As Forças Armadas de Israel declararam todo o território do Líbano ao sul do rio Zahrani uma “zona de guerra”, nesta quarta-feira (27), cobrindo como espaço potencial de operações aéreas e terrestres uma área inédita neste século e que vai além da que ocupou de 1982 a 2000.
“O Exército de Israel não está tirando o pé do acelerador. Pelo contrário, eu disse para acelerar ainda mais”, havia dito na segunda-feira (25) o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu.
A expansão das operações foi anunciada pelo porta-voz em língua árabe do Exército israelense, Avichay Adraee, acompanhada de uma ordem de retirada de todos os habitantes ao sul do rio, incluindo cidades maiores e até então fora da zona de exclusão, como Tiro, na costa, e Nabatieh, esta já além do rio Litani —ambas atingidas pelos novos ataques.
A divisa geográfica do rio Litani é o limite ao sul do qual se retiraram as forças de Israel após a invasão no início da década de 1980 e da ocupação do território libanês; é também ao sul desse rio que ainda opera a frágil missão da ONU (Unifil), cujo mandato termina no fim do ano sem resultados esperados e sem renovação prevista.
As ordens para que civis se retirem para o norte do rio Zahrani, portanto, indicam nova fase do conflito entre Israel e o Hezbollah, o que sugere planejamento e disposição de Tel Aviv de ampliar sua presença militar em uma área ainda maior do território vizinho —e apesar de um cessar-fogo em vigor desde o dia 17 de abril, mas apenas no papel.
Os dois lados desrespeitam a trégua com ataques que têm aumentado gradativamente e já vêm ocorrendo nessa área desde o início do cessar-fogo.
Segundo o Centro Alma, grupo de pesquisa de Israel que se dedica às fronteiras norte do país e têm relações com o Exército, Tel Aviv lançou 784 ataques aéreos fora da zona de exclusão, de cerca de 570 km², segundo o jornal britânico Financial Times.
A área é uma faixa dentro de território libanês também chamada de “linha amarela”, assim como a divisa semelhante criada na Faixa de Gaza durante a trégua no território palestino. Apenas 78 bombardeios ocorreram dentro da zona libanesa.
Por outro lado, também segundo o Centro Alma, o Hezbollah atacou forças israelenses ou comunidades no norte de Israel 545 vezes desde a trégua, a grande maioria desses ataques operados com drones. Dez soldados israelenses foram mortos, segundo Tel Aviv.
Enquanto Netanyahu anunciava o aprofundamento das operações no Líbano no início da semana, Beirute afirmava que novos ataques de Israel mataram ao menos 31 pessoas em um período de 24 horas.
De acordo com o Ministério da Saúde libanês, mais de 3.200 pessoas morreram desde o início dos ataques, e mais de 1,2 milhão foram deslocadas pelo conflito desde que o Hezbollah se juntou à reação do Irã aos ataques de Israel e Estados Unidos, no fim de fevereiro.
A facção xiita apoiada por Teerã, por sua vez, disse nesta quarta-feira (26) que travou combates próximos com o Exército israelense na cidade de Zawtar al-Sharqiyah, na margem norte do rio Litani e cerca de 10 km da fronteira com Israel.
Delegações dos dois países têm se reunido sob mediação do governo de Donald Trump em Washington, em conversas que resultaram na extensão do apenas teórico cessar-fogo, embora a mera reunião de representantes dos dois países, formalmente em guerra desde a criação do Estado judeu, não seja pouco relevante.
O Departamento de Estado espera uma nova reunião nesta sexta-feira (29) com delegações militares dos dois países, e negociações políticas nos dias 2 e 3 de junho.
O fator que mais dificulta as conversas, no entanto, não estará à mesa: o Hezbollah discorda de qualquer negociação entre Beirute e Tel Aviv que não passe pelo fim do conflito de Israel e EUA com seu fiador, o Irã, e promete não baixar as armas. Israel, por sua vez, aproveita de sua posição de força para não abrir concessões em seu objetivo de desarmar e, se possível, eliminar de vez o grupo xiita.
Espécie de Estado dentro do Estado libanês, a facção é um grupo social de alta capilaridade no país, em particular entre a populosa comunidade muçulmana xiita.
Além disso, acredita-se que sua força militar, mesmo com a destruição de sua cúpula de liderança desde o início da guerra de Israel contra o Hamas em 2023, é maior que a do Exército libanês, este também com quadros influenciados pela facção.
O Hezbollah é ainda um partido político —o significado do nome do grupo é “partido de Deus”— com representação no Parlamento e cargos no governo, em razão do arranjo sectário da política libanesa após o fim da guerra civil.




