No documentário “Our Brand Is Crisis” [Nossa marca é a crise] —e aqui vale insistir: falo do original de Rachel Boynton, lançado em 2005, e não da versão hollywoodiana posterior com Sandra Bullock— há uma cena ao final que ajuda a entender muito da Bolívia de hoje. Dentro do comitê de campanha, aliados comemoram a vitória presidencial de Gonzalo Sánchez de Lozada, o “Goni”, líder branco, caudilhista e elitista já há muito conhecido dos bolivianos.
Do lado de fora, porém, o país já parece em combustão: ruas tomadas, estradas bloqueadas, tochas, pedras, tensão social e um mal-estar que a política tradicional de então ainda não compreendia inteiramente.
O documentário acompanha a atuação dos marqueteiros americanos da Greenberg Carville Shrum na campanha de 2002, vencida por Sánchez de Lozada contra um então pouco conhecido Evo Morales. Criado nos Estados Unidos e representante das elites liberais tradicionais bolivianas, Goni parecia, aos olhos estrangeiros, um candidato fácil de vender: pró-mercado, alinhado ao Ocidente. A Bolívia, afinal, passara décadas sendo governada por elites brancas e urbanas mesmo sendo um país majoritariamente indígena e mestiço.
O que os consultores americanos demoraram a perceber é que a eleição era apenas a superfície de algo mais profundo. O país acumulava fraturas sociais, raciais e territoriais que já não cabiam dentro das instituições tradicionais. O filme registra sem perceber o nascimento político de Evo Morales e da revolta indígena-popular que transformaria a Bolívia nas décadas seguintes. Sem querer dar spoiler de um processo histórico amplamente conhecido, tudo acaba mal para Goni: eleito em 2002, ele cairia pouco mais de um ano depois, pressionado pela explosão social da chamada Guerra do Gás.
Por que lembrar disso agora? Porque as imagens das últimas semanas na Bolívia —bloqueios, marchas indígenas, confrontos, cidades parcialmente sitiadas— evocam aquele mesmo mal-estar histórico. Não porque a história esteja se repetindo mecanicamente, mas porque certas feridas bolivianas jamais se fecharam completamente. Na Bolívia, crises econômicas rapidamente se transformam em crises de legitimidade política.
O atual presidente Rodrigo Paz chegou ao poder prometendo encerrar quase duas décadas de hegemonia do MAS (Movimento ao Socialismo) com uma agenda liberal, privatista e de reaproximação com Washington. Retomou acordos de cooperação antidrogas com os EUA, reativou mecanismos de vigilância na região cocaleira de Cochabamba e abriu negociações amplas sobre exploração de lítio. Em Washington, Donald Trump acompanha com interesse especial a região andina e suas riquezas minerais estratégicas, fundamentais para a disputa tecnológica e energética global.
Para muitos bolivianos, porém, sobretudo entre movimentos indígenas, sindicatos e cocaleiros, esse alinhamento desperta memórias políticas profundas demais para serem tratadas apenas como política econômica. O erro recorrente de governos liberais no país talvez seja imaginar que protestos podem ser administrados apenas como questão de ordem pública.
O que reaparece agora nas ruas bolivianas talvez não seja a repetição do passado, mas algo mais difícil de resolver: conflitos históricos que continuam abertos, à espera de novos protagonistas.




