Oriente Médio: Trump quer sair por cima, mas não consegue – 11/08/2026 – Mundo

Oriente Médio: Trump quer sair por cima, mas não consegue


O presidente Donald Trump talvez queira se desvencilhar do Oriente Médio. Mas o Oriente Médio não quer se desvencilhar dele.

No fim de semana, o presidente americano disse que sua nova estratégia seria “agir discretamente” no Irã, sugerindo que pretende pressionar o país persa a fechar um acordo sem que os Estados Unidos recorram a uma ação militar de grande escala.

Mas um duro lembrete dos limites do poder dos EUA na região veio de Israel: o primeiro-ministro Binyamin Netanyahu disse no domingo (9) que estava descartando o plano de paz de Trump para a Faixa de Gaza.

Os dois conflitos no Oriente Médio evidenciam tanto a ânsia de Trump por proclamar vitória quanto sua incapacidade de impor sua vontade, apesar do enorme poderio militar que conseguiu mobilizar.

Trump está “claramente tentando encontrar uma saída com a aproximação das eleições de meio de mandato“, disse Brian Katulis, pesquisador sênior do Instituto para o Oriente Médio, um centro de estudos de Washington. Em vez disso, prosseguiu Katulis, “a realidade está dando um tapa na cara dele”.

Trump enfrenta redução de estoques de armamentos, um regime iraniano decidido a infligir sofrimento aos EUA, um primeiro-ministro israelense lutando pela reeleição e eleitores americanos abalados pela alta dos preços provocada pela guerra com o Irã. As eleições de meio de mandato, em novembro, aproximam-se e aumentam o custo político da turbulência para Trump e os republicanos.

Trump expôs sua abordagem discreta em relação ao Irã em uma breve entrevista ao site de notícias Axios no domingo. Em vez de fazer novas ameaças militares, afirmou que os EUA estavam “apenas observando o Irã, com sua inflação enorme e o fato de que eles não têm dinheiro”. E acrescentou: “Vai dar certo. Sempre dá certo. É como um jogo de xadrez”.

“Agora, eles podem causar problemas? Sim, podem causar problemas”, disse Trump a jornalistas no Salão Oval na segunda-feira (10), reconhecendo a capacidade do Irã de continuar atacando navios comerciais no estreito de Hormuz. “Mas estão falidos.”

Ao descrever o regime iraniano como submetido à pressão econômica, Trump evoca a própria situação. O preço médio de um galão de gasolina permaneceu acima de US$ 4 nesta semana, mais de US$ 1 acima do preço registrado quando EUA e Israel começaram a bombardear o Irã, em 28 de fevereiro.

Pesquisas mostram que até mesmo os republicanos estão cada vez mais insatisfeitos com a guerra, e o movimento político de Trump se dividiu por causa de sua decisão de iniciar uma ação militar.

“Não acho que o presidente tenha opções muito boas”, disse Suzanne Maloney, especialista em Irã e vice-presidente do Instituto Brookings, em Washington. “Os pontos de pressão sobre os iranianos, embora reais, são mais suportáveis e toleráveis do que aqueles que afetam a economia dos EUA e o cálculo estratégico do governo.”

Um funcionário da Casa Branca escreveu em comunicado, na segunda, que as “ações ousadas” de Trump no campo de batalha no Irã e na diplomacia sobre Gaza “fortalecerão a segurança dos EUA por muitos anos”.

“As políticas fracassadas de Obama e Biden foram marcadas pela conciliação”, disse Olivia Wales, porta-voz da Casa Branca. “A bem-sucedida política de Trump é marcada pela força dos EUA.”

Em Gaza, Trump alardeou um “avanço histórico” em 30 de julho: um acordo em várias etapas pelo qual o grupo terrorista Hamas se desarmaria e Israel se retiraria do território palestino. Em uma publicação em sua rede, a Truth Social, toda escrita em letras maiúsculas, celebrou um “desdobramento incrível” que “todos diziam que jamais poderia ser alcançado”.

Nos dias seguintes ao anúncio, contudo, Gaza registrou um aumento dos bombardeios israelenses letais. No domingo, Netanyahu, que no início deste ano entrou na guerra contra o Irã ao lado de Trump, rejeitou o plano do presidente americano: “Quero deixar isto claro: Israel está descartando o documento de 15 pontos”.

Para alguns analistas, o episódio em Gaza foi mais um lembrete da redução da influência americana no Oriente Médio após a guerra contra o Irã, que já se arrasta pelo sexto mês sem que nenhuma das ambiciosas metas de Trump pareça perto de ser alcançada.

Muitos israelenses viram a busca de Trump por um acordo de paz com o Irã como uma traição, o que dá a Netanyahu um incentivo político para demonstrar que enfrenta Trump enquanto busca a reeleição em outubro.

No Irã e em Israel, disse Katulis, Trump “interpretou mal a dinâmica de poder regional”. Katulis também apontou o novo pacto de defesa entre Turquia, Arábia Saudita e Paquistão como um sinal de que os países buscam se resguardar diante da incerteza sobre o futuro do poder americano no Oriente Médio.

No Irã, apesar de todos os esforços de Trump para encontrar uma saída, uma nova escalada da violência pode ocorrer a qualquer momento.

As Forças Armadas americanas mantêm o bloqueio naval ao transporte marítimo destinado aos portos iranianos e disseram no sábado (8) que haviam desviado 53 embarcações comerciais nas últimas semanas, além de inutilizar 2 navios e abordar outros 2. A enorme concentração de forças militares dos EUA promovida por Trump na região, incluindo dois grupos de porta-aviões, permanece em vigor.

“Esses instrumentos nada têm de discretos”, disse Behnam Ben Taleblu, especialista em Irã da Fundação para a Defesa das Democracias, um centro de estudos de Washington que defende um comportamento linha-dura contra o país, referindo-se às sanções e ao bloqueio impostos pelos EUA. “É provável que o Irã não aceite isso passivamente.”

Os Emirados Árabes Unidos disseram no sábado que um ataque iraniano havia atingido um navio-tanque pertencente a uma de suas petrolíferas estatais enquanto atravessava Hormuz, principal artéria para o transporte do petróleo que sai do golfo Pérsico. Os houthis, uma milícia do Iêmen apoiada pelo Irã, ameaçam o transporte de petróleo saudita pelo mar Vermelho.

Um alto funcionário iraniano disse no sábado que Teerã só reabriria o estreito se os EUA atendessem a uma ampla lista de exigências, incluindo a suspensão das sanções e do bloqueio.

O funcionário, Mohammad Bagher Zolghadr, que compunha o Conselho de Segurança Nacional persa e agora é assessor do líder supremo, Mojtaba Khamenei, também exigiu reparações de guerra, levando Trump a publicar na Truth Social, na segunda-feira, que ele “também está exigindo indenização do Irã”.

A indenização paga pelo Irã, afirmou, teria de contemplar as pessoas mortas e feridas nos “muitos conflitos” do país, assim como os manifestantes iranianos mortos pelo regime. Trump disse ter instruído autoridades a buscar essa indenização em “toda e qualquer negociação futura”.

Não há registro de que Irã e EUA estejam negociando diretamente, embora o secretário de Estado americano, Marco Rubio, tenha dito na semana passada que o Irã e o vizinho Omã estavam mantendo conversas com a participação de Washington.

Na internet, alguns dos mais veementes apoiadores da decisão inicial de Trump de bombardear o Irã continuaram, na segunda-feira, a pressionar por novos ataques.

“Para aqueles que, aqui e em outros lugares, vivem em um mundo de fantasia, novas ações militares serão necessárias”, escreveu Mark Levin, apresentador da Fox News, no X. “A pressão econômica, por si só, não será suficiente.”



Fonte CNN BRASIL

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