Enquanto os líderes dos Estados Unidos e da China se reuniam em Pequim nesta quinta-feira (14), Xi Jinping tinha em mente uma rivalidade muito mais antiga.
O dirigente chinês invocou um alerta do mundo clássico, quando as cidades-estado gregas de Atenas e Esparta entraram em guerra, afirmando que EUA e China deveriam ter cuidado com a “Armadilha de Tucídides” em suas próprias relações.
Xi citou o conceito, popularizado nas últimas décadas, ao alertar que Pequim e Washington poderiam entrar em um “lugar extremamente perigoso” se o presidente Donald Trump tentasse impedir a China enquanto ela se afirmava sobre Taiwan.
A armadilha mencionada por Xi recebeu o nome de Tucídides, o antigo general ateniense, cujo relato da Segunda Guerra do Peloponeso (431 a.C. a 404 a.C.) é considerado uma das primeiras histórias militares escritas.
Nele, Tucídides argumentou que a guerra entre Atenas e Esparta foi impulsionada pela ameaça representada a uma potência estabelecida por outra em ascensão. “A ascensão de Atenas assustou Esparta e os forçou à guerra”, escreveu Tucídides. (A tradução precisa é contestada entre os classicistas).
Para alguns estudiosos, a guerra —e a explicação oferecida para ela naquela passagem antiga— prenunciou praticamente todos os grandes conflitos que se seguiram. O teórico de relações internacionais Graham Allison a batizou de “Armadilha de Tucídides” no início dos anos 2010.
“A ideia é que, quando uma grande potência estabelecida se depara com uma potência em ascensão, o conflito entre as duas é certamente provável, se não inevitável”, explica Daniel Sutton, classicista da Universidade de Cambridge que estuda Tucídides.
Na versão de Xi da analogia, uma China encorajada é a Atenas para uma Esparta americana.
Para demonstrar sua teoria, Allison identificou 16 momentos na história em que uma potência em ascensão ameaçou deslocar uma potência dominante. Segundo sua contagem, que é subjetiva, 12 das 16 rivalidades terminaram em conflito.
Por mais de uma década, Xi e diplomatas chineses de alto escalão invocaram o conceito, mas o apresentaram como um conto de advertência, e não como uma inevitabilidade. “Não existe no mundo essa tal Armadilha de Tucídides”, disse Xi em 2015, diante de uma plateia que incluía o ex-secretário de Estado Henry Kissinger.
O tema estava novamente em sua mente nesta quinta-feira. Falando antes de Trump no Grande Salão do Povo, Xi disse que o mundo havia chegado a uma nova encruzilhada. “A China e os EUA podem superar a ‘Armadilha de Tucídides’ e estabelecer um novo paradigma para as relações entre grandes potências?”, perguntou.
Ryan Swan, especialista em relações China-EUA no Centro Internacional de Estudos de Conflitos de Bonn, na Alemanha, viu o uso repetido do conceito por Xi como parte de um esforço diplomático mais amplo de Pequim para se apresentar como uma “grande potência responsável” que pode coexistir pacificamente com os EUA.
Desde que assumiu o cargo em 2012, Xi tem pressionado para que os EUA tratem a China como igual e não se oponham a Pequim em sua própria região, uma validação que autoridades chinesas acreditam que produziria uma coexistência mais estável.
“A China vê a Armadilha de Tucídides não como um modelo preditivo, como ocasionalmente tem sido usado em círculos ocidentais, mas como uma ameaça que pode e deve ser evitada”, disse Swan.




