Os ambientalistas aposentados jamais imaginaram que seriam detidos como suspeitos de terrorismo enquanto dirigiam para casa, após um piquenique tranquilo, em um santuário de aves nos arredores da capital da Turquia.
Mas foi isso que aconteceu no final de junho, quando a Turquia começou a implementar medidas de segurança intensas antes da cúpula da Otan, que é realizada nesta terça (7) e nesta quarta (8). As medidas provocaram a indignação da mídia e de organizações de defesa dos direitos humanos.
Os mais de 30 de ambientalistas detidos —a maioria voluntários na faixa dos 60 e 70 anos, ligados à ONG Fundação TEMA— foram questionados por agentes antiterrorismo se haviam recebido treinamento com armas.
Alguns dos detidos mais idosos precisaram de ajuda para subir lances de escada para seus interrogatórios.
O governo do presidente turco Recep Tayyip Erdogan prioriza rotineiramente a segurança, e a imagem de uma longa comitiva presidencial, às vezes composta por dezenas de veículos, não é incomum.
Ainda assim, os preparativos de segurança para a cúpula da Otan, em Ancara, têm sido particularmente intensos. A cidade foi transformada em uma fortaleza para a chegada iminente dos líderes dos 32 países-membros da aliança militar, incluindo o presidente dos EUA, Donald Trump.
O efetivo de 70 mil agentes mobilizado é maior do que os exércitos da maioria dos membros da Otan e quase o triplo do contingente utilizado na cúpula de Haia, em 2025.
Servidores públicos receberam folga durante toda a semana para aliviar o congestionamento e agilizar a passagem das comitivas que transportarão líderes e generais —desde um aeroporto de alta segurança recém-modernizado, inaugurado por Erdogan neste mês, até seu gigantesco complexo presidencial.
Espera-se que a cúpula —descrita pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, como uma das mais importantes da história da Otan— conte com a liderança do secretário-geral Mark Rutte em esforços europeus para manter Trump comprometido com a aliança, mediante a promessa de gastos adicionais com defesa.
Paralelamente, Ancara busca demonstrar a força de sua diplomacia, as capacidades militares do país —que possui o segundo maior exército da Otan, atrás apenas dos EUA— e sua crescente indústria de defesa.
No entanto, os preparativos de segurança também evidenciaram preocupações quanto ao retrocesso democrático na Turquia.
Jornalistas de veículos conhecidos por criticar Erdogan relataram ter tido o credenciamento para o evento negado, ao passo que todas as reuniões públicas e manifestações —incluindo o uso de cartazes— foram proibidas por 12 dias.
Uma série de operações “preventivas” resultou também na detenção de mais de 200 pessoas, “a fim de desvendar as ações e atividades de organizações terroristas”, segundo autoridades. Esse número não inclui os ambientalistas detidos.
“Quando um governo autoritário sedia a cúpula, vemos credenciamento arbitrário da imprensa e mais de 200 pessoas detidas em uma operação ‘preventiva'”, escreveu nas redes sociais Nacho Sánchez Amor, relator do Parlamento Europeu para a Turquia. “Infelizmente, nada disso parece tirar o sono de Rutte.”
Organizações de defesa da liberdade de imprensa criticaram a decisão da Otan de negar credenciamento a alguns jornalistas locais para a cúpula, afirmando que a aliança se eximiu de suas responsabilidades. Autoridades turcas não comentaram a questão do credenciamento.
“A rejeição de pedidos de credenciamento de um grande número de veículos de comunicação é preocupante para a liberdade de imprensa”, afirmou a Associação de Jornalistas da Turquia em comunicado.
“Rejeitamos esse procedimento, exigimos um processo transparente e positivo”, declarou também a organização Repórteres Sem Fronteiras.
O gabinete do governador de Ancara informou no início da semana que “as medidas de segurança necessárias foram adotadas para garantir a segurança da cúpula e preservar a paz e a segurança de nossos cidadãos”.
A porta-voz da Otan, Allison Hart, disse que a aliança “conta com o país anfitrião para fornecer avaliações sobre os jornalistas de sua própria nação… É muito importante para a Otan que a imprensa possa acompanhar presencialmente os grandes eventos”.




