Ortega quer a Nicarágua para si, e ninguém vai fazer nada – 25/07/2026 – Sylvia Colombo

Ortega quer a Nicarágua para si, e ninguém vai fazer


Foi na Praça da Fé, em Manágua, que milhares de nicaraguenses comemoraram, em 1979, a queda da dinastia Somoza, por meio de uma aliança que reunia a Força Sandinista, os partidos de oposição e um amplo setor da sociedade civil. Não era somente socialismo contra conservadores.

Quase meio século depois, o filme foi outro. Uma multidão se reuniu outra vez para ouvir a voz de Daniel Ortega, hoje líder de um sandinismo esvaziado e autoritário, que diz que não haverá mais eleições no país.

Parece piada, mas a situação é muito séria. A Nicarágua é um dos países mais pobres da América Latina, com sérios problemas humanitários, onde não há liberdade de expressão e com o exílio como única saída. A maioria dos oposicionistas, muitos deles ex-aliados, saiu do país.

Para compreender o peso deste momento é preciso voltar algumas décadas. Entre 1936 e 1979, a Nicarágua viveu sob a dinastia Somoza, uma das mais duradouras da América Latina. Anastasio Somoza García chegou ao poder apoiado pela Guarda Nacional, criada durante a ocupação dos Estados Unidos, e construiu um sistema em que Estado, Forças Armadas e boa parte da economia passaram a gravitar em torno da família.

Após seu assassinato, em 1956, foi sucedido pelos filhos Luis e Anastasio Somoza Debayle, que preservaram o domínio até serem derrubados pela Revolução Sandinista. As eleições existiam, mas como um teatrinho cujo final todos conhecem.

Os pleitos funcionavam sob rígido controle da máquina estatal, da Guarda Nacional e de sucessivas manipulações. A alternância existia no papel. Na prática, o poder permanecia nas mãos da mesma família. Foi justamente contra esse modelo que nasceu a Revolução Sandinista.

Nesse orteguismo, existe Congresso (com abençoados por Ortega) com partidos de oposição e pleitos periódicos. E aqui está uma distinção frequentemente esquecida. A Frente Sandinista nunca foi apenas Daniel Ortega. A revolução reuniu diferentes correntes internas, intelectuais, estudantes, empresários, movimentos sociais e até setores importantes da Igreja Católica.

O objetivo comum era derrubar uma ditadura patrimonial que tratava o Estado como propriedade privada de uma família. O triunfo de 1979 representou, para muitos latino-americanos, uma promessa de reconstrução democrática e justiça social.

A história, porém, tomou outro rumo. Rosario Murillo deixou de ser apenas primeira-dama para tornar-se copresidente da República, numa configuração inédita que concentra o poder político nas mãos do casal. Muitos dos antigos heróis da revolução, como Sergio Ramírez, Gioconda Belli e Dora María Téllez, acabaram perseguidos, presos, exilados ou privados da nacionalidade.

A relação com a Igreja Católica também sintetiza essa transformação. Nos anos da revolução, padres participaram do governo sandinista e setores importantes da Igreja apoiaram a derrubada de Somoza. Hoje, bispos são presos, religiosos expulsos e instituições católicas sofrem intervenções estatais.

Os Somoza representavam uma ditadura patrimonial clássica do século 20, sustentada pela Guarda Nacional, pelo controle econômico e pela sucessão familiar. Ortega construiu outra forma de autoritarismo, adaptada ao século 21, preservando durante anos parte da linguagem revolucionária e das instituições formais enquanto concentrava progressivamente o poder sobre eleições, tribunais, imprensa, universidades e organizações civis.

Na Praça da Fé, onde um dia se celebrou o fim de uma ditadura, a história parece ter dado uma volta completa. Ou, talvez, uma volta em espiral. Não retornou exatamente ao ponto de partida. Mas chegou perto o suficiente para transformar uma revolução em sua mais amarga ironia.


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Fonte CNN BRASIL

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