O político alemão Martin Schulz, que passou mais de 20 anos no Parlamento da União Europeia e liderou o bloco de esquerda no órgão, acredita que um dos grandes erros de progressistas hoje é ser pessimista —e que Lula vai vencer as eleições deste ano no Brasil porque, ao contrário, investe em uma mensagem otimista.
Para o ex-presidente do Parlamento Europeu, Lula “é alguém que, em toda a vida, não se permitiu ficar cabisbaixo. Por isso creio que seja um bom exemplo para a esquerda”, que, segundo ele, “se acostumou a ser pessimista” enquanto a direita “transmite, de alguma forma, otimismo, com o lema: vamos destruir tudo, e aí as coisas vão melhorar“.
No Brasil para o aniversário de 50 anos da Fundação Friedrich Ebert, da qual é presidente, Schulz conversou com a Folha sobre a extrema direita no mundo, incluindo o partido AfD (Alternativa para a Alemanha), o governo Friedrich Merz, as eleições brasileiras, e a política externa de Donald Trump.
Está cada vez mais claro que a AfD poderá se tornar o partido mais forte da Alemanha nas próximas eleições. Quando tempo o cordão sanitário contra a extrema direita ainda vai durar?
Tenho receios de fazer previsões sobre uma eleição que acontecerá em 2029. Se as pesquisas de hoje fossem votos, sim, a AfD seria o partido mais votado. Mas não acredito que isso acontecerá, porque o governo atual está no poder há apenas um ano. Temos desafios imensos que não podem ser superados em tão pouco tempo. Sim, as pessoas estão impacientes. Veremos se isso significa que votarão em um partido extremista.
Dito isso, o cordão sanitário precisará existir enquanto a AfD atacar as bases da nossa Constituição. Na minha opinião, trata-se de um partido anticonstitucional, e, como democrata, não é possível colaborar com antidemocratas.
Algumas vozes na CDU [partido de Merz] talvez enxerguem a situação de outra maneira.
Se a CDU permitir que o cordão sanitário acabe, a CDU acaba. Este é, aliás, o objetivo da AfD, cujo principal inimigo é a CDU. Há alguns parlamentares no Bundestag [Parlamento alemão] e nos estados que gostariam de entrar em coalizão com a AfD amanhã. Mas as correntes mais fortes da CDU não permitirão isso, e a esmagadora maioria do partido acredita que não é possível governar o país com o apoio de um partido anticonstitucional.
Mas qual seria a alternativa, sem trocadilho, para os outros partidos caso a AfD obtenha 40% do voto?
Isso é especulação. O melhor caminho é mostrar que o Estado de Direito funciona e é capaz de resolver problemas. Não podemos esquecer que temos um governo que chegou ao poder após uma eleição antecipada, algo raro na Alemanha. Graças a isso, entre novembro de 2024 e maio de 2025 houve praticamente seis meses de paralisia. E temos há pouco mais de um ano uma coalizão que herdou uma imensidão de problemas que não podem ser resolvidos em doze meses.
Problemas do governo Olaf Scholz?
Principalmente do governo Angela Merkel. Reformas necessárias não foram feitas. Além disso, há a imprevisibilidade do cenário internacional. Um país voltado à exportação, como é a Alemanha, precisa de estabilidade no mundo. Mas vivemos hoje um período de instabilidade desencadeado pelo governo dos Estados Unidos.
Vejamos a guerra do Irã. Berlim tem pouca influência sobre esse conflito, que, entretanto, complica a busca da coalizão [Merz] por investimentos. Eu permaneço otimista. O governo precisa de um ou dois anos para mostrar que o país avança, que os investimentos são visíveis.
O crescimento do extremismo, é claro, não é um problema exclusivamente alemão. A extrema direita vem obtendo sucesso em lugares tão distintos como a França ou o Brasil. Como se explica isso?
Medo. O mundo em que vivemos, o século 21, é uma época de medo. Isso é em parte compreensível. Nada é como antes. Essa aceleração que vivemos é cada vez mais rápida e imprevisível. A notícia das seis da manhã já está velha às seis da tarde. A pressão que resulta disso, a necessidade de sucesso que é impossível de apaziguar, leva a essa aceleração sem paralelo histórico.
Ainda assim, temos aqui no Brasil ou na Alemanha uma democracia. E a democracia é uma forma de governo muito lenta. Quando se quer que todos opinem e discutam um tema, é preciso tempo —tempo do qual não dispomos nessa época de aceleração. E essa contradição cria um vácuo político que a extrema direita preenche com sua mensagem simples e grosseira.
Por que a esquerda é incapaz de se aproveitar dessa insatisfação toda?
É uma pergunta que não me canso de fazer. Por que não conseguimos transformar essa emoção destrutiva em algo construtivo? Tomemos como exemplo a inteligência artificial. A esquerda só sabe falar dos riscos da IA. Nada mais. Por que não podemos falar sobre as oportunidades da IA? Aqui em São Paulo o trânsito é um problema sério. A IA pode ajudar a gerenciar o tráfego. A IA pode nos ajudar a otimizar o sistema de saúde, pode ajudar o trem a chegar no horário. Por que temos que sempre discutir os riscos?
A esquerda se acostumou a ser pessimista. É um erro terrível. Quando se transmite pessimismo às pessoas, não podemos nos espantar que elas fiquem pessimistas. E a direita transmite, de alguma forma, otimismo, com o lema: vamos destruir tudo, e aí as coisas vão melhorar.
É preciso reconhecer, entretanto, que o Brasil é uma exceção, pois vocês têm aqui um presidente que é, essencialmente, um otimista. Lula é alguém que, em toda a vida, não se permitiu ficar cabisbaixo. Por isso creio que seja um bom exemplo para a esquerda. Ele não é perfeito, mas sempre procura soluções que ajudem os mais pobres. Não dá pra ser mais de esquerda que isso.
O Brasil já está em clima de eleição. Como o senhor avalia o governo do PT e as chances do presidente contra Flávio Bolsonaro?
Acredito que o Brasil é um país bem-sucedido. A economia está mais estável do que se podia imaginar há um tempo atrás. E é interessante ver que há um forte fluxo de capital estrangeiro graças à instabilidade da política americana. Isso certamente é bom para o Brasil. O desemprego está relativamente baixo. Ou seja: os últimos quatro anos foram bons, social e economicamente falando. Por isso, acho que Lula tem boas chances de ser reeleito.
Mas o PT fez o bastante para aliviar as preocupações que o senhor mencionou no campo da economia, da segurança?
Eu acompanho religiosamente os desdobramentos no Congresso em Brasília. O PT faz o que pode. O Centrão obstrui tudo. E tenho a impressão que esses políticos, esses partidos, que são bastante heterogêneos, acreditam que o povo não entende isso. Mas não é verdade. As pessoas sabem quem impede o avanço de certas medidas sociais.
Ou seja, temos uma maioria de direita no Parlamento e um esquerdista na Presidência. Por isso, a resposta para a sua pergunta é sim, o PT faz o bastante. Mas não tem a maioria que precisa para que as prioridades do presidente sejam aprovadas com mais velocidade.
Trump disse recentemente que o Brasil é um país politicamente difícil e perigoso, e voltou a apoiar a família Bolsonaro. O senhor vê uma tentativa de interferência na campanha eleitoral?
Quando tal frase sai da boca de um presidente americano —’apoio Bolsonaro e o país é perigoso’— trata-se de interferência. Para mim, o governo que é perigoso está em Washington, não em Brasília.
E acredito que Flávio Bolsonaro não fica muito feliz com frases como esta, porque, se conheço os brasileiros, não acredito que vão aceitar que um estrangeiro decida quem vai virar presidente do Brasil. Ou seja, acho que essa interferência é um estorvo para Flávio Bolsonaro. Entretanto, ele não deveria ficar surpreso ao ver Trump apoiar sua candidatura de maneira trumpista.
Depois dessa fala, Lula disse que Trump não deveria se meter no Brasil. Líderes europeus, no entanto, por vezes bajulam o presidente americano. Qual é a melhor estratégia para lidar com os EUA hoje?
O que fazem os governos europeus? Eles tratam o presidente americano de maneira cordial, como o fizeram com todos seus antecessores. Joe Biden e Barack Obama sempre foram recebidos de maneira amigável na Europa, com presentes e jantares. Na época, ninguém perguntou: por que a Merkel bajula tanto o Obama? Se Trump hoje insulta os europeus, e eles reagem da maneira como reagem, a mensagem é: não desceremos a esse nível.
Mas a mensagem não pode ser entendida como: somos fracos e Trump pode fazer o que quiser, pois é mais forte?
Não. A questão é a seguinte: um presidente francês não pode usar a linguagem de Donald Trump. Isso nada tem a ver com fraqueza, e sim com uma tentativa de reagir ao caos com tratamento respeitoso. E acredito que se encontrou uma maneira de lidar com Trump. Mas, repito: os líderes europeus não podem, por decisão própria, descer ao nível de Trump. Ninguém aceitaria isso na Europa.
Raio-X | Martin Schulz, 70
Martin Schulz nasceu no lado alemão da tríplice fronteira com a Holanda e a Bélgica em 1955. Filiou-se ao SPD quando tinha 19 anos de idade, elegendo-se vereador na cidade de Würselen em 1984 e prefeito em 1987. Foi eleito membro do Parlamento Europeu em 1994, nas primeiras eleições após a reunificação da Alemanha. Em 2012, tornou-se presidente do órgão, cargo que ocuparia até 2017, ano em que tentou, sem sucesso, eleger-se primeiro-ministro da Alemanha, sendo derrotado por Angela Merkel. É presidente da Fundação Friedrich Ebert, ligada ao SPD, desde 2020.




