A fotógrafa americana Carol Guzy, 70, afirma que ainda se lembra dos gritos das crianças que viu serem separadas dos pais em corredores de tribunais migratórios nos Estados Unidos. “Você não consegue deixar de ouvir os gritos e o choro”, disse ela em entrevista à Folha. “São crianças inocentes. Elas apenas sabem que o pai está sendo levado por homens mascarados.”
Guzy venceu em 23 de abril o World Press Photo com “Separated by ICE” (separados pelo ICE, em português). A premiação é considerada a maior do fotojornalismo no mundo. Publicada no jornal americano Miami Herald, a imagem mostra filhas de um homem equatoriano desesperadas, chorando e se agarrando ao pai enquanto ele é detido por agentes do Serviço de Imigração e Alfândega americano.
Além dessa imagem, o conjunto completo das fotografias de Guzy foi premiado na categoria Reportagem, pela região da América do Norte e Central. Com o nome “Prisões do ICE no Tribunal de Nova York”, a série foi feita dentro de um dos poucos prédios federais dos EUA a que fotógrafos tiveram acesso para documentar o dia a dia desses julgamentos.
A cena ocorreu após uma audiência de imigração no Jacob K. Javits Federal Building, em Nova York, em 26 de agosto de 2025. Vencedora de quatro prêmios Pulitzer, Guzy passou cerca de seis meses acompanhando diariamente a movimentação no tribunal.
No momento das detenções, diz ela, as cenas são permeadas pelo caos. “As famílias estão cercadas por agentes do ICE e por jornalistas, então, muitas vezes, nem conseguem prestar atenção nas câmeras”, afirmou Guzy ao comentar a reação das pessoas fotografadas.
Segundo ela, apesar da vulnerabilidade, muitas famílias queriam que suas histórias fossem contadas. “Muitos imigrantes foram demonizados pela retórica política em torno da imigração. Acho importante mostrar quem essas pessoas são e o que estão enfrentando”, disse.
A fotógrafa afirmou ainda que grande parte dos detidos não possui antecedentes criminais. “Eles não são ‘os piores dos piores’, como prometia o discurso do governo”, disse, em referência a declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a deportação dos criminosos mais perigosos do país. “As famílias que acompanhei foram extremamente resilientes e cheias de dignidade. Foi algo muito impactante de testemunhar.”
Segundo a fotógrafa, a experiência revelou não apenas a dimensão da política migratória americana, mas também uma transformação mais ampla no país. “É um momento muito divisivo nos EUA”, afirmou. “Há pessoas que defendem essas detenções, e outras que falam em falta de devido processo legal e em um deslizamento para o fascismo.”
Ela diz que seu objetivo era “dar um rosto às políticas públicas”. “Nosso papel como jornalistas é mostrar o impacto humano dessas medidas”, afirmou. “Era importante documentar o que acontecia naquele tribunal, criar um registro permanente e garantir que as pessoas não desaparecessem sem o olhar da imprensa.”
A política anti-imigratória foi uma das principais bandeiras para a reeleição de Trump. Desde que retornou ao poder, o republicano intensificou deportações em massa, marcadas por operações agressivas do ICE (Serviço de Imigração e Controle de Alfândega). Nas redes sociais, vídeos de pessoas sendo retiradas de dentro de casas se espalharam.
No fim do ano passado, a situação ficou ainda mais crítica com o início da operação em Minnesota, um estado democrata. Durante protestos contra a atuação dos agentes de imigração, dois americanos foram mortos por autoridades.
Guzy também esteve em Minnesota e, ao longo da cobertura, testemunhou episódios de violência e de desespero.
Na cidade de Minneapolis, onde esteve por cerca de duas semanas durante atos contra as operações, descreveu a repressão como um ato horrível. “Havia gás lacrimogêneo, spray de pimenta e bombas de efeito moral contra manifestantes e jornalistas”, disse.
Mas, segundo a fotógrafa, nada foi tão marcante quanto as separações familiares. “Muitas vezes as crianças nem compreendem o que está acontecendo. Elas apenas veem o pai sendo levado”, disse.
Guzy afirmou que acompanhou famílias após as detenções e viu crianças desenvolverem pesadelos e precisarem de terapia.
De acordo com uma reportagem do jornal britânico The Guardian, uma análise de registros do governo americano mostrou que, durante os primeiros sete meses de Trump, as autoridades prenderam os pais de ao menos 27 mil crianças. No mesmo período, o Departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS, na sigla em inglês) deportou cerca do dobro de pais por mês em comparação com 2024.
Uma das histórias que mais marcou a fotógrafa foi a de uma menina que se culpava pela deportação do pai. “Ela disse à mãe que não o abraçou forte o suficiente e que poderia tê-lo salvado dos agentes do ICE se tivesse dado um abraço mais forte.”
A fotógrafa também disse ter percebido impacto emocional até mesmo em agentes de imigração. “Alguns ficavam visivelmente abalados com as separações familiares”, afirmou.
Apesar do desgaste emocional, Guzy diz acreditar que a documentação jornalística é essencial neste momento político dos EUA. “Há uma tentativa de ataque à liberdade de imprensa e muitos outros direitos”, afirmou. “Estamos vivendo um período muito precário.”




