O jornalista e escritor israelense Gideon Levy afirma que o apoio incondicional dos Estados Unidos a Israel está com os dias contados devido à crescente oposição da opinião pública às ações do governo israelense em Gaza.
Mas isso, para ele, não é necessariamente uma má notícia. “Não é que Israel deixará de existir. Mas Israel não poderá conduzir todas essas operações militares como faz hoje”, diz o israelense, um dos jornalistas mais premiados de Israel e uma das poucas vozes no país críticas à guerra em Gaza.
Ele está no Brasil para participar da Flipei (Festa Literária Pirata das Editoras Independentes) e lançar seu livro “O Massacre de Gaza: Relatos de uma Catástrofe”, publicado pela editora Elefante.
Seu livro traz uma visão do contexto que precedeu os ataques terroristas do Hamas no 7 de Outubro, em que mais de 1.200 israelenses foram mortos e 251 sequestrados, e da guerra em Gaza, que já matou mais de 73 mil palestinos. Por que é importante ter essa perspectiva?
Tudo isso não começou no 7 de Outubro, como também não começou com Binyamin Netanyahu. Existe essa tendência de achar que tudo se resume a Netanyahu e que, e assim que nos livrarmos dele, Israel se transformará em um paraíso. Israel não era um paraíso dos direitos humanos antes de Netanyahu e não será depois.
Agora, o 7 de Outubro foi um ponto de virada para os cidadãos judeus de Israel. Quase todos os israelenses que conheço, inclusive a maioria dos esquerdistas, acreditam que, depois do 7 de Outubro, Israel passou a ter o direito de fazer o que quiser. Não há mais limites.
E a segunda crença que se disseminou é a de que não há inocentes em Gaza, não há palestinos inocentes. Isso terá consequências terríveis, porque antes ainda tínhamos esperança, pois havia um campo da paz em Israel. Houve muitas manifestações nos últimos três anos, principalmente contra Netanyahu e a favor dos reféns. Pouquíssimas foram contra a guerra. Ninguém da oposição que pode substituir Netanyahu foi contra a guerra.
Israel realizará eleições em outubro, e pesquisas apontam que Netanyahu não conseguirá formar uma coalizão e permanecer no poder. Com a saída dele, há alguma chance de mudança na política de Israel para Gaza, o Líbano e o Irã?
Acho que Netanyahu será substituído em outubro. Não existe uma única pesquisa séria que dê a ele maioria. Aqueles que podem substituí-lo serão melhores, mas não nas questões centrais. Serão melhores em relação à corrupção, ao sistema jurídico, à democracia para os judeus.
Valorizo todas essas coisas. Mas nenhum deles foi ou será contra a guerra no Líbano, em Gaza, no Irã, o apartheid e a ocupação. Isso significa que a política básica continuará.
Como Netanyahu será lembrado na história?
A história será muito crítica em relação a ele. Para mim, será, antes de tudo, lembrado pelo genocídio. Por outro lado, quais são suas conquistas? Israel é um Estado pária. Os israelenses têm vergonha de dizer que são israelenses quando viajam para o exterior. Isso não começou com ele, mas ele piorou muito a situação.
Pesquisas mostram que mais de 90% dos israelenses apoiam as ações das Forças de Defesa de Israel em Gaza e a guerra contra o Irã. Isso vai mudar?
Não vejo isso acontecendo. Em Israel, é muito mais fácil obter apoio a uma ação militar do que a qualquer tipo de acordo político ou diplomático. Existe um acordo sobre Gaza. Ele tem muitas lacunas. Mas veja como a opinião pública israelense está reagindo. Dizem que, se for implementado, será uma catástrofe. Novamente, isso remonta ao 7 de Outubro, porque não há espaço para outras alternativas além de passar de uma guerra a outra.
O que poderia mudar a situação em Israel em relação a Gaza?
A única forma é o mundo acordar, exatamente como aconteceu com a África do Sul, quando houve o boicote ao apartheid. Tratem Israel como trataram a África do Sul, e isso produzirá efeitos. Mas o mundo não parece suficientemente empenhado. E não sei como os israelenses reagiriam a um boicote. Isso pode torná-los ainda mais radicais. Qualquer crítica a Israel é vista como antissemitismo. Os israelenses não se olham no espelho e dizem: “Talvez haja algo de repulsivo no que estamos fazendo”.
Mas um boicote puniria toda a população, assim como sanções…
Não há outra maneira. Se você quer promover uma mudança radical, não pode ser seletivo. Eu também deveria ser boicotado. Eu mereço. Faço parte de Israel. Eu entenderia perfeitamente. Se eu fosse punido, se pessoas não me convidassem para eventos ou não estivessem dispostas a falar comigo, eu entenderia.
Sou israelense e todo israelense tem algum tipo de responsabilidade. Não podemos fugir. Não é Netanyahu, somos todos nós. Realmente não acredito que Israel mudará por conta própria, vai acordar e dizer “sou contra o genocídio”.
Suas colunas vão contra o que pensa a maioria da população israelense. O senhor sofre intimidação em Tel Aviv, onde vive?
Tenho dois privilégios. Um deles é ser judeu. E o segundo é ter o [jornal israelense] Haaretz, que é uma plataforma muito respeitável e que me dá toda a liberdade do mundo. Posso escrever o que quiser. Isso não seria possível em nenhum outro veículo além do Haaretz.
Houve períodos difíceis, como em 2014, quando tive guarda-costas por alguns meses. Foram tempos duros. Eu não podia sair de casa. As pessoas cuspiam em mim, me xingavam. Mas, nos últimos anos, como não apareço mais na televisão, porque a TV israelense me baniu desde o início da guerra, sou menos reconhecido. Então, não enfrento problemas. Há uma mulher maluca no parque onde corro. Ela sempre grita para mim, às 6h da manhã: “Traidor! Traidor!”. Consigo lidar com isso.
Dois dias depois dos ataques do Hamas, o senhor foi ao kibutz Be’eri e disse que foi uma das coisas mais horríveis que já havia testemunhado. Qual é sua visão sobre a facção extremista Hamas?
O Hamas é o partido mais forte em Gaza, e nada mudará isso. Politicamente, está mais forte hoje do que antes. Eu não gosto do Hamas e não acho que possa ser parceiro de um futuro verdadeiramente novo. Eles são ruins para os palestinos, não apenas para nós, israelenses.
Mas precisamos entender que não é possível substituí-los. Assim como não é possível mudar o regime no Irã. E basta dessa megalomania de afirmar que Israel pode promover essas mudanças de regime, como os EUA. Até eles fracassaram nisso. Temos de conviver com o que temos.
Mas o Hamas é cruel com a população palestina…
Sem dúvida, muito. Mas o que se pode fazer? Não é possível substituí-lo pela força. Talvez no longo prazo, uma nova realidade mude isso. Neste momento, não há alternativa.
Há alguns dias, Trump anunciou que o Hamas havia concordado em se desarmar. Depois, o Hamas disse que sim, mas somente depois que Israel cumprir sua parte no acordo e se retirar de áreas ocupadas. O governo de Israel não se pronunciou. Depois, Itamar Ben-Gvir, ministro da Segurança Nacional israelense, publicou no X que a única solução para Gaza é “incentivar a emigração e destruir o Hamas”. A retirada de toda a população de Gaza é o objetivo?
É o objetivo oculto. Não é o declarado. Acho que a maioria dos israelenses percebe que isso não é viável, porque não há nenhum país no mundo que esteja disposto a aceitar essas pessoas. Então essa ideia foi deixada de lado por enquanto. Mas, se surgir uma oportunidade, com certeza.
Digo mais: Ben Gvir é o único que propõe uma solução. É uma solução nazista. Qual é a posição dos demais? Eles não querem que o Hamas governe Gaza, nem a Autoridade Palestina, nem um governo internacional em Gaza. Então quem vai governar Gaza? Ben Gvir aparece e diz: “Vamos nos livrar deles”. Uma solução nazista.
O senhor vê o apoio dos EUA a Israel diminuindo no curto prazo?
Vejo uma mudança drástica em um prazo muito curto. A atual política em relação a Israel durará, no máximo, até o fim do mandato de Donald Trump. Se os democratas assumirem o poder, está muito claro.
Veja o que está acontecendo na comunidade judaica dos EUA. Netanyahu se tornou tóxico. Essa é uma mudança irreversível. Talvez seja saudável para Israel, embora seja muito doloroso. Essa relação na qual podemos fazer o que quisermos e receber tanta ajuda, dinheiro, armas e apoio no Conselho de Segurança da ONU corrompia, não era saudável para Israel.
O que acontece se e quando Israel perder o apoio dos EUA?
Israel nunca foi tão dependente dos EUA. Temos o apoio da Micronésia…Fora a Micronésia, há aquela outra ilha, Nauru. A Europa está apenas esperando que os EUA deem sinal verde para mudar sua política em relação a Israel, porque a opinião pública europeia se tornou anti-Israel.
Dependemos totalmente do apoio, da tecnologia e das armas dos Estados Unidos. Não há alternativa. Rússia e China não apoiarão Israel. A perda do apoio dos EUA pode provocar uma mudança gigantesca. Não é que Israel deixará de existir. Mas Israel não poderá conduzir todas essas operações militares como faz hoje.
Raio-X | Gideon Levy, 73
É colunista do Haaretz, um dos principais diários de Israel, desde 1988, e membro do conselho editorial do jornal. Formado em ciência política pela Universidade de Tel Aviv. Serviu nas Forças de Defesa de Israel, onde teve sua primeira experiência em jornalismo, como repórter da Rádio do Exército. Venceu o Prêmio Sokolov, o mais importante do jornalismo israelense, em 2021, entre inúmeros outros prêmios.




