É um momento fascinante para a política mundial e os mercados globais. Geopoliticamente, o mundo está em turbulência, principalmente porque os Estados Unidos, ainda a superpotência, tornaram-se um ator fundamentalmente imprevisível.
O presidente Donald Trump está ativamente desmontando a ordem internacional que Washington construiu e liderou nos últimos 80 anos. No entanto, os mercados financeiros estão em alta —nos EUA, no Leste Asiático, na América do Sul e em grande parte da Europa.
Os investidores estão errados? Ou o cenário é mais complexo? Há três forças principais que moldarão os próximos anos para a política e os mercados globais.
Primeiro, não há restrições políticas ao desenvolvimento acelerado da inteligência artificial. Essa é a força motriz por trás da alta dos mercados nos EUAs e em outros lugares e, para o bem e para o mal, ela deve continuar praticamente sem obstáculos.
A revolução tecnológica mais importante da história —que criará tanto oportunidades extraordinárias quanto perigos sem precedentes— chegou em um momento de “recessão geopolítica”, um momento histórico em que o sistema global existente está dando lugar a algo novo que ainda não conseguimos enxergar.
Essa intensificação da deterioração nas relações entre governos deixará a inteligência artificial praticamente sem regulamentação efetiva. As empresas que criam e produzem IA agora funcionam como atores geopolíticos soberanos por direito próprio, porque suas invenções se mostrarão essenciais para nossa segurança e prosperidade futuras.
Esta é a lei da selva aplicada à competição tecnológica implacável (e excepcionalmente bem financiada) —uma “corrida armamentista” de IA entre EUA e China, mas também entre empresas como OpenAI, Anthropic e suas concorrentes. Os incentivos para crescimento em detrimento da cautela são inegáveis.
Segundo, o efeito de mercado do crescimento acelerado da IA será compensado por um contínuo imposto político sobre a globalização. Durante meio século, o maior motor do crescimento econômico global foi o impulso americano por mercados abertos para acelerar os fluxos transfronteiriços de ideias, informações, pessoas, bens, serviços e, mais importante, capital.
Mas os EUA não estão mais impulsionando a globalização. Em vez disso, estão liderando um movimento para inserir interesses políticos nas relações comerciais e financeiras para ganhos políticos estreitos, forçando outros governos a adotar o protecionismo para proteger suas próprias indústrias e trabalhadores. (Trump intensificou essa tendência, mas não a criou. Os democratas americanos já estavam recuando do livre comércio antes de Trump fazer sua primeira aparição política.)
O resultado é uma mudança profunda, politicamente inspirada, de um pensamento de soma positiva para soma zero na economia global, à medida que outros governos respondem à pressão comercial dos EUA. Outros países permanecem relutantes em abandonar a globalização, e vimos acordos comerciais inovadores envolvendo a União Europeia, Índia, Mercosul, China, Canadá e outros. Mas a tendência global em direção ao protecionismo politicamente motivado continua sendo a regra do momento.
Terceiro, há uma tendência internacional em direção a “riscos de cauda”, perigos de alto impacto que permanecem improváveis —mas não são mais tão implausíveis quanto antes. Uma superpotência imprevisível força seus aliados tradicionais a diversificar suas apostas em segurança e economia enquanto rivais testam o que se tornou possível. Maior atrito entre governos torna os problemas internacionais mais difíceis e custosos de resolver.
Veja a guerra EUA-Israel contra o Irã. A decisão de Trump de atacar o Irã nasceu do excesso de confiança, mas também da deterioração das relações dos EUA com seus aliados —que não tiveram influência na tomada de decisão de Trump.
O resultado foi a disrupção comercial mais impactante desde a pandemia. A guerra ainda não desencadeou uma recessão econômica global, mas independentemente do que aconteça com o futuro próximo do estreito de Hormuz e a possível abertura de mais uma rodada de negociações sobre o programa nuclear iraniano, o risco é óbvio de que essa guerra pode se reacender a qualquer momento, com implicações globais ainda maiores na próxima rodada.
De forma mais ampla, um Oriente Médio mais perigoso, com mais espaço para atores desonestos operarem e menos restrições à retaliação americana, radicalizará mais atores —sejam grupos combatentes como os houthis no Iêmen, ou grupos terroristas como o Estado Islâmico e seus descendentes, ou lobos solitários empoderados por novas tecnologias perigosas.
Há outros riscos de cauda globalmente consequentes e geopoliticamente induzidos. No momento, parece que a Ucrânia tem impulso em sua guerra contra os invasores russos, deixando Vladimir Putin em um isolamento cada vez mais perigoso. Quanto mais essa guerra se aproxima de uma humilhação para o Kremlin, maior o risco de que um Putin desesperado possa recorrer a um ataque nuclear tático contra a Ucrânia ou ataques mais agressivos e diretos a países da Otan na linha de frente para mudar o jogo.
Esses cenários se tornam mais plausíveis pela recente decisão da Casa Branca de renunciar a qualquer papel na mediação para o fim dos combates. Nenhum desses cenários perigosos é provável, mas todos são mais prováveis do que muitos estão dispostos a admitir.
Esses são apenas os riscos que já são visíveis. A falta de governança sobre IA e outras novas armas de guerra tornará qualquer conflito futuro menos previsível e mais perigoso. A ausência de coordenação em saúde global, com o governo dos EUA menos disposto a liderar e a Organização Mundial da Saúde (OMS) com menos recursos, torna uma futura pandemia mais provável de se desenvolver e menos provável de ser contida.
Em resumo, os avanços tecnológicos que estão impulsionando os mercados provavelmente continuarão, mas o risco de disrupção em larga escala também está aumentando. Isso tornará os próximos anos tão excepcionalmente difíceis de prever quanto qualquer momento na memória viva.




