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“Melhor a gente ir embora porque ela vai explodir tudo”; “Eu estava dirigindo e um motorista disse que me mataria e me mandaria para o inferno”; “um homem passou correndo e atirou uma pedra em minha nuca gritando ‘volta para o seu país'”.
Esses são alguns dos relatos coletados pelo 3º Relatório de Islamofobia Brasil, sob coordenação da professora da USP Francirosy Barbosa. O grupo decidiu pesquisar especificamente como o preconceito contra muçulmanos impacta as mulheres da religião — 328 mulheres deram relatos, que foram anonimizados pelos pesquisadores.
Elas são particularmente vulneráveis à islamofobia porque muitas carregam uma marca visível da fé: o véu, ou hijab, em árabe.
Os dados mostram que há uma sensação de insegurança entre as mulheres da religião no Brasil: 92,2% afirmaram que há discriminação contra as muçulmanas, e 80% contaram ter sofrido diretamente preconceito.
Os relatos atingem brasileiras —sejam elas convertidas à religião (o que no Islã é chamado de “reversão”) ou de família islâmica— assim como estrangeiras.
Muitos dos casos coletados por Francirosy e os demais pesquisadores envolvem o hijab. São frequentes as piadinhas sobre serem “mulheres bomba” ou associações de muçulmanas ao terrorismo.
A xenofobia também aparece como elemento central, mesmo quando se tratam de brasileiras, em um discurso orientalista que coloca a fé islâmica como elemento necessariamente estrangeiro ao Brasil.
“Eu estava dentro do ônibus. Estava lotado, um cara entrou e começou a gritar dizendo que eu tinha que voltar para meu país. Ele começou a berrar ‘coloquem a saudita para fora do ônibus’ e começou a usar palavras de baixo calão”, contou uma das mulheres, que é brasileira convertida.
Algumas vezes, as agressões extrapolam para o âmbito profissional. Uma das entrevistadas disse ter sido demitida devido ao uso do hijab. Outras relataram que foram proibidas de usar o véu para manter o sustento.
“Me sinto extremamente constrangida. Fui informada pelo RH que o islã não é a cultura da empresa”, disse uma delas.
Como já falamos aqui nesta newsletter, há casos que se tornam físicos, como de duas muçulmanas agredidas em um shopping em Foz do Iguaçu neste ano. O relatório da USP mostra que não se tratou de exceção.
As mulheres ouvidas relatam que tiveram o hijab arrancado, levaram joelhadas ou pedradas no meio da rua e sofreram ameaças de soco —impedido apenas, em um dos relatos, pela rápida atuação de um segurança de um estabelecimento. Muitas foram agredidas, segundo suas histórias, por homens, acrescentando um componente de violência de gênero à mistura de horrores.
O relatório aponta que a islamofobia no Brasil é uma experiência recorrente que atravessa o cotidiano dessas mulheres, da rua ao ambiente de trabalho, combinando preconceito religioso, xenofobia e violência de gênero.
“O brasileiro é tido como povo acolhedor ao estrangeiro, mas isso na realidade ocorre apenas superficialmente. Quando os hábitos e costumes do estrangeiro divergem muito de sua cultura observam-se os mesmos comportamentos xenófobos de outros países”, conclui uma das mulheres ouvidas pela USP.
Uma mulher para conhecer
Marie-Louise Eta, 34
A alemã se tornou nesta semana a primeira mulher a treinar uma equipe masculina em uma liga nacional da Europa. O time Union Berlin nomeou Eta como treinadora interina até o fim da temporada.




