Apenas no primeiro semestre deste ano, as forças de Israel cometeram 467 violações dos direitos de jornalistas palestinos, o que inclui a morte de oito deles, de acordo com um relatório recente do Sindicato dos Jornalistas Palestinos sobre os ataques aos profissionais da imprensa.
“O alvejamento de jornalistas é sistemático e decorre de uma política oficial”, diz Omar Nazal, vice-presidente do sindicato. Além das mortes, Nazal cita violações como detenção, uso de gás lacrimogêneo, confiscação de equipamentos e fechamento de veículos de imprensa.
O governo israelense nega as acusações. Procuradas pela Folha, as Forças Armadas de Israel afirmaram que “rejeitam categoricamente qualquer alegação de que atacam jornalistas ou seus familiares de maneira deliberada”. A nota também diz que o Exército “conduz operações somente contra alvos militares legítimos, em total conformidade com a legislação internacional”.
Diversas organizações internacionais contestam essas afirmações. Segundo o CPJ (Comitê para a Proteção dos Jornalistas), as forças de Israel foram responsáveis pela morte de 209 jornalistas palestinos desde o início do conflito em Gaza, em 7 de outubro de 2023, quando o grupo terrorista Hamas fez um mega-atentado.
As forças de Tel Aviv também causaram a morte de profissionais da imprensa no Iêmen, no Líbano e no Irã, acrescenta. Ainda segundo o comitê, trata-se do Exército responsável pelo maior número de mortes de jornalistas no mundo.
Na quinta-feira (6), duas entidades internacionais publicaram suas investigações sobre a morte da jornalista Amal Khalil, ocorrida em abril no sul do Líbano. A Human Rights Watch e a Anistia Internacional afirmaram que o caso deve ser investigado como um possível crime de guerra.
O relatório do Sindicato dos Jornalistas Palestinos aponta também a violência atribuída a colonos israelenses na Cisjordânia, que seriam responsáveis por cerca de 15% dos casos levantados. “São parte do mesmo amplo sistema de repressão, apesar de agirem em roupas civis”, afirma Nazal.
“Os crimes cometidos contra jornalistas palestinos afetam, em primeiro lugar, os próprios jornalistas, que pagam o preço com seu tempo, sangue e, em muitos casos, suas vidas”, diz o vice-presidente.
No entanto, a repressão à imprensa tem um efeito mais amplo do que em Israel, na Cisjordânia e em Gaza, segundo o sindicato palestino. “Afeta todos os que dependem da imprensa para se informarem”, afirma Nazal. “Essas violações privam as pessoas de sua liberdade de acesso a diferentes perspectivas.”
O impacto no acesso à informação é especialmente evidente em Gaza. As forças israelenses impedem a entrada de jornalistas estrangeiros nesse território palestino, cujo acesso Tel Aviv controla por terra, mar e ar. Atualmente, a mídia internacional, incluindo a brasileira, depende do trabalho dos jornalistas de Gaza. São eles que, em grande parte, fotografam e filmam o conflito, arriscando-se nesse processo.
Em nota divulgada à reportagem, o PIPD (Instituto Palestino de Diplomacia Pública) afirmou que o governo de Binyamin Netanyahu trava hoje “uma guerra pelo controle da informação e, nesse campo de batalha, os jornalistas palestinos são os principais alvos”. As violações registradas na região resultam “em uma capacidade reduzida de divulgar informações sobre a realidade dos territórios atacados e, consequentemente, na impossibilidade de responsabilizar os autores dessas violações”, afirma.
A nota do PIPD diz ainda que essas violações ameaçam jornalistas em todo o mundo. “Quando se estabelecem precedentes em um lugar, [esses ataques] tendem a se espalhar, permitindo que regimes autoritários e criminosos sigam o mesmo caminho. A própria profissão está em jogo.”
A situação também afeta jornalistas de Israel. Em julho, a sede da emissora israelense Channel 12 foi alvo de um ataque em meio à repercussão da cobertura de abusos cometidos contra um palestino detido em uma base militar. Uma pessoa quebrou as portas de vidro da entrada do prédio e deixou um bilhete com uma ameaça de morte. A mensagem dizia que os ataques continuariam até que a emissora se retratasse pela cobertura –caso contrário, “alguém acabará morrendo”.




