Li esta semana um artigo de Haifeng Huang, da Universidade Estadual de Ohio, que explica o erro estratégico de Washington melhor do que qualquer discurso oficial.
Huang investigou se a propaganda democrática da embaixada dos Estados Unidos na China, publicada no Weibo e no WeChat, muda a cabeça do público chinês. Ele rodou dois experimentos: um em 2018, e outro em janeiro de 2021, logo após a invasão do Capitólio.
O resultado contraria a intuição de quem acredita que ideias bonitas vendem sozinhas. Em 2018, num momento calmo, as mensagens sobre eleições e liberdade de imprensa não melhoraram a opinião dos chineses sobre os EUA. Em 2021, com a imagem americana destruída pela pandemia e pelo 6 de Janeiro, as mesmas mensagens funcionaram.
Huang resume o achado numa imagem que vale a leitura. A diplomacia pública americana opera como escudo, não como espada. Ela preserva a credibilidade que resta quando o país está sob ataque reputacional, e quase nada quando se tenta converter audiências em tempos normais.
O lado mais desconfortável do estudo vem do silêncio do título. As mensagens não mudaram a visão dos chineses sobre a própria democracia, sobre o regime chinês ou sobre a disposição de protestar. Num país com confiança alta no governo e identidade nacional forte, o som democrático bate numa parede.
Trago isso para a Folha porque a conclusão derruba duas certezas opostas ao mesmo tempo. Pequim mente quando culpa “forças estrangeiras” por cada descontentamento interno, já que nem a embaixada mais visível do planeta move a agulha. E Washington se engana quando imagina que basta pregar valores para ganhar corações alheios.
Huang nota que o efeito persiste mesmo quando a mensagem vem assinada por uma fonte anônima, não pela embaixada. O problema não é a desconfiança no mensageiro, e sim a dificuldade de impressionar um país orgulhoso e em ascensão.
A ironia fica mais cruel quando olhamos para o presente. O segundo governo Trump desmonta a estatal de notícias Voz da América, fecha missões diplomáticas e esvazia a agência de ajuda externa. O país destrói o próprio escudo no exato momento em que mais precisaria dele, com a imagem novamente ferida.
Para a América Latina, o recado é direto, e o próprio Huang cita uma piada da região. Por que nunca houve um golpe em Washington? Porque lá não existe embaixada dos EUA. O riso esconde uma verdade que vale para a competição atual.
A disputa por influência entre Washington e Pequim não se decide por sermão ideológico. Pesquisas recentes mostram que a mensagem chinesa sobre o “modelo China” convence mais audiências globais do que o discurso americano sobre o sistema americano.
O Brasil assiste a essa competição com pragmatismo, e faz bem. Quem chega com porto, crédito, painel solar e fábrica de carro elétrico compra mais simpatia do que quem chega com aula sobre separação de poderes.
Huang termina com um aviso que deveria tirar o sono de qualquer estrategista em Washington. O escudo só funciona se houver democracia robusta por trás dele e um aparato capaz de transmitir a mensagem. Os EUA enfraquecem os dois ao mesmo tempo, e ninguém parece ter avisado a Casa Branca.




