Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto do ex-líder de Cuba Raúl Castro, afirmou estar disposto a negociar com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, caso tenha oportunidade. A declaração, feita ao jornal USA Today e publicada nesta segunda-feira (6), ocorreu num momento em que o regime lida com pressão de Washington e no qual a população da ilha sofre com grave crise econômica e humanitária.
“Posso negociar com qualquer pessoa designada pelos EUA. Se tiver a oportunidade, claro que com Trump”, disse Rodríguez Castro à publicação americana. Ele também afirmou que Cuba está disposta, nas condições adequadas, a libertar pessoas consideradas prisioneiras políticas, o que sinaliza uma abertura para a discussão de um dos principais pontos de atrito entre Havana e Washington.
As falas foram feitas em um contexto de forte tensão entre os países. Em maio, os EUA anunciaram o indiciamento de Raúl Castro, 94, por seu suposto envolvimento na derrubada de dois aviões civis pela Força Aérea de Cuba, em 1996. Ele enfrenta quatro acusações de homicídio e duas de destruição de aeronave, segundo documentos judiciais do caso.
A medida representou um novo agravamento das relações entre os rivais e ocorreu enquanto Trump intensifica a pressão por uma mudança de regime em Cuba, controlada por comunistas desde a revolução liderada por Fidel Castro, em 1959.
Também em maio, Cuba divulgou os nomes de milhares de presos beneficiados por um decreto publicado no mês anterior, enquanto conduzia conversas com os EUA que incluíam, entre outros temas, a situação dos presos políticos. O decreto, assinado em abril, concedeu “perdão pleno e definitivo” a uma extensa lista de detentos. O regime cubano classificou a medida de um “gesto humanitário e soberano”.
Nos últimos dias, o regime anunciou também reformas econômicas. Em junho, o Parlamento da ilha aprovou o maior pacote de mudanças para o setor desde a Revolução de 1959.
Entre as reformas destacam-se a transformação das empresas estatais em sociedades comerciais “por ações ou de participação”, a autorização para empresas privadas com mais de cem empregados, a participação de capital estrangeiro no setor privado e a abertura de contas em moeda estrangeira para pessoas físicas.
A iniciativa busca amenizar a crise econômica e energética enfrentada por Cuba, que foi agravada após o governo Trump pressionar países fornecedores de petróleo e outras fontes de energia à ilha a interromper o comércio com Havana, sob a ameaça de tarifas comerciais. Na prática, a estratégia reduziu o acesso cubano a combustíveis, intensificou os apagões na ilha e aprofundou a deterioração da economia.
O presidente americano já disse também que seria uma “honra tomar Cuba”. Em janeiro, forças americanas invadiram a Venezuela, aliada de Havana e outro país governado pela esquerda na América Latina, e capturaram o ex-líder Nicolás Maduro.
Raúl Guillermo Rodríguez Castro é assessor próximo de seu avô e coronel do Ministério do Interior, órgão responsável pela segurança interna e pela inteligência de Cuba.
O ex-líder Raúl Castro, por sua vez, ainda exerce grande influência política no regime. Segundo especialistas ouvidos, Havana pode estar tentando explorar uma eventual disposição de Trump para negociar acordos sem exigir mudanças estruturais na ilha, algo semelhante ao que está ocorrendo na Venezuela pós-Nicolás Maduro.




