Os cartazes estão por toda parte em Hong Kong. Enquanto caminhava pela cidade, onde estive há alguns dias, via pelos metrôs, nos ônibus, nas estações de ferry: “fique longe de apostas —não coloque sua vida em jogo”. A campanha contra o vício em apostas é impossível de ignorar, mesmo nas grades de segurança do porto.
Hong Kong convive com o jogo legalizado desde 1891, quando começaram as corridas de cavalo. Em 2003, o governo legalizou as apostas em futebol e concedeu monopólio ao Hong Kong Jockey Club, com a lógica de canalizar a demanda para um mercado regulado. O resultado foi ambíguo e o mercado ilegal não apenas sobreviveu como se expandiu. Em 2024, as apostas ilegais de basquete movimentaram entre HK$ 70 bilhões e 90 bilhões (ou de R$ 44,5 bi a R$ 57 bi). Cartéis com servidores no Camboja recrutam jovens para abrir contas fantasmas usadas em lavagem de dinheiro. Em abril, um estudante de 14 anos foi detido por aliciar colegas para o esquema.
Três jogadores de futebol profissional foram recentemente julgados por manipulação de resultados, acusados de combinarem gestos durante partidas para sinalizar a apostadores ilegais. A polícia também prendeu 203 pessoas numa operação contra casas de jogo em março e apreendeu HK$ 3 milhões (R$ 1,9 milhão) em apostas lavadas em outra ação.
Na China continental, a abordagem é oposta. Toda forma de jogo é proibida desde 1949. O Grande Firewall bloqueia sites de apostas estrangeiros, e usar VPN para acessá-los é crime. Em 2025, o governo repatriou 952 suspeitos em operações conjuntas com Mianmar e Tailândia. Um caso revelou mais de 200 plataformas que movimentaram ¥ 2,7 bilhões (R$ 1,7 bi).
O Brasil seguiu um terceiro caminho e talvez tenha ficado com o pior dos dois mundos. Legalizou as apostas de quota fixa em 2018, mas passou oito anos sem regulamentá-las. A lei 14.790 veio só em 2023 e as regras entraram em vigor em janeiro de 2025. O vácuo permitiu a proliferação de plataformas sem nenhuma contrapartida de fiscalização que Hong Kong ao menos tentou construir.
Os números da Confederação Nacional do Comércio do Brasil ilustram o estrago. As bets retiraram R$ 143 bilhões do varejo desde 2023 e os gastos com apostas cresceram 500% em dois anos. Cerca de 270 mil famílias entraram em inadimplência severa e o endividamento chegou a 80% em março.
De forma semelhante, a contaminação do setor pelo crime organizado segue em linha com Hong Kong. A Operação Narco Fluxo, da Polícia Federal, por exemplo, tem investigado lavagem de R$ 1,6 bilhão via apostas ilegais e tráfico de cocaína. No Rio, o Ministério Público mapeou bicheiros que criaram bets em Curaçao para lavar dinheiro. A CPI da Manipulação de Jogos indiciou William Rogatto, que confessou ter rebaixado 42 times e lucrado R$ 300 milhões.
A experiência asiática oferece duas lições. Hong Kong mostra que legalizar sem capacidade de reprimir o mercado paralelo apenas cria uma camada adicional de oferta, sem eliminar o crime. A China, por outro lado, mostra que a proibição total exige um aparato de vigilância digital que nenhuma democracia consegue replicar.
O Brasil não construiu nem o arcabouço regulatório de um, nem a barreira tecnológica do outro. Legalizou tarde, regulamentou mais tarde ainda e agora tenta conter um mercado que cresceu sem freios por quase uma década. O resultado? Ah, esse pode acabar se refletindo nas urnas em outubro.




