse que as reportagens sobre escassez de armamentos são falsas, acrescentando que os EUA têm “tudo o que é necessário para atacar no momento e no lugar escolhidos pelo presidente”.

O impacto mais imediato da escassez de munições está sendo sentido em Kiev, capital da Ucrânia. O presidente Volodimir Zelenski disse nesta última semana que o número de mísseis de defesa aérea fornecidos ao seu país pelos aliados ocidentais caiu para um terço este ano em comparação com 2025.

Na quarta-feira (5), a Ucrânia não conseguiu interceptar nenhum dos 28 mísseis disparados pela Rússia, que mataram pelo menos 17 pessoas. Mais interceptadores, disse Zelenski, “poderiam ter salvado a vida das pessoas”.

O problema fundamental, dizem analistas, é que a Rússia aumentou sua produção de mísseis mais do que os apoiadores ocidentais da Ucrânia conseguiram fabricar sistemas de defesa aérea. A guerra contra o Irã agravou esse descompasso.

O deputado Jason Crow, democrata do Colorado, que integra os comitês de Serviços Armados e de Inteligência da Câmara, disse que o processo de aquisição de defesa dos EUA “não permite realmente acompanhar a natureza da guerra”.

“Francamente, nossos adversários não têm esses entraves”, disse Crow.

Os EUA e seus aliados começaram a acumular reservas de mísseis de defesa aérea em meio à crise global de fornecimento. Trump, questionado por um repórter no Salão Oval na quinta-feira (6) sobre o apelo de Zelenski por mais mísseis, respondeu: “Nós também queremos mísseis”.

Trump insiste regularmente que o apoio de Biden à Ucrânia é o culpado por quaisquer deficiências nos estoques de armamentos dos EUA. Ele escreveu nas redes sociais na quinta-feira que os EUA tinham “quantidades massivas de ‘munições’, especialmente de certos tipos”.

É verdade que os EUA possuem um vasto arsenal de munições menos avançadas, incluindo mais de 100 mil bombas guiadas lançadas por aeronaves, segundo o Center for Strategic and International Studies. O problema com muitas dessas armas é que elas precisam ser lançadas perto de seus alvos, colocando mais aeronaves de guerra em risco de serem abatidas.

Mísseis de cruzeiro de última geração evitam esse risco porque podem ser lançados a centenas de quilômetros de distância. Mas o Exército americano esgotou em grande parte seus estoques de certos tipos de mísseis de longo alcance —como os Army Tactical Missile Systems, ou ATACMS, e os Precision Strike Missiles— durante a guerra contra o Irã, disseram autoridades.

Mísseis de longo alcance seriam essenciais aos EUA em uma guerra contra a China ou a Rússia, países com sistemas de defesa aérea muito mais avançados do que o Irã. Ambos os governos vêm monitorando de perto os estoques americanos, estimando-os a partir de fontes públicas, como o processo orçamentário do Congresso e anúncios de fornecedores de defesa, além de seus satélites espiões e outros sistemas de vigilância, segundo uma autoridade americana familiarizada com o assunto.

“A situação está se configurando de forma muito favorável”, escreveu recentemente Aleksandr Kots, um popular blogueiro pró-guerra russo. “Quanto menos armamento guiado de precisão os EUA tiverem, menos chegará à Ucrânia.”

Mesmo que o sucessor de Trump queira aumentar a ajuda à Ucrânia, acrescentou Kots, “fazer isso será impossível com arsenais vazios”.

O impacto de longo prazo do esgotamento pode ser maior na Ásia, onde os EUA há muito se preparam para a possibilidade de uma invasão chinesa a Taiwan, a ilha que Pequim reivindica como sua. O Comando Indo-Pacífico das forças americanas se tornou uma importante fonte de munições para a guerra contra o Irã, com muitos de seus mísseis Tomahawk e outros de longo alcance na região —essenciais para um conflito com a China— transferidos de seus estoques.

Centenas de interceptadores de defesa aérea avançados foram enviados ao Oriente Médio a partir da Coreia do Sul e de outros pontos da Ásia, enquanto um grupo de ataque de porta-aviões e alguns dos destróieres mais avançados da Marinha foram deslocados da região para apoiar a campanha contra o Irã.

As tropas americanas na Coreia do Sul ficariam mais vulneráveis em uma guerra com a Coreia do Norte porque o Pentágono redirecionou ativos de vigilância tática para o Oriente Médio e retirou sistemas de defesa aérea, disse uma autoridade americana.

O esgotamento tem efeitos abrangentes. Na Ásia, algumas autoridades americanas temem que a Coreia do Sul e o Japão passem a duvidar da capacidade dos EUA de protegê-los e fiquem mais inclinados a buscar suas próprias armas nucleares para estabelecer uma dissuasão mais confiável. Na Europa, aliados dos EUA já estão buscando aumentar as compras de armamentos de outros países, dado o acúmulo de pedidos em atraso na produção americana.

Rússia e China há muito entendem que o estoque americano é limitado, dizem autoridades, e agora compreendem que os inventários vão levar tempo para serem reabastecidos a níveis que permitiriam a execução de determinados planos de guerra. Nesse sentido, um conflito mais prolongado com o Irã beneficia Moscou e Pequim, disseram alguns analistas.

“Quanto mais essa guerra se prolongar e mais continuarmos trocando fogo com o Irã, pior fica o problema das munições para os EUA, e maior e mais visível se torna essa janela de vulnerabilidade”, disse Todd Harrison, analista de defesa do American Enterprise Institute.

Dara Massicot, especialista em Forças Armadas russas no Carnegie Endowment for International Peace, disse que Moscou já vinha reavaliando suas suposições sobre os estoques militares americanos antes do início da guerra contra o Irã.

Os quatro anos de conflito na Ucrânia, segundo ela, podem ter mostrado aos planejadores militares russos que os EUA eram mais lentos para aumentar a produção de armamentos do que eles acreditavam.

“Esse é o tipo errado de conta para entrar no sistema russo, porque aí eles começam a mudar sua percepção sobre o próprio poder em relação à Otan“, disse Massicot, que recentemente retornou de uma viagem à Ucrânia. “Isso os leva a chegar a conclusões que talvez não queiramos que eles cheguem.”


Anton Troianovski
, Jonathan Swan
, Eric Schmitt
e Julian E. Barnes



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