No dia em que se completa uma semana do bloqueio imposto pelo governo de Javier Milei a jornalistas na Casa Rosada, a ONG Repórteres Sem Fronteiras mostrou que a Argentina caiu 11 posições no ranking anual de liberdade de imprensa feito pela organização.
Segundo o relatório divulgado nesta quinta-feira (30), a Argentina está na 98ª posição entre 180 países —o pior resultado desde 2002, quando a ONG começou a fazer a série.
Apesar das oscilações ao longo dos anos, a nação costumava pontuar melhor que seus vizinhos da região. A tendência mudou no relatório de 2023, quando a Argentina ficou na 40ª posição —11 a menos do que o de 2022. Na década anterior, o país vinha flutuando entre as posições 48 e 69, sempre em uma situação “relativamente boa”, segundo a ONG, atrás somente da melhor classificação.
Também em 2023, a nação perdeu essa categoria e passou a ser classificada de “problemática” pela ONG, caindo novamente este ano. Agora, a liberdade de imprensa é “difícil”, apenas um degrau a mais do que o pior nível, o “muito grave”.
Antes da recente derrocada, que coincide em grande parte com o governo Milei, a Argentina já havia passado por fases ruins nessa seara, de acordo com os rankings da Repórteres Sem Fronteiras.
Em 2006, por exemplo, o país caiu para o 82º lugar, a sua pior colocação até o ano passado. Naquele momento, o presidente Néstor Kirchner mantinha um confronto direto com a imprensa e usou cortes de verba publicitária oficial para tentar controlar a mídia —uma prática que a sua esposa e sucessora, Cristina, consolidaria.
Nenhuma época, porém, foi tão crítica como a atual. Desde 2022, o país já caiu 69 posições, e agora está atrás de nações como Hungria, Chipre e Bolívia.
A avaliação divulgada nesta quinta, que se refere ao ano de 2025, nem sequer inclui a última ofensiva contra a imprensa no país: o bloqueio de jornalistas credenciados na Casa Rosada após a emissora TN (Todo Noticias) exibir imagens gravadas com óculos inteligentes dentro da sede do governo. A medida esvaziou a sala de imprensa do prédio que funcionava praticamente sem interrupção desde 1940.
No mesmo dia em que vetou a presença dos profissionais, Milei compartilhou na rede social X uma imagem manipulada mostrando a repórter responsável pela filmagem algemada e vestindo um uniforme de prisioneira. Em outra publicação, chamou jornalistas de “lixo imundo”.
“Ser corrupto, aceitar subornos e violar as leis de segurança não fica impune. Algum dia, os lixos imundos dos jornalistas (95%) terão que entender que não estão acima da lei. Eles abusaram do sistema legal. Isso não fica impune”, afirmou ele, em uma mensagem que começa com a sua habitual sigla NOL$ALP (não odiamos suficientemente os jornalistas, em espanhol).
A jornalista Luciana Geuna, apresentadora do programa no qual as imagens foram exibidas, afirmou que a filmagem “não se tratava de uma gravação clandestina”, mas de um recurso “para contar a história política de uma forma mais visual, narrando-a a partir dos corredores comuns da Casa Rosada”.
“Para vocês terem uma ideia, cada uma das imagens que gravamos está em áreas que são repetidas milhares de vezes nas redes sociais, quando os alunos fazem visitas guiadas à Casa Rosada e, com seus celulares, gravam a visita. Elas também aparecem no Google Street View”, afirmou.
Mesmo assim, o programa de televisão foi denunciado pela Casa Militar, agência responsável pela segurança do presidente argentino.
Desde então, diversas entidades pediram a revisão da medida, incluindo a Conferência Episcopal da Argentina e diversas entidades de jornalismo. Segundo a imprensa local, a Casa Rosada recuou da decisão e voltará a permitir o acesso de jornalistas credenciados a partir da próxima segunda-feira (4).
A Apera (Associação de Jornalistas da República Argentina) disse que, “em uma democracia, a Sala de Imprensa da Casa Rosada não deveria estar fechada” e que vai apelar “a todos os recursos institucionais para que seja reaberta”.
“O acesso dos jornalistas à sede do Poder Executivo é uma prática institucional consolidada que nunca foi interrompida de forma generalizada e é essencial para garantir o direito da sociedade de receber informações sobre as ações do governo”, afirmou a Adepa (Associação de Entidades Jornalísticas Argentinas).
Embora inédita na história recente da Argentina, a ação parece ter sido inspirada na política de Donald Trump na Casa Branca. Desde que voltou ao poder, o republicano impôs diversos entraves à entrada dos jornalistas à órgãos públicos nos Estados Unidos.
Em outubro, diversos jornalistas entregaram suas credenciais ao Pentágono por não concordarem com uma política segundo a qual jornalistas poderiam ser considerados riscos à segurança e terem seus crachás revogados caso solicitassem a militares não autorizados a divulgação de informações.
No mesmo mês, o governo proibiu o acesso de jornalistas a uma parte da sala de imprensa da Casa Branca sem agendamento prévio sob a justificativa de proteger “informações sensíveis”.
A Repórteres Sem Fronteiras associou a estratégia de Milei à de Trump no relatório divulgado nesta quinta. “Os fervorosos apoiadores de Donald Trump na América Latina, Javier Milei e Nayib Bukele, seguem a estratégia do ocupante da Casa Branca contra a mídia e, como era de se esperar, realizam o mesmo movimento”, afirmou a ONG, citando também o presidente salvadorenho.
“Argentina e El Salvador registraram um declínio significativo, ligado à deterioração, entre outras coisas, dos indicadores políticos e sociais, marcando um aumento na hostilidade e na pressão do governo em relação à imprensa”, diz o documento.




