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Desde o ano passado, uma proposta de fusão entre dois órgãos da ONU está dando o que falar entre as organizações, pesquisadoras e ativistas que lidam com direitos das mulheres e com saúde reprodutiva.
Em 2025, o secretário-geral António Guterres lançou um plano de reforma ampla da octogenária organização. Entre as medidas, está a junção da ONU Mulheres com o UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas.
Os defensores da ideia dizem que ao combinar os órgãos, a ONU elimina custos e diminui o trabalho repetido, podendo gastar mais recursos efetivamente implementando políticas de igualdade de gênero na ponta —em vez de gastar com manutenção de sedes, funcionários e sistemas.
Mas, como quase tudo neste mundo, os benefícios de uma fusão são contestados por uma parcela significativa do movimento feminista e de organizações ligadas às principais causas de ambos os órgãos. E eles têm se manifestado nas últimas semanas, depois que um relatório oficial sobre a junção foi finalmente publicado pela ONU, em 24 de abril.
O relatório diz que há três caminhos possíveis: integração sob a ONU Mulheres, em que a figura do UNFPA como entidade autônoma desapareceria; o contrário, com o fim da ONU Mulheres sob o guarda-chuva do fundo; e a criação de uma nova entidade que uniria as duas organizações.
O documento conclui que a terceira via é a mais vantajosa. A própria criação da ONU Mulheres, em 2010, afirma, é um exemplo de organização fundada a partir da junção de partes. A nova entidade passou a reunir sob uma só marca: a Divisão para o Avanço das Mulheres, o Escritório da Assessora Especial em Questões de Gênero, o Instituto Internacional de Pesquisa e Treinamento para o Avanço das Mulheres e o Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher.
O que vem suscitando polêmica na nova fusão é que as ativistas e organizações entendem que juntar as duas coisas é misturar bananas e maçãs. Elas podem ser complementares, mas definitivamente não são a mesma coisa.
O UNFPA procura assegurar a implementação de políticas de saúde sexual e reprodutiva no mundo, o que inclui, é claro, atuar para a emancipação sexual e reprodutiva de mulheres e meninas —mas não só. Já a ONU Mulheres é focada em múltiplas áreas de igualdade de gênero que não têm nada a ver com a parte reprodutiva.
Um documento elaborado pela ONG Global South Coalition for SRHR & Development Justice aponta que “os programas do UNFPA são menos numerosos, maiores e predominantemente de escopo nacional, em linha com um mandato voltado à implementação e a sistemas. Já os programas da ONU Mulheres são mais numerosos, menores e frequentemente de múltiplos escopos (nacional, regional e global), em consonância com um mandato normativo, de coordenação e também operacional.”
A International Planned Parenthood Foundation, a maior provedora de saúde sexual e reprodutiva do mundo, também diz que há mais riscos de pressão conservadora sobre uma entidade única.
“Em vez de dispersar o risco entre entidades complementares, a consolidação pode criar um ponto focal para pressão política coordenada, incluindo tentativas de reabrir linguagem já acordada, restringir fluxos de financiamento ou redefinir mandatos operacionais”, afirmou em nota na semana passada.
Outra preocupação é que qualquer mudança nas organizações agora possa desestabilizar fluxos de financiamento e afetar programas na ponta.
Por ora, a fusão ainda está sendo analisada —vai ser preciso esperar os próximos capítulos para entender qual o desfecho dessa disputa.
Uma mulher para conhecer
Mariana Salomão Carrara (1986)
É bem possível que você já conheça a escritora Mariana Salomão Carrara e eu esteja chovendo no molhado. Afinal, ela é duas vezes vencedora do prêmio São Paulo de Literatura e uma das autoras brasileiras de grande repercussão.
Mas eu nunca tinha lido nada dela até o ano passado, quando devorei, de uma só vez, os livros “Se Não Fossem as Sílabas do Sábado” (Todavia) e “A Árvore Mais Sozinha do Mundo” (Todavia). Então, se você for uma atrasada ou um atrasado como eu, tem uma boa oportunidade de conhecer a prosa da escritora que lança neste mês o romance “Cláudia Vera Feliz Natal” (Todavia).
Nesse livro, acompanha um juiz que precisa prestar contas sobre um caso sensível que vem arrastando há meses.




